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Prolegômeno (completo )


junho 10, 2009 Por Marcy

“Meu Deus, sem caneta não sou ninguém”
Eduardo Hoffmann

 

       A personagem que você vai conhecer – Marcy – é contestatória por parte de mãe e contraditória por parte de pai e “resultou-se” na “co-valência”, apesar de covarde, também ambivalente. Entre o cotidiano e o extraordinário, o doméstico e o sublime, o rústico e o acústico, a solidão e a solidez, o hermético e a hermenêutica, o imperativo e o hiperativo, o microcomputador e o macro cosmos, a altitude e a atitude, ela prefere todos.


Apenas entre o futuro do pretérito e o passado mais que perfeito ela escolhe o presente, aliás, escolhe o momento presente para apresentar-lhes aqui, sem pretensão, porém permeada de pré-tensões, de tensões prévias mesmo, alguns registros pessoais que podem ser reportados como depoimentos, talvez mais propriamente, como desabafos.

Esbaforidos desabafos ora de momentos muito “roupa suja”, ora de situações mais “barra limpa”, mas em todos eles pode-se dizer que ela “arregaçou as mangas” para “costurar idéias e emoções” resultando em uma, aconchegante para ela, colcha de retalhos das experiências, de configuração textual ao invés de têxtil. Apenas vivências de uma pessoa vulnerável que foi chamada de “manteiga derretida” na infância pois chorava com motivo e sem motivo, simplesmente por ter um temperamento emotivo. Mais tarde Marcy encontrou motivação para fazer uma motinação frente às rédeas, redes e enredos da razão e procurou ajudas terapêuticas, psicológicas e médicas buscando fortalecer o emocional a fim de transformar a vulnerabilidade em sensibilidade, em percepção… E mais elementos do universo textil ficaram inundados e encharcados, talvez até para ela não ficar achacada .

Fato é que tendo protagonizado histórias que “dão pano pra manga” e tendo se tornado referência de mangação, quanto mais ela se expunha, seja em ambientes protegidos por cuidado e atenção ou não, mais os lenços, e mesmo os punhos das mangas, eram banhados em choros tão intensos que até a alma, dessa personagem que foi muito “levada” na infância, ficou lavada.

Inúmeras foram as tempestades, todas válidas, segundo a própria Marcy, não apenas em função dos lampejos de consciência proporcionados por alguns insights, verdadeiros raios cuja descarga alterava sua frequência vibratória, como pelo arco-íris formado após as grandes liberações energéticas, na maioria ocorridas nos meses de agosto, período avaliado por ela como invariavelmente sujeito a fortes e contínuas precipitações pessoais e também lacrimais. Período sujeito a temporais que a colocaram em circunstâncias atemporais.

Assim sendo, pode-se dizer que enquanto o corpo suave de Marcy toma uma chuveirada todos os dias - frequentemente uma ducha e em raras oportunidades um longo banho de banheira - a alma, por sua vez , é lavada todos os meses, porém, no mínimo uma vez por ano, em geral em agosto, o banho é longo e torrencial, assim como os insights, as vivências e consequentemente o texto para descrevê-los.

Aliás, é preciso dizer que a Marcy gosta de visitar os mais diversos sites da inter.net tanto quanto gosta da “visita” dos vários insights de seu eu inter.no, mesmo os mais “insigh(nifican)ts” ou insig(h)nificantes.

Para a Marcy - que é uma internauta do cyber espaço e também uma inter.nauta enquanto uma viajante do seu recôndito mundo interno - a World Wide Web, com seus sites, blogs, e tudo o mais, pode ser a maior biblioteca de informações instantâneas do planeta, mas na expressão externa, porque ela acredita que na interna somos nós mesmos, através de nossas percepções, de nossa sensibilidade, de nosso auto-conhecimento e de nossos insights.

Marcy acredita que aquilo que aconteceu na época das grandes navegações marítimas resultando na descoberta de novos continentes, e que agora acontece também no cyber espaço, pode acontecer ainda na multidimensionalidade de nosso ser de forma a que possamos descobrir muito mais acerca de “nosso continente”, ou seja “tudo o que podemos conter”, envolvendo inclusive múltiplas instâncias abstratas de nosso ser, envolvendo o nosso vir a ser.

Aliás, ela também acha que seria interessante usarmos o sentido de conter não apenas como reprimir, mas principalmente abarcar e reter, mesmo ter em si, a fim de que – de posse de nossos conteúdos – possamos libertar todo o nosso potencial transpessoal.

Marcy acha que o melhor seria nós não mais nos contermos, não mais contermos nossa ampliação, nossa expansão, e sim passarmos a conter em nós mesmos lugares nada estreitos, sempre em constante abertura para a alma, para o nosso verdadeiro eu, a fim de que possamos nos tornar, na qualidade de seres humanos, verdadeiros continentes da alma, verdadeiros continentes para a alma…

Marcy acha que ao ouvirmos o termo, “o corpo contem nosso eu”, o sentido não deveria mais ser de impedimento à manifestação de nosso eu verdadeiro mas, ao contrário, de total acolhimento a ele de forma a que expressassemos livremente : “Eu sou o que eu sou !

Marcy acredita que deveriamos aceitar convites para além de aventurarmo-nos no mar, “venturarmo-nos” também no amar, acrescentando às conquistas marítimas do passado novas conquistas - profundamente pessoais - no ritmo do amar…

E Marcy, que tem procurado esse ritmo desde sempre, se dispõe a compartilhar aqui algumas de suas dificuldades nesse rumo, mas também algumas transformações, tanto pessoais quanto transpessoais, mobilizadas pelos insights, pelas pontuações e sincronicidades da vida….

Por certo alguns dirão que se trata de um texto ou blog de auto-ajuda. E apesar de reconhecê-lo obra de fricção - porque resultante de episódios de vida nos quais ela “ralou”, se atritou, e divergiu muito ao atravessar as diversas situações adversas , e apesar de desejá-lo como obra de fricção também para o web-leitor, pois muito agradaria a Marcy que ele fosse de algum modo instigante - ela não se julga capaz de inaugurar um novo gênero literário ou, mais precisamente, literatiço, literateiro, literatelho, literaticho ou literatiqueiro, até porque seria na verdade um gênero cibernético e, assim sendo, não poderá discordar do termo auto-ajuda, até porque sente-o também legítimo. Talvez inclusive seja a mais legitima e verdadeira auto-ajuda, pois, na acepção do termo, o fato de ter mergulhado em suas intempestivas intempéries muito a ajudou propiciando reflexões, avaliações, re-formulações internas, auto-conhecimento, crescimento, amadurecimento, transformações.

Já tendo cumprido indubitavelmente a função de auto-ajuda , ampla, geral e irrestrita, para a Marcy autora - dos trajes , das trajetórias, e até dos ultrajes aqui transcritos - antes mesmo de se tornar um texto, e como todo autor ama sua obra, mesmo que ela venha a ser considerada uma autora má, ou péssima mesmo, como não é afeita a exclusividades, resolveu correr o risco e convidá-los a embarcar na leitura e a percorrerem os diversos capítulos, os vários trechos, ou melhor, as variadas opções de menu ou os diferentes circuitos destas web-páginas.

Como tais circuitos não são curtos, não devem causar choque em ninguém. Assim espera a Marcy !!! Ela espera também que vocês “curtam” sem rodeios alguns de seus circunlóquios.

Saber que alguém se dispõe a tomar conhecimento do percurso que ela fez será sem dúvida muito gratificante, mas ela gostaria sobretudo que os depoimentos estimulassem os web-leitores a construírem seus próprios registros de vida, a refletirem sobre suas vivências, a analisarem seus sonhos, a retomarem suas experiências pois, sem dúvida, é esse tipo de recurso e de percurso que amplia nossa autonomia e redimensiona nosso ser.

A Marcy acredita que cada um de nós, com todas as experiências que já tivemos, nessa e em outras encarnações, é uma biblioteca viva e muito ajudaria o planeta nesse momento consultá-la, ou melhor, consultarmo-nos, consultar nossos registros, consultar nosso eu interno, nossa alma, nossa intuição, nossos insights, nosso eu superior, nossa essência.

A Marcy afirma que somos todos muito experientes, muito sábios, muito vividos e gostaria que expressássemos mais isso em nosso cotidiano…

E Marcy alerta para que não nos esqueçamos de que podemos nos reler infinitamente. Ela faz questão de assinalar que são várias as possibilidades de leitura e escuta a nosso respeito e acha, sobretudo, que não devemos escutar só o que é falado, que não devemos ler apenas o concreto, que não devemos nos deixar seduzir pelas falsas evidências, mas considerar todo um sentido implícito. Afinal, discernir a interpretação concreta, exata, rigorosa, da abstrata, simbólica, é tão importante para a leitura de nós mesmos, quanto discernir os sofrimentos patológicos dos sofrimentos iniciáticos o é para aquele que deseja desempenhar o papel de um verdadeiro médico, psicoterapeuta, terapeuta, amigo ou conselheiro.

Marcy sempre ouviu sugestões para se tornar uma motorista de táxi pelo fato de dirigir bem ( “como homem”!!! Foi um dos elogios ) e por conhecer inúmeras ruas de São Paulo ( seu GPS é interno, ela localiza-se imediatamente bem em qualquer ponto deste planeta, principalmente porque traduz GPS por Grande Prazer em Saracotear, ou seja, em “vaguear por um lugar e por outro” ) .

Confiável, ela não é um ás no volante, tampouco um asno volante, porém, pouco valente, vai lenta nos projetos e apenas taxia a maioria, mas até sonhou em ter um carrinho vermelho no qual ela colocaria umas pintas pretas grandes e duas anteninhas para se sentir dirigindo uma “joaninha” . Em cima ela colocaria uma sugestiva e esclarecedora plaquinha : “des táxi”, contribuindo assim com o anseio de boa parte da população que almeja se destacar e que precisa se deslocar nesta enorme cidade pois mesmo que uma joaninha metálica passe despercebida entre a relva e a selva de prédios, em meio aos abundantes e discretos veículos pretos e pratas que se camuflam nos tons da cidade
ela certamente seria notada, no mínimo para ser multada, quer no sentido de sentido de receber pena pecuniária, quer no sentido figurado…

Sem dúvida alguma Marcy escolheria pertencer a um ponto de “taxi-se” (sic) que existe na zona sul de São Paulo. Mas para não dar bandeira, nos dois sentidos, resolveu apenas dirigir-lhes a palavra, ou as palavras, na forma de um texto nada taxativo tampouco taxionômico.

Felizmente nosso código de trânsito proíbe apenas o uso de celulares na direção de um veículo, e não de canetas. Marcy não enfeita sua orelha com uma pois infelizmente não há piercings nem brincos com micro canetas mas, descendente de portugueses que é, não dispensa a companhia desse tubinho hora alguma. Até para dormir ela o faz acompanhada por uma que acende discretamente na ponta da escrita iluminando o pequeno trecho do papel sem acordar o parceiro. Ela nunca sabe se seu turno de escrevente vai acontecer no período diurno ou noturno, sabe apenas que é um ato soturno, no sentido de silencioso, é claro! Ela procura evitar, sempre que possível, causar desconforto às pessoas…

Marcy pensou muito, exaustivamente até, se deveria ou não tornar público seus registros, preocupada com o mal estar que as referências, ainda que praticamente anônimas, pudessem causar às poucas pessoas com as quais ela conviveu neste planeta. Ela espera ter sabido resguardá-las, pois sua intenção é a de que, apesar de tais pessoas terem sido reais para ela e de terem cumprido papéis de alta relevância e fricção em sua vida, possam permanecer incógnitas, e assim como ela, sentirem-se satisfeitas em serem apenas personagens de uma ficção.

Marcy sentiu-se ‘auto’rizada a publicá-los, ou melhor, a lançá-los no siber espaço, não apenas por ter aprendido a aceitar-se ‘auto’risível, mas sobretudo em nome da esperança de que ocorra uma mínima ajuda ou um possível estimulo para algumas pessoas, dentre aquelas que estiverem dispostas a lê-los, reencontrarem ou ampliarem sua auto-estima, sua auto-confiança, seu auto-respeito, sua ‘auto’nomia, e todo um pátio de auto-valores a serem resgatados, os quais muitas vezes deixamos estacionados em patamares muito baixos, congestionando nossas vidas. Todavia, como trata-se de situação reversível, Marcy acredita que em nome do resgate de nossa integralidade esse seu desatino seja válido, ou melhor, ela acredita que em nome do resgate de nós mesmos e de nossa finalidade ou destino maior toda via seja válida.

Marcy prefere os “pit stops” significativos ao invés dos “mecânicos” em seu
percurso… “Pit stops” esses que não se pautem em “todavias”, em “poréns”,
em “contudos”, mas na busca de uma reversão do incomodo e de uma superação
de entraves e obstáculos de modo a poder seguir adiante com tudo entre tantos
possíveis desestímulos… Para isso a auto-crítica deve estar bem ajustada, no ponto,
ao invés de folgada ou apertada demais… E precisamos fazer uso de nossa
auto.ridade com “carta branca” ao invés de ficarmos pedindo licença vida afora aos demais, pois as auto.rizações, no ser maduro, devem partir do interno. Devemos
buscar ser ‘auto’nômico(a)s, ou seja, devemos buscar uma auto.nomia responsável e
não inconsequente. Devemos buscar a auto-referência de forma adulta e não
infantil para não nos fazermos auto.latras…. A pessoa que não faz “pit-stops” constantes, que não faz também revisões frequentes buscando melhorias, torna-se auto.ritária e acaba abalroando os demais…. Aliás, precisamos nos lembrar da manutenção, importantérrima, de nossos “autos” todos : auto-respeito, auto-estima, autoconfiança, autonomia, autorização a partir do eu interno, da alma… E precisamos
usar a auto-sugestão positivamente ao invés de negativamente buscando ainda evitar
o ‘auto’matismo no dia a dia ao invés de adiar qualquer reformulação nesse sentido.

Marcy acha que devemos inclusive buscar acionar nossa capacidade ‘auto’didata na vida, buscar nossa auto-educação, pois a vida é para nós todos uma verdadeira
auto-escola, onde deveriamos ser capazes de fazer frequentes “autópsias” a fim de permitir o renascer da vitalidade e do criativo em nós rompendo assim com o circuito de caminharmos desvitalizada(o)s ou desanimada(o)s em direção `a nossa futura necrópsia.

A Marcy não sabe se pode nomear esses registros como crônicas do cotidiano, crê que sim, porém para melhor definição ela faz uso de uma “próclise” e os apresenta como narrativas sincrônicas do cotidiano. Marcy acredita que há quem endosse a obssessividade colecionando cronicamente repetições horizontais ao longo do tempo - as mesmices - e há quem prefira a repetição simultânea, vertical e aguda das sincronicidades, como ela.

Ela não sabe também se trata-se de um diário, de um mensário, ou de um anuário, em função da frequencia dos registros, ou mesmo se poderia ser qualificado como uma autobiografia, no caso auto-reflexiva ou auto-analítica, mas de qualquer forma avisa de antemão que, diferentemente das demais obras do gênero que discorrem sobre os feitos de alguém, ou sobre alguém de feitos, essa descortinará apenas os defeitos…

De uma pessoa inibida que prefere o recolhimento à exibição.
De uma pessoa tímida que prefere a invisibilidade à exposição.
De uma pessoa reservada, refratária, reticente, que frequentemente é esquiva.
De uma pessoa inexpressiva, que quase nunca é notada.
De uma pessoa praticamente anti-social, que opta pelo isola-mento.
De uma pessoa introspectiva, que faz questão de se reconhecer ao invés de ser reconhecida pelas demais.
De uma Zé ninguém completamente desconhecida, comum, normal.

Em função desse acanhamento, e no desejo de preservar, zelosa e prudentemente aqueles que compartilharam experiências com ela justifica-se o uso, que apenas ela crê necessário, do pseudônimo no sobrenome - Lyh Ylaaz, sua cor favorita - o que até a deixou na dúvida se ela seria uma “Ghost Writer” de si mesma, mas prefere crer que seja apenas uma “August Writer”, em função de ter sido este o mês do ano mais fértil para os insights e “pontuações” que recebeu da vida. Mas como ela sempre sonhou com um destino colorido vale deixá-la incluir um colorido neste que é seu desatino, portanto registre-se o Lyh Ylaaz como sobrenome ainda que assim sobre nome para aquela que é apenas uma personagem.

O anonimato de uma personagem certamente nem se justifica, inclusive porque, travessa e avessa a ser pega na travessura, ela se apresentará às avessas, ou seja, em sentido inverso, oposto, contrário aos demais, quer seja, pelo lado do avesso, assegurando-se assim irreconhecível, o que aliás para várias pessoas soaria como elogio mas para ela é apenas elocução…

Marcy exporá suas partes internas em público ao mostrar suas vivências mas, diferentemente de outras mídias, isto não acontecerá concretamente, ou seja, não se traduzirá por nudez de corpo. Trata-se da nudez da alma uma vez que ela é pudica, não no sentido de casta pois, além de não pertencer a nenhuma, não é pura, cândida, imaculada, tampouco se abstém de relações sexuais, mas sim no sentido de envergonhada, de tímida.

Marcy exporá suas partes íntimas, mas no sentido confidente e relativo ao âmago, e as tornará vulgares no sentido de torná-las públicas e não no sentido de futilizá-las .

Marcy exporá suas intimidades sobretudo com recato ou no ocultamento não apenas para não mostrar o umbigo mas por ser ambígua em (e com) todos os sentidos.

Ela exporá não seu biotipo ou seu fenótipo mas suas entranhas sabendo que continuará a ser assim uma pessoa estranha, tanto no sentido de esquisita quanto no sentido de desconhecida.

Ela se exporá assim desse ângulo justamente para poder permanecer, tal qual sempre foi, ou seja, desconhecida no cotidiano não só pelos desconhecidos mas também por muitos vizinhos, por colegas, amigos e familiares, sendo que agora passará a sê-lo também dos internautas, que conhecerão não a pessoa, ou a figura da Marcy , mas alguns trechos de sua história numa perspectiva totalmente subjetiva . A Marcy espera aliás, que ninguém atole na lama das subjetividades desse seu percurso “off road”.

Marcy se exporá inclusive, talvez demasiado, porque sempre foi uma pessoa arteira, traquina, e está se propondo a dissecar - não no sentido cirúrgico mas no sentido figurado da análise minuciosa, do exame rigoroso - as próprias artérias. E não apenas estas mas também as veias uma vez que interessa-lhe sobretudo o caminho que nos conduz ao coração, à nossa capacidade amorosa, ao amor.

Marcy exporá sua vida subjetiva, interna, interior, talvez por ter nascido no interior do estado, ou por ter crescido no estado de (e da) introspecção, ou ainda por ter se aberto para a interiorização proporcionada pela psicologia numa capital de estado, ou mesmo por ter encontrado a interioridade de seu verdadeiro ser, o que a deixou, isto sim, num estado capitular seja porque ela se entregou, se submeteu à alma, seja porque se dispôs a descrever em partes, em capítulos, alguns episódios dessa rendição.

Certamente Marcy não obteve a revelação. Aliás, ela nunca foi atrás disso ou à procura de iluminação… Ela apenas permitirá, ou mesmo se limitará, a deixar vir à luz algumas auto-revelações.

Marcy se exporá sem nome pomposo e sem almejar renome por se saber totalmente desqualificada para a fama, uma vez que infame.

Marcy, com toda a exposição a que se dispõe, reconhece-se não esporádica.

Há quem se queira celebridade, ela se quer tão somente celeridade, não enquanto pressa ou imediatismo infantil mas como prontidão resultante de amadurecimento .

Aliás, quanto mais avançada se faz na idade, mais se identifica com os verdadeiros seres de prontidão, os seres angélicos, pois se não se apruma na prontidão, e faz as coisas na hora, esquece-as… Trata-se aqui de problema de memória mesmo e não de crença ou anseio evolutivo, pois procrastinar torna-se, com o passar da idade, não apenas deletério mas delével…

Marcy acredita que o imediatismo infantil, a ser superado para irmos adentrando na maturidade, deve ser recuperado ao entardecer da existência… Com uma troca de termo, é claro, pois o faça já da criança torna-se o faço já para o adulto em prontidão ….

Marcy acredita que somos “dj”s de nossa vida, ou seja, que podemos escolher conscientemente o ritmo com que vamos “tocá-la”… E percebe que as vezes a deixamos
agitada e corrida no externo e muito lenta no interno, ou mesmo o contrário… sendo que podemos procurar alterar e alternar os ritmos conforme a natureza faz e a nossa natureza interna pede. Marcy acha que fazemos muitas coisas materialmente falando, num só dia, na correria, e muito pouco por nosso crescimento interno, por nossa evolução pessoal e acha mais significativo que busquemos acelerar nossas partículas, nossa frequência vibratória, ao invés de nossas vidas, as quais podem estar clamando por maior suavidade.

Marcy acredita que devemos aprumar a nossa prontidão para aquilo que precisa de fato ser feito em vez de ficarmos fazendo mil coisas ao mesmo tempo sem registro vivencial ou celular/atômico de prazer. Aliás, ela acha que deveriamos nos comunicar no celular, não apenas o aparelho, mas no nível celular, enviando mensagens conscientes às nossas células e nos conscientizando das mensagens enviadas por nossas células através de nosso sábio corpo, nem sempre respeitado em suas necessidades.

Mas retomando o desejo de anonimato de Marcy, ela exercita desde sempre, e cotidianamente, pessoa insossa que é, esse mesmo anonimato transposto para o blog, o qual será saborosamente preservado não apenas porque sua brincadeira predileta na infância era fingir-se invisível mas sobretudo porque ela concorda com Francis Bacon quando ele diz : “ é um triste destino para um homem morrer tão bem conhecido para todas as pessoas e ainda desconhecido para si mesmo”.

Parafraseando-o, ela diria : pobre daquele que nesta vida é conhecido por muitos e desconhecido por si mesmo.

No pós-bacon, que não lhe foi indigesto, seu lema tornou-se o auto-conhecimento.

Anteriormente era o alto conhecimento.

Leitora ávida e glutona, ela buscava se informar sobre tudo e ter conhecimento acerca de todos os assuntos.

Muito curiosa – era chamada pelos amigos de “superxeretíssima” - todos os temas a encantavam. Pode-se dizer que ela foi imantada por todos os tipos de textos, longos ou curtos, superficiais ou profundos.

Nos filmes ela fica até o final dos letreiros e lê, quase que oligofrenicamente, os nomes de todos os profissionais que colaboraram na película pois gosta de ir contra a “reificação” que exalta somente os atores principais e que deixa `a sombra ou no escuro os demais trabalhadores e equipes que nele trabalharam. Foi assim que ela escolheu o nome de seu filho muito antes dele nascer, ou dele vir à luz, nos créditos dos profissionais de cinema… Foi aliás, praticamente o último nome a surgir na tela antes de acenderem-se as luzes. Curiosamente, há previsões, fornecidas por diferentes oráculos, de que ele se tornará um profissional de cinema, e deverá portanto, se a previsão se confirmar, ver seu nome voltar para telona, o que poderia induzir a conclusão de que se trata de um nome pertinente, não apenas porque próprio, sim um nome próprio, ou porque tenha vindo meramente a propósito mas também porque veio com um propósito, ainda que não tenha sido escolhido, é claro, de propósito em função de tal finalidade. É um nome que parece pertencer, não apenas à pessoa que o aceitou, mas também àquele local, fonte de inspiração no passado para a mãe e, talvez no futuro para o filho. Um verdadeiro chamado.

Marcy acha que devemos prestar atenção ao nosso nome, que devemos buscar saber seu significado, buscar saber os trâmites dessa escolha, procurar a origem de nossos sobrenomes, procurar informação acerca dos percursos de nossos ancestrais… Trata-se da nossa história e certamente vale a pena investir nessa pesquisa, mesmo que requeira acordar o “arqueologista” que dorme em nós…. Afinal, “Indiana Jones” não fez sucesso a toa … Há muitos “tesouros” familiares, e informação a respeito dos mesmos pode ser um deles…

Marcy não está sugerindo a “confecção” apenas de uma árvore genealógica cheia de nomes mas sim de um genograma… Ela sugere que “desenterremos” a história do nosso nome e a saga de nossos ancestrais, bem como, se possível, todos segredos familiares … Muitos insights ou muitas revelações pessoais poderão surgir.

Por ter injetado muitas letras na corrente cerebral, Marcy passou a embaralhá-las, a fracioná-las, a emendá-las, a invertê-las, a revertê-las, a rotacioná-las, bem como a seus acentos, criando outros contextos, e sentidos, às vezes trepidantemente mais significativos, às vezes simplesmente mais divertidos . Assim, apesar de, ou graças ao fato dela não se saber disléxica, talvez tenha se tornado “des”léxica, sem dicionário, tendo assim reformulado, para seu entretenimento, algumas palavras ou frases, o que fez dela uma anônima que por alguma anomalia, tornou-se anomia e adepta das anominações. Nada que se compare ao legado de seres criativamente desconstrutivos, mas um “hobby”, que posteriormente tornou-se ferramenta de seu trabalho.

Por exemplo, como pano de fundo, pode-se dizer que seda, o tecido, pode às vezes adquirir a conotação de ceda, do verbo ceder, indicando necessidade de “condescender”, de “anuir”, de “renunciar”, de “assentir”, de “não resistir”. Algodão, o fio, pode se romper e se tornar algo dão, indicando a generosidade de pessoas que cedem, presenteiam, doam.

Se algo você estiver precisando encontrar, e um atlas avistar, ele pode adquirir o sentido de atlás, ou seja, atrás, se assim a escuta solicitar a fim de auxiliá-lo(a) a achar o que procura.

Se um garoto pedir ao pai insistentemente um carrinho, pode significar que ele está carente e precisando na verdade de um carinho.

Se a bola dos jogadores de basquete insistir em ficar no aro certamente eles podem ficar sem o ouro, na medalha.

Crescendo podemos entender como crê sendo, e vencendo como vem sendo, se o contexto pedir, e vice-versa.

Às vezes é momento para acatar, outras para atacar.

Comprar pode suscitar comparar, e também, como parar, se for necessário conter os gastos.

Abra-se mais pode se tornar abrace mais.

Esse tipo de brincadeira pode, sem dúvida, ir longe e talvez por isso, as palavras, depois dos números, tornaram-se o parque de diversões predileto da Marcy, a qual espera que as alegorias — sequência de metáforas que significam uma coisa nas palavras e outra no sentido — que aqui serão apresentadas, possam proporcionar-lhes também algumas alegrias.

A aversão inicial de Marcy ao estudo da língua portuguesa que displicentemente era tratado com distração, no sentido de desatenção, de descuido, de alheamento, de abstração, em certo momento encontrou uma diversão, ou seja, uma mudança de direção, tendo adquirido subsequentemente seu outro sentido, quer seja, de divertimento, de recreação, e portanto também de distração, por sua vez já com o sentido de entretenimento, não mais de irreflexão.

Esse movimento lhe trouxe muito prazer e possibilitou não apenas a desconstrução da aversão, que deixou de ser uma repugnância, uma repulsa, uma antipatia, com relação à difícil língua portuguesa, mas sobretudo sua reconstrução, na separatividade, enquanto a versão, ou seja, enquanto uma transformação na versão que lhe pertence, e assim a Marcy acabou efetivando-a como a construção de sua versão, sua interpretação, o que em parte será apresentada nesta obra, ou neste site, só possível devido à conotação de recreação que a língua adquiriu lá atrás para ela, na adolescência, sem dúvida – tanto no sentido abstrato quanto concreto - e que se traduz aqui também por uma recriação.

A abstração inicial na qual ela mergulhava nas aulas de português do ensino primário
( hoje dito fundamental ) pôde então escapar ao sentido de difícil compreensão e subsequente alheamento e desatenção, para galgar seu sentido abstrato de transcendente frente às aparências exteriores da realidade. E como resultado subjetivo que é, tornou-se relativo ao sujeito, existente no sujeito, e assim sendo Marcy considera que, sob determinado aspecto, deixou de ser objeto, como a sociedade materialista nos quer, e atingiu seu objetivo que sempre foi de vir a se sentir sujeita, ainda que seja às intempéries de seu humor, à vulnerabilidade de suas emoções, à fragilidade de alguns de seus sentimentos. Claro que ela desejaria que fosse no sentido filosófico do termo, ou seja, como “ser individual, real, que se considera como tendo qualidades”, ou mesmo no sentido jurídico, como “titular de um direito”, mas ela tem consciência de que o termo também perfaz o sentido de “escravizada”, de “cativa”, e muitas vezes é assim que ela se sente em relação ao seu próprio ego, à sua família e à sociedade. E percebendo que poderá expor muito sua individualidade ao deixar seus registros por escrito num site ela se quer agora tão somente uma “sujeita” no sentido de uma pessoa, uma mulher, um “individuo indeterminado, cujo nome – social e jurídico - se quer omitir”.

Os parágrafos acima devem ter dado um idéia do quanto Marcy gosta de mudar o sentido, de tornar a mudar, fazer meia volta, ou a volta inteira numa rotatória e retomar às vezes a mesma palavra após vários caminhos. Ela gosta sobremaneira dos duplos sentidos, mas espera não deixar ninguém nauseado nas sinuosidades de tais insinuações.

Em função da reversão, reversibilidade ou adaptação processada perante o estudo da língua portuguesa, a diversão de Marcy aos dez anos de idade foi ler o dicionário - não apenas alguns termos - mas ele por completo. O companheirismo inicial não somente ampliou-se nos volumes – com diferentes autorias, temas, nacionalidades – como também aprofundou-se em amizade eterna. Talvez se trate de um objeto transicional para ela, como as chupetas para os bebês, ou as bolsas para algumas mulheres, mas se assim for é para ela transitar pela vida pois, na ausência de um dicionário por perto ela fica logo perturbada. Dentre Aurélios e Aurélias com os quais ela convive fraterna e prazerosamente, a companhia mais acessível tem sido sempre a do Aurélio, dicionário.

As coleções infantis e juvenis de sua época Marcy leu e releu mil e uma noites e nas tardes também….

A família já sabia como se ver livre de preocupação com presente que a
agradasse : livro. Aos treze anos ela ganhou e devorou a obra de Henri Lefevre :
“Lógica formal, lógica dialética”. Um episódio marcante e precoce em sua carreira de leitora. Um macro marco…

Na juventude pretendia-se intelectual. Mas como descobriu-se representante mais da pretensão do que da “intelligentsia”, e como se sentiu, em tal ambiente, muito árida, seca, infértil, triste e solitária, abdicou das alturas cerebrais para tornar-me simplesmente autora.

Autora de seus passos, co-autora de seus dias.

Autora e co-autora também de alguns livros e cd-roms, de artigos para revistas de diferentes editoras, e de muitas apostilas e textos, quer para “seus” alunos, quer para alunos alheios, no sentido aqui de que “não nosso” e não necessariamente no sentido de “distraídos, não informados” ainda que alguns possam ter se demonstrado alheados, tanto no sentido de “distraídos, alienados” quanto no sentido de “enlevados, extasiados”, quer nos cursos que diretamente Marcy lhes proporcionou quer nos cursos que, conscientemente ou não, alheou .

Sim, alheou no sentido de ter “transferido para outrem o domínio de”, e
inconscientemente, porque Marcy descobriu inclusive, uma ocasião, que um professor de astrologia usava em suas aulas, num renomado clube da cidade, uma reprodução integral em xérox, sem seu prévio consentimento, do curso totalmente apostilado que ela havia produzido para seus alunos.

Inicialmente ela ficou muito perturbada e teve impulso de processá-lo judicialmente, porém, tendo se recordado de que - num processo movido por um colega, no qual sua solidariedade a ele obrigou-a a depor contra seu estimado patrão por apropriação e uso do que haviam criado - ela arcou com um enorme prejuízo pois perdeu a amizade de ambos bem como seu agradável emprego na editora, Marcy acabou desistindo dos tribunais.

Para referendar o veredicto da inocência, ao invés de má fé, por parte de tal professor, ocorreu-lhe que a vida pulsa em nosso planeta sem que precisemos pagar “royalties” para o criador por termos sido feitos, conforme divulgado em alguns meios, à sua imagem e semelhança, o que se trata evidentemente de uma questão de fé, não cabe portanto com relação a isso nenhum veredicto.

Marcy fez diversos questionamentos naquele período, questionou inclusive se nós mesmos, que nos cremos tão originais poderíamos ser tão somente cópias. Cópias de Deus ? Cópias de deuses ou de deusas ? Cópias de outros seres humanos ?

Nietzsche dizia que nós é quem fizemos deus a nossa imagem e semelhança, mas polêmicas filosóficas, religiosas, ou mesmo científicas, à parte, o ser humano é um ser social, portanto, forma-se a partir dos demais…. Na infância, por exemplo, a criança imita os adultos… Mas os modelos persistem vida adiante…

Quem são os exemplos atualmente no planeta ou que aqui já estiveram que são nossos referenciais, nossa grande fonte inspiradora ? Para o nosso eu interno, é claro, não para nossa carcaça, para nosso corpo físico… Para estimular o crescimento pessoal, não a estagnação pois Marcy não se refere aqui à idolatria de ícones da futilidade mas sim a pessoas que se demonstram ou se demonstraram, tal qual celeridades, adiante de seu tempo pela significativa e exemplar contribuição, e não meras celebridades…

Por sermos seres sociais, nossa formação, como seres humanos, depende do outro, do olhar, da atenção e do modelo do outro, não é intrínseca… Nesse sentido, todos “viemos” com um dispositivo interno querendo atenção, a qual inclusive não ocorrendo pode gerar diversos distúrbios psiquiátricos…

Reconheçamos pois nossa maravilhosa intenção de atrair a atenção e o olhar alheio sobre nós pois se trairmos essa intenção atrairemos tensão. E desvirtuaremos a sedução…

A atração subtraída dá lugar à tração, eis a traição…

Marcy acha inclusive que nas classes menos favorecidas a falta de atenção para com as reais necessidades, por parte da sociedade e dos governantes, pode ser um dos fatores a resultar na violência, similarmente ao que ocorre com as crianças que quando não têm atenção ficam tensas e agressivas. Ela compartilha da idéia de que talvez seja uma forma de tornar perceptível o ignorado….

Marcy acredita que ignorante não é quem pratica a violência, ou não é “apenas” quem a pratica, ele a pratica porque foi ignorado, assim sendo, ignorante é, “a princípio” , quem
primeiro o ignorou. Mas Marcy acha também que atitudes paternalistas mantém ambos na ignorância, cada qual num sentido, e gostaria de saber como poderíamos sair da coisificação e retomarmos o humano, o olhar humano, de forma a vermos o outro como pessoa e não objeto, seja individualmente ou no coletivo.

Marcy acredita que o processo de criação nos perpassa apenas, não é nosso, não nos pertence, é ele que nos tem como seu instrumento. Somos dele, não ele nosso. E, assim sendo, todos podemos ser co-criadores com o universo se não bloquearmos o processo da criação através de nosso ego, com nosso ego, em nosso ego.

Portanto, desta perspectiva, tudo o que existe é criação coletiva, co-letiva, co-eletiva… E não teria cabido a Marcy, de modo algum, levando em consideração o processo cósmico maior, processar o professor que se apropriou das aulas que ela preparou e talvez vir a romper com a divulgação e propagação que ele estava fazendo da astrologia. Ela procurou então processar nela, em seu foro íntimo, algumas aceitações, compreensões e transformações a fim de não vir a mover “gratuitamente” uma “ação” no foro contra ele, ali fora, com direito a “ônus” internos para ela pois experiência de arrependimento ela já havia tido, quando fôra convidada a se retirar da editora.

Ao ter se esforçado por mover uma “ação”, ou um “processo”, dentro de si mesma, ao ter se disponibilizado a alterar atitudes, foi lhe permitido descobrir que a vida tem seus elos, seus sábios trâmites, seu caminhos.

Alguns anos antes desse episódio, Marcy havia escrito um texto sobre Édipo , e o havia cedido a um professor de pós-graduação que desejava pautar uma de suas aulas nele. Ela soube, naquela época, que aqueles alunos haviam gostado muito da aula, sendo que alguns, inclusive, sentiram despertar o interesse pelo processo psicoterapêutico, pois Édipo, como o nosso mito, como todos os mitos, fala-nos da ambivalência dos sentimentos e da condição humana e, assim sendo, o mito de Édipo, e de nossa história, refere-se ao conhecer-se, ao buscar-se a si mesmo, ao significado profundo do auto-conhecimento, ao verdadeiro “saber” de nossa identidade, o que se traduz na pergunta : “quem sou ?”.

Quando nos perguntamos quem sou ?, estamos deixando de ser, estamos sendo o vazio deixado, aflorado, esburacado, mas é na falta que temos a possibilidade de vir a ser. E de uma forma ou de outra, vamos encontrar o nosso destino, sendo que a possibilidade de encontro é dada pela falta. Mas é preciso ter sabido do paraíso inicial, ter sabido da simbiose, ter passado por ela, para que se possa “cair na vida”, cair nas frustrações ou na “dor” da existência, fazendo nascer a própria história.

Se há uma grande “maldição” ela é humana, não familiar. É do eu/ego e do ser/self, pois, quando estamos num, não estamos no outro. O eu é a consciência infeliz hegeliana, ou seja, a consciência que se descobre finita e na impossibilidade de reconciliação com o infinito. O eu/ego é um “pedaço” do ser/self, ser/self este de amplitude infinitamente maior. O ser/self é todo um universo amplo, infinito, completo. O eu/ego é parte do universo, parte que escolhemos explorar, que delimitamos explorável, que podemos dar contorno, mas que é sem dúvida incompleto. Como o eu/ego raramente dá conta desse ser/self, há sempre espaço para uma angústia existencial, o que implica em algo que nos é inerente. Aliás, parafraseando Nietzsche, que dizia que devemos ter cuidado ao por para fora nossos demônios, porque corremos o risco de ficar sem nossa melhor parte, podemos arriscar dizer que não devemos tentar jogar fora nossa angustia, pois corremos o risco de ficar sem a nossa melhor parte, no mínimo sem aquela parte que nos instiga a procurar pelo vir a ser, pelo self. Isso não deve implicar em fugas nem em aderências, mas em vivências, ou seja, que essa nossa angústia possa abrir as portas para o vir a ser, para a ampliação do eu/ego, na dialética da existência. E é desse destino que não escapamos.

O destino nos fala de uma não noção de ser, de um ser levado a algo, de algo a ser vivido, mas temos que sair da reprodução e passarmos à produção, temos que possuir o “tino”, a noção de ser, de forma a não ficarmos detidos na “tragédia” de nossa vida ou no “drama” de nossa existência. Temos que assumir o nosso projeto, ou seja, o projeto que trazemos no inconsciente, a respeito do qual precisamos nos tornar conscientes.

O inconsciente é uma força que pulsa, que impulsiona, cujo aspecto dinâmico foi definido por Jung, do ângulo psicológico, como espírito, e que muitas vezes só nos damos conta depois do fato dela ter estado conosco há tempos, ou dela ter insistido através dos mais diversos símbolos, das mais diversas mensagens e sinais.

Pode ajudar lembrarmo-nos, nesse contexto, de que Nietzsche também dizia que “as grandes épocas de nossa vida ocorrem quando sentimos a coragem de rebatizar o mal que em nós existe como o melhor de nós mesmos” pois nossa angustia diante do restrito e parcial eu/ego pode assim ser nosso melhor estímulo em direção ao grandioso, ao infinito, à multidimensionalidade de nosso ser.

Empenhemo-nos pois em fazer a experimentação do divino, do ser/self, enquanto estamos fazendo a experimentação do humano no eu/ego. Um investimento equânime em ambos os pilares matéria/espírito tal qual para andarmos investimos igualitariamente em ambos os pés, em ambas as passadas se não quisermos cair…

Empenhemo-nos em tornar consciente a experimentação do divino enquanto transitoriamente estamos no eu/ego ao vencer as barreiras e resistências inconscientes de nosso eu/ego através de nossos recursos transpessoais, e da aceitação mesma desses percursos que nos mostram que podemos ir muito além do ego… Em direção ao nosso vir a ser.. Até porque somos seres divinos fazendo a experimentação do humano, através do eu/ego, e precisamos apenas nos lembrar de nossas origens, desmemoriados que somos com relação à nossa eternidade.

Algo nos impulsiona, tudo o que queremos vir a ser, e algo nos retrai. O que nos retrai é a nossa noção de eu/ego, o que já conhecemos através de legado também restrito e parcial a partir de conceitos externos. A fim de ampliarmos nosso eu/ego em direção ao ser/self que habita em nós temos que saber, ver, sentir, perceber, reconhecer, entender, apreender qual o sentido legitimo, essencial, das coisas para nós, desde dentro e sem interferências do próprio ego, ou melhor, das resistências e superficialidades deste.

Marcy acha que estamos muito desmemoriados em relação à nossa enorme trajetória, seja pregressa, seja futura e que isto aliás nos afasta da responsabilidade e das consequências de nossos atos, o que deveria ser resgatado, não como expiação de culpas mas como respeito aos nossos propósitos, às nossas verdades, à nossa continuidade, ao nosso amor…

No período em que Marcy foi obrigada a lidar com a raiva do professor de astrologia que havia usurpado suas apostilas, e que ela procurou a “sua” própria resposta, recusando-se a dar a resposta socialmente sugerida, que seria processá-lo, alguns de seus pacientes de psicologia fizeram, em sessão, emocionados comentários acerca de uma aula que tiveram anos atrás sobre Édipo com um excelente professor de pós graduação, revelando-lhe que a tal aula é que os havia inspirado a procurar auto-conhecimento através da psicologia, que os havia instigado a caminhar, não apenas até o consultório, mas também até aquele momento de intensas descobertas sobre si mesmos…

Sem que aqueles pacientes percebessem, eles é que estavam proporcionando a Marcy muitas descobertas acerca de textos e contextos pois, sem que uma só referência ao nome dela tivesse sido feita naquela aula, tampouco um encaminhamento direto para seu consultório, sem que soubessem, sequer desconfiassem que ela conhecia o ex-professor citado em sessão, sem que imaginassem a respeito da autoria da “aula”, estavam levando ao conhecimento dela os primórdios de seus caminhos psicoterapêuticos, os quais continham, especialmente para ela, incríveis revelações, e estavam assim se conduzindo como veículos de sinalização do universo que queria certamente que ela se conscientizasse acerca do justo retorno, que queria que ela percebesse um pequeno fragmento dos caminhos indiretos, “das linhas tortas” de sua corretíssima escrita.

E ela, que por ter cedido o texto, já havia recebido daquele primeiro professor sua carinhosa gratidão, pôde perceber que o universo havia providenciado também algumas gratificações complementares, ao ter dado um “jeito” de fazer chegar até seu consultório justamente aqueles “pacientes”, cuja busca por auto-conhecimento é a motivação máxima de sua atuação profissional, mas cujos pagamentos também eram bem-vindos pois lhe propiciavam meios de sobrevivência. E, assim sendo, também significavam que ela estava recebendo um retorno financeiro a partir daquele seu texto, e um retorno formidável, uma vez que não estritamente monetário, pois o contato com aqueles pacientes trouxe não apenas muito aprendizado para o ego da Marcy como também diversos nutrientes para a sua alma.

E, afinal de contas, o texto, que tinha se transformado em aula, e, a partir desta, derivado os processos psicoterapêuticos, era, ele próprio, uma co-produção, uma reprodução, ou mesmo uma apropriação - (im) própria ? - de um imenso tema mitológico e, portanto, já se tratava também de uma reflexão, seja no sentido de uma “volta da consciência, do espírito sobre si mesmo, para examinar seu próprio conteúdo por meio do entendimento”, seja no sentido de um “enorme reflexo”, o que podemos entender como “uma grande cópia, uma grande imitação” feita a partir de derivações do original, sendo que a competente aula do gentil professor que o utilizou, que o aproveitou, que lhe conferiu expressão e vida é que foi o verdadeiro responsável pela resultante reflexão, no sentido agora de “modificação da direção de propagação de uma onda que incide sobre uma interface que separa dois meios diferentes e retorna para o meio inicial”, e portanto também pela chegada daqueles pacientes ao consultório de Marcy.

Assim foi que o fruto de uma produção anônima tornou-se visível e, através de uma costura invisível, tornou-se matéria a sustentar a existência de um ser.

Tendo se conscientizado assim, acerca das trajetórias invisíveis, Marcy pôde sair da raiva e, posteriormente, até mesmo agradecer o fato daquele professor de astrologia ter “adotado” seu curso — ainda que tenha mantido a desaprovação pelo fato dele não ter pelo menos lhe pedido autorização — pois percebeu-se também, na sequência, liberada das aulas que ela vinha ministrando e com tempo para transformar outras de suas apostilas em livro, cujo convite para publicação foi simultâneo, e cujos rendimentos, pessoais e financeiros, superaram suas expectativas.

Certamente a Marcy não está, através deste seu depoimento, sugerindo que se deva ignorar ou desrespeitar as leis de direito autoral, pelo contrário, ela é amplamente favorável à sua aplicação, pois elas são fundamentais, e necessárias, a fim de que se remunere diretamente um profissional, ela apenas procurou mostrar que outros tipos de “ajustes” também podem surgir pelo caminho.

Além disso, há que se comentar acerca das licenças e autorizações, pois há casos na vida para permissão e outros não, o que deve ser respeitado e compreendido até porque aceitar que se divulgue o conteúdo de um texto, de um livro, de uma obra, pode não ser literal, através de transcrições, de cópias, de reproduções, e sim figurado, através de conversas, de comentários, de observações, de preferência entusiásticos.

Mas hoje em dia a reprodução de tudo parece estar acelerada, a humanidade parece estar para adentrar num período em que compreenderemos que o que é de um é de todos, que aquilo que um de nós pode ter todos podem e devem ter acesso.

Nossos egos podem ser capitalistas, visar lucro, exclusividade e acumulação, mas nossas almas não, são sábias, justas e equânimes. Isto não significa que estejam corretos os roubos ou as apropriações ilícitas pois, ainda que estejam crescentes as quantidades e modalidades de assaltos, precisamos é perceber nossa potencialidade para os saltos quânticos já que todos estamos numa enorme, emocionante e redonda “plataforma” giratória solta no espaço.

Certamente precisaremos de grandes revisões, internas e externas, até porque há muitas distorções em múltiplos conceitos, especialmente os que envolvem as finanças.

Quantos de nós somos corretos e honestos financeiramente mas não emocionalmente ?

Quantos de nós somos honestos e corretos para com nossas teorias mas não para com nossas práticas ?

Quantos de nós somos honestos e corretos para com os pagamentos de impostos mas não vemos ocorrer o mesmo com seus gastos ?

Quantos de nós somos corretos e honestos para com o outro mas não para conosco ?

E Marcy, que é sujeita às mais variadas espécies de relâmpagos - desde os ataques de chilique, raiva ou verborragia que partem dela até os insights que chegam até ela - passou também por um sequestro assim adjetivado – relâmpago - e foi absolutamente honesta e correta para com os ladrões — felizmente profissionais, digamos assim, com muita consciência em serviço pois só queriam o dinheiro sem ferir ou matar — mas não havia sido consigo mesma, pois o montante que ela permitiu que eles retirassem dela em espécie jamais conferiria a si própria num só mês, muito menos num dia, o que dirá em alguns minutos, tempo no qual o dinheiro saiu de sua conta.

Mas ela pôde perceber, no “passeio” que eles a convidaram a fazer, que ela vinha se negando sistematicamente algumas necessidades há meses: um óculos quando estava sem nenhum, um tênis quando o seu já tinha furos, uma consulta na ginecologista pois há três anos não comparecia, vários exames clínicos postergados, entre outras procrastinações… Ou seja, ela precisou sair rodando com eles para uma aula prática de como gastar a fim de perceber o que ela não se oferecia, o que ela não se permitia…

Eles, em apenas duas horas, levaram o dinheiro para o “óculos”, para o “tênis”, para a “consulta”, para os “exames”, que ela não havia se permitido, não havia se concedido.

Após o aprendizado com “seus adrenérgicos e bem remunerados professores particulares”, Marcy passou a ser mais correta e honesta consigo mesma e a se oferecer — obrigatoriamente — todo o mês um “extra” para algumas de suas necessidades.

Ao permitir que eles pegassem e usassem seu dinheiro, Marcy percebeu que eu ela não se permitia pegar e usar seu próprio dinheiro.

E quanto ao episódio, que poderia tê-la transformado apenas num dado “estatístico”, mas que acabou inserindo-na na “modernidade”, devido à experiência de ter sido sequestrada, propiciou também que ela fosse socialmente “vacinada”, não por vir a resguardá-la de episódios futuros, o que seria impossível, tampouco porque a prática tenha se mostrado, exclusivamente no seu caso, menos assustadora do que a fantasia apavorante que ela havia criado diante dessa “doença” social, mas sobretudo porque a fortaleceu e a deixou mais precavida quanto a recaídas num comportamento mesquinho para consigo mesma por tê-la feito reconhecer o “roubo” que ela mesma praticava contra as suas necessidades.

Conforme extrai-se do episódio das apostilas ou mesmo do sequestro relâmpago , de leitora de textos Marcy passou a leitora de contextos. Há quem diga que com interpretações duvidosas, mas Proust já dizia que “na realidade, todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo”.

Aliás, a paixão de Marcy pela leitura extrapolou as letras pois aos dezesseis anos ela passou a gostar de ler fasores, aos dezenove, de ler mapas celestes, aos vinte e um, de ler mapas astrológicos, e sequencialmente, das leituras de i-ching, mãos, tarot, íris, cartas divinatórias e mapas numerológicos.

Após muitas leituras nesta vida, especialmente após muita identificação com os estudos, Marcy passou a adotar uma identidade de “ex”tudo : ex vendedora, ex técnica, ex engenheira, ex pesquisadora, ex baby-sitter, ex monitora, ex recepcionista, ex secretária, ex funcionária, ex produtora, ex gerente, ex empresária, ex astróloga, ex professora…

Atualmente inclusive ela está “ex”tremamente perto de se tornar ex psicóloga pois, ao se aposentar, sairá de São Paulo para se dedicar à criação de galinhas… Somente um casalzinho, para recolher ovos e granjear apenas simpatias.

Cabe dizer que Marcy é vegetariana por amor aos animais e à saúde do planeta….

Vale acrescentar que em um desses intervalos que a vida oferece Marcy tornou-se também “es”otérica, sem deixar de ser “ex”oterica pois ela não é “ex”ótica…

Nessa trajetória nada “es”pecial Marcy tenta colocar-se agora como “es”critora…

Com tantas leituras pode parecer que ela é filha apenas da folha de papel escrito mas, na verdade, é filha de pai escriturário e de mãe professora, e assim sendo só poderia mesmo – em sua ambivalência - professar escritos.

Aliás, em sua família há cinco tias mestras e uma minestre; um tio mestre de obras e outro livre docente, ambos muito livres e decentes em quase todos os sentidos; um tio superintendente e outro super entendido em todos os assuntos… Assim sendo, quem não foi doutor foi douto e quem não teve “cuca” de mestre foi certamente mestre cuca, de doces principalmente mas também de minestras…

Quanto aos primos, uns têm mestrado outros são mestres de cerimônia ou de cerimonial, poucos são cerimoniosos como alguns parentes da geração precedente; uns aviam receitas, outros as prescrevem; uns receitam aconselhamentos psicoterapêuticos outros recitam versos; uns atuam na receita federal como exatores, outros são ex-atores ; uns cuidam de suas próprias receitas em atuação liberal outros usam as receitas familiares em suas lojas de pães… Há também quem crie novas receitas para restaurantes sofisticados em contraste com aqueles que se dedicam ao trivial mas a primeira a se dedicar ao trívio parece que foi mesmo a Marcy…

De qualquer modo, ou aleatoriamente - e mesmo como um alívio para a nova geração - o cardápio profissional da família foi ganhando variedades enquanto a única que se perdia em variabilidades era a Marcy… Mas se foi assim que ela adquiriu várias habilidades, está valendo… Ou teria ela adquirido abelidades enquanto estava lendo ???? Nada surpreendente para quem pertence a uma colméia de abelhudos, no sentido aqui de seres curiosos mas válido também no sentido de seres diligentes, trabalhadores… Exclua-se outros sentidos pois raros são os intrometidos ainda que vários sejam introvertidos… Alguns inclusive, como a Marcy já relatou ser o caso dela, não gostam de exames ou esquadrinhamentos alheios, chegam a ficar corados, outros não gostam de exames especificamente da área médica pois, sensíveis, detestam ferimentos ou afins e inclusive ao ver sangue ficam exangues e exânimes, preferindo-se curados… Apesar de inteligentes, alguns também não gostam dos exames que se referem ao aferimento de conhecimentos, especialmente os decorados… Mas todos gostam do enxame e comparecerão pululantes seja nas reuniões ou nas festas especialmente decoradas …

Em sua árvore genealógica consta também que Marcy tem um avô tabelião, ou seja, ele também fazia escrituras, duas avós exímias mestre cucas, de cujas provas de delícias provem sua cuca fresca, e outro avô grão mestre da maçonaria… Assim sendo ela só poderia tornar-se grão, ou semente, desta mesma linhagem, ou seja, deste mesmo tecido, que é o pano de fundo destas alinhavadas e desalinhadas linhas….


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