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Contragosto em agosto


julho 29, 2009 Por Marcy

“ A única aventura real que resta ao indivíduo
é a exploração de sua própria inconsciência.”

Carl Gustav Jung


Em meados de agosto de 1999, Marcy e os demais membros de sua família foram a uma festa de aniversário e passaram pelo local onde ela havia morado numa republica estudantil quando cursava a faculdade.

Três dias depois seu enteado, aluno do colegial, chegou em casa chateado porque obteve péssimo resultado numa prova de matemática e pediu a ela que o ajudasse em tal matéria. Marcy, muito solícita, resolveu didaticamente os exercícios com ele sem sequer precisar recorrer a livros que a recordassem o assunto. Que delicia foi para ela ter podido ajudá-lo e tranquilizá-lo, que delicia ela sentiu em ter tido acesso rápido ao raciocínio matemático após um abismo temporal sem conta, no sentido numérico mesmo, uma vez que ela manteve-se afastada do universo matemático por cerca de vinte anos.


Seu enteado, com aquela solicitação, proporcionou-lhe um enorme prazer advindo do pequeno reencontro com a matemática. Ela até se lamentou, internamente, ter se afastado da profissão de engenheira pois do contrário estaria fazendo deliciosos cálculos na sua vida profissional e estaria lidando com os números até os dias de hoje. De qualquer forma se antes Marcy gostava que lhe dessem contas, ou seja, operações aritméticas, e conta, no sentido de crédito, atenção , importância, atualmente o que conta, no sentido do que vale, é o quanto ela se dá conta (ou o quanto nota e percebe) de seus próprios esquemas, de suas opções, de suas posturas, de suas atitudes, e das artimanhas e resistências de seu ego, a respeito do qual ela está dando conta aqui também no sentido de dar informação pois está contando, está relatando, seus excessos, ou seja, aquilo que ultrapassa a conta, que fica demais da conta, mas na verdade ela gostaria mesmo é de poder dar conta do recado, ou seja, gostaria de desempenhar satisfatoriamente a incumbência de dar conta dele no sentido de dar fim, de acabar com tais esquemas, e não com o ego como um todo, é claro, antes que as pessoas fiquem por conta com ela, ou seja, fiquem indignadas ou furiosas achando que ela faz de conta, ou que finge, que não percebe os incômodos causados, afinal de contas, a vida é real e não um mundo de faz de conta.

Parece mesmo que ela tem uma forte ligação não apenas com a matemática exata dos números e das contas, mas também com a má temática dos inúmeros e incontáveis erros cometidos por ela na vida, os quais ousadamente ela está tornando contáveis neste blog.

Marcy concluiu assim que gosta tanto de contar números como histórias e percebeu que hoje realiza seu antigo sonho - de escrever um livro/blog de matemática - através deste escrito que é, todo mundo vai acabar percebendo, de má temática. Mas ela não teme os anátemas…

Mais três dias se passaram, do mesmo mês de agosto, e os enteados de Marcy brigaram com gosto, para valer, se engalfinharam mesmo. Após alguns “rounds”, o garoto veio pedir-lhe ajuda porque seu pai, descontente com a contenda, ameaçou não deixá-lo descer para a área de lazer do prédio. Ele, na paranóia ou na desculpa, argumentou que a irmã o havia provocado de propósito pois sabia que viriam dois amigos para jogar futebol com ele naquela tarde.

Não querendo tomar partido nem sequer entrar na briga Marcy orientou-o a explicar a situação para o pai afirmando que ele compreenderia seus argumentos e o deixaria descer para jogar.

Mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto, não obstante, mesmo ela não querendo se envolver na briga e tendo conseguido evitá-la num primeiro momento, ou no “tempo oficial do jogo”, quando já estava na “prorrogação do tempo regulamentar” a situação configurou-se diferentemente e ela acabou caindo de chofre na esparrela por ter tentado de fato defender os interesses de seu enteado, especialmente o seu direito de jogar sossegado com os amigos e não mais vir a ser perturbado pela irmã.

O apoio de Marcy ao enteado aconteceu porque no pós briga, a enteada, logo que soube que o irmão tinha ido para a quadra, quis descer também e o pai, na tentativa de segurá-la perguntou se ela já havia arrumado sua cama, sua bagunça no armário, seu material escolar… E ela, defendendo prontamente seu interesse em assistir ou mesmo participar do jogo dos garotos, até porque um deles era seu paquera, ou “ficante”, só respondia automaticamente sim às tais perguntas, o que Marcy percebeu tratar-se de uma enrolação para cima do pai visando “driblá-lo” para invadir a “área” do irmão e atingir suas próprias “metas”, ou “goals”.

Solidária ao enteado e ao marido, Marcy resolveu fazer uma pergunta-chave para cortar de vez com aquela embromação. A enteada então, não podendo mais sustentar suas afirmativas, fez seu não explodir como resposta trazendo à tona suas raivas, suas iras, seus ódios em meio a seus esquemas defensivos e persecutórios. Um verdadeiro escândalo onde nada a fazia sair da crise de histerismo, pelo contrário, qualquer argumento só fazia potencializar seus gritos, sua birra e seu desespero por ter ficado acuada. Terrível foi a cena !!!!

Ainda chateada e perturbada por ter se deixado envolver na briga com as três palavrinhas que proferiu, Marcy levou o tema para a sua psicoterapia três dias depois.

Ela estava ansiosa pela sessão, com pressa interna e externa.

Enquanto acelerava o carro a caminho da clínica, ela planejava brincar com seu psicoterapeuta e se programou para entrar correndo na sua sala dizendo que cada minuto da sessão seria importante e solicitando que ele acendesse três incensos ao invés de apenas um, como sempre fazia, porque haveria “bicho de sete cabeças” na sessão.

Ele, que nunca havia se atrasado, estava atrasado justamente naquele dia. Enquanto Marcy o aguardava na recepção chegou uma outra profissional da clínica pedindo para que ela desse uma “rézinha” em seu carro porque ele estava amassando umas florzinhas do canteiro. Imediatamente Marcy foi até o carro colocar marcha ré e estacionar o carro mais afastado, imediatamente Marcy foi reparar o seu erro.

Marcy atendeu-a com presteza e foi “salvar” as florzinhas inconformada com o “pito” que levara pois a profissional da clínica falou com ela como se Marcy “não as amasse”, como se Marcy não fosse também uma defensora da natureza, como se Marcy não fizesse questão de ter sua consciência ecológica e ambiental limpas.

Marcy apenas não havia reparado no canteiro, devido à ansiedade pela sessão, ou talvez porque quisesse ter entrado de carro e tudo não apenas no canteiro das flores do jardim mas na sala de terapia para “adiantar o expediente”.

O psicoterapeuta de Marcy finalmente chegou e ela, se adiantando, fez a brincadeira de ir correndo até sua sala. No caminho falou-lhe da necessidade dos três incensos e logo começou a lhe contar o episódio da briga. Marcy relatou-lhe a postura de seu marido que, compreensivo, ponderado, amoroso, equânime, sempre soube colocar com bom senso, tranquilidade e clareza os limites para seus filhos.

Marcy contou a seguir como se deixara fisgar pela briga e lamentou não ter aprendido a se libertar por completo das brigas alheias. Marcy não se conformava por ter dado o aparte ao invés de ter ficado `a parte, ou apartada, da contenda pois estava, mais uma vez, com o peito apertado… Marcy sempre sentia um aperto nessa região quando havia disputa por perto…

Após descrever ao psicoterapeuta os pormenores do ocorrido na briga, Marcy queixou-se por ainda, ou mais uma vez, ter tido que sinalizar para sua enteada, que fora insolente e petulante naquele episódio, o lugar dela, a obrigação dela, a dependência dela… O psicoterapeuta alertou-a que isso era um beco sem saída, que não levava a lugar nenhum. Marcy disse que sabia mas que não estava conseguindo se desenroscar. Marcy comentou que estava arrependida por ter “pegado pesado”, nos termos do “bate-boca” com sua enteada e aproveitou o episódio recente da clínica dizendo que não queria “amassar aquela florzinha que tinha em casa”. Também disse que não queria continuar sentindo, na raiva em que ficara, como se não a amasse.

Conversa vai, conversa vem, o psicoterapeuta perguntou-lhe o que de fato ela estava querendo dizer para a sua enteada naquele dia ou o que ela lhe diria agora com o episódio já acontecido.

Marcy respondeu-lhe que diria à enteada para respeitá-la mais, que ela ainda dependia de sua ajuda e tinha portanto que respeitar a ela e às regras da casa, que ela se esforçava há anos para lhe oferecer o melhor em casa, trabalhando fora e sem empregada, e que ela deveria colaborar minimamente. O psicoterapeuta disse que isto estava certo mas que não era tudo.

Marcy perguntou o que ele tinha em mente e ele disse que o que possivelmente a havia chocado foi o blefe de sua enteada que não tinha cacife para o jogo que peitou. Ela, na pré adolescência, não tinha a capacidade, o poder, a independência que pensava ter, não tinha cacife para sustentar a postura que adotou no dia da briga.

Mas o psicoterapeuta insistiu na pergunta acerca do que mais Marcy diria a ela ou queria que ela, enteada, fizesse.

Marcy respondeu que queria que ela fosse menos orgulhosa, menos arrogante, menos petulante em algumas situações, que se vergasse de vez em quando, que atendesse aos seus pedidos e solicitações.

Após algumas explanações ele perguntou se Marcy se vergava facilmente… Marcy brincou dizendo jocosamente um sim nada convicto e afirmou que o fazia… depois de algumas décadas. Ele riu e disse que gostava muito do bom humor da Marcy. Disse ainda que o bom humor dela conferia espaço, arejava o ambiente.

Na sequência Marcy lembrou-se da engenharia e desatou a chorar. Chorou sua frustração pelo fato de não ter continuado a atuar profissionalmente naquela área. Chorou ter abortado, não ter realizado esse seu sonho de menina pré-adolescente. Chorou seu inconformismo por esse episódio mal resolvido de sua vida, uma paixão por ciências exatas, por matemática, por física, que precisou ser renegada, que precisou ser renunciada.

É claro que, com certo masoquismo, Marcy arrastou o mal estar a respeito do tema, na vida, por décadas, e sem necessidade.

Até mesmo após ter ido consultar uma taróloga, anos mais tarde, acerca de outro assunto, e ela, abrindo as cartas, sem conhecer a Marcy, ter dado inicio à leitura comentando : “ter permanecido engenheira teria sido a maior ‘furada’ de sua vida”… Ainda assim, com o susto dessa fala, o alívio foi apenas momentâneo.. Parecia que nada nem ninguém convenceria a Marcy quanto ao acerto de suas passadas, quanto à pertinência de suas desistências… Mesmo o psicoterapeuta tendo dito que ela poderia talvez ter desenvolvido uma doença grave se tivesse permanecido na área de exatas, Marcy continuava achando tal área exata e perfeita para ela…

Marcy lembrou-se a seguir, na sessão, do imenso prazer que sentiu ao resolver para seu enteado os exercícios de matemática. O inconformismo focou-se então no fato dela não trabalhar sequer com matemática, área em que foi extremamente capaz, talvez até mesmo brilhante pois, bem dotada ou talentosa, Marcy só tirava nota dez nessa matéria.

O professor mal acabava de colocar o exercício na lousa e Marcy já fornecia o resultado correto pois fazia as contas “de cabeça”. Ao invés dele achá-la insuportável, de implicar com ela por considerar que ela pudesse atrapalhar o andamento de sua aula - como faziam os outros professores que adoravam mandá-la dar dez voltas no pátio - pelo contrário, ele gostava dela, era gentil , muito compreensivo e receptivo para com ela.

Aliás, revendo sua história, Marcy notou que preferia a matemática porque ele, excelente pessoa, foi o seu professor preferido… Marcy chegou a concluir inclusive que se fazia excelente aluna inspirada na frequência vibratória de excelência dele, professor.

Os colegas de classe, filhos da elite econômica da cidade, que inicialmente esnobavam a Marcy pelo fato dela não pertencer à mesma classe social, passaram a aceitá-la pois , para conquistar espaço, respeito e amizade, Marcy, além de fazer-se engraçada (falava besteiras, fazia palhaçadas, lia os seriados hilários que criava colocando-os como personagens) e de ter assim se adaptado muito bem à turma do fundo da classe (o que comprometia sua nota de comportamento mas nunca implicou em expulsão pois as notas de matérias eram boas), sobretudo passava-lhes “cola” nas provas.

Marcy tem inclusive muito boas recordações em companhia desses ex-colegas de escola e ex cola.

E também ótimas recordações caminhando sozinha pelo páteo pois, como era “a” divertida para eles, frequentemente acabava sendo advertida pelos professores, mas perfazia com obediência todos os “necessários” circuitos “off class”.

Marcy aprendeu - na escola - a ser uma andarilha pois, tanto advertimento recebido, gradualmente as caminhadas foram se tornando divertimento. Aliás, meio de transporte preferido conquanto seu pé não esteja ferido, Marcy percebeu que desde a adolescência proporciona aos seus companheiros de viagem, ao invés de sossegados “city tours”, verdadeiros “feet tours” pois eles optam por acompanhá-la, mesmo não sendo ela a guia. Talvez ela tenha apenas ágeis olhinhos de águia que descobrem rapidamente pontos de interesse e como utilizar os mapas locais.

Pode-se dizer que Marcy teve, assim, atividades “extra-curriculares” personalizadas que
resultaram não em profissão mas num hobbie… E talvez graças justamente ( ou injustamente ) ao fato dela ter tido os tais advertimentos que puderam se transformar em divertimentos…

Marcy acredita que teve sempre muita sorte em sua vida escolar… Naquele período, Marcy foi a única, em duzentos alunos, a gabaritar uma das provas de matemática por ter resolvido corretamente um exercício que mesmo os alunos do ano subsequente, quando posteriormente desafiados, não conseguiram calcular… O professor, como recompensa, ficou de lhe dar um ponto a mais na média do boletim, o que não pôde cumprir nunca, “ficou devendo”, porque ela, segundo desculpas oferecidas posteriormente por ele, não poderia vir com nota onze no boletim… Tal “feito” poderia parecer um verdadeiro acinte para quem não é afeito à matemática… mas aconteceu sem intenção.

A escola resolveu então aplicar nela uma bateria de testes para avaliar o QI ( Quociente de Inteligência ) pois, naquela época, esse tipo de avaliação gozava de grande reputação. Felizmente ela “bateu na trave”, fazendo um ponto a menos do patamar atribuído até então para os “gênios”, e não teve que mudar de escola, mas a partir disso seus colegas sentiram-se autorizados a chamá-la, mesmo ela comprovadamente não sendo, de gênio, de crânio, o que, além de deixá-la muito constrangida, gerou certo distanciamento .

Q.ue I.nfeliz idéia da escola ter aplicado o teste pois os verdadeiros gênios não se adaptam à escola e não se saem bem nas matérias.

Q.ue I.diotice a dela - que apenas tinha facilidade de aprendizado, rapidez de raciocínio e uma enorme paixão por incógnitas e por números - ter concordado em responder àquele teste.

Pode-se até suspeitar que o teste tenha sido uma tentativa educada, mas frustrada, de transferi-la ou afastá-la da escola ( caso ela tivesse obtido a pontuação esperada ), objetivo esse cumprido em parte - pois ele conseguiu “tão somente” afastar as pessoas dela – ou talvez tenha conseguido o intento mais a longo prazo pois, de certo modo ferida pelos distanciamentos, no ano seguinte, por vontade própria, Marcy providenciou sua transferência de escola. A experiência serviu para que ela aprendesse a aceitar apenas as “pontuações” sutis, abstratas, cósmicas, não mais a dos testes.

Floyd explica, o Pink, ainda que Marcy ame também o Sigmund, de outra sonoridade.

Envolvida por tais lembranças, de episódios tão longínquos, ao mesmo tempo em que Marcy as relatava ao seu psicoterapeuta, foi resgatando sua auto-confiança de outrora e foi sentindo orgulho pelos “feitos” do passado, ou orgulho daquela que ela havia sido… Ter se lembrado de competências juvenis, mesmo que de resultantes inexpressivas para a vida, ajudou-a a se libertar do fardo de suas incompetências enquanto adulta…

Marcy percebeu então o quão difícil foi ( e ainda continuava a ser, pois a dor ainda a fazia chorar ) ela se envergar com relação ao “aborto” que havia praticado em sua carreira de engenheira, ela se conformar e se dobrar ao que a vida havia desejado dela profissionalmente em contraposição àquilo que ela desejava da vida.

Marcy percebeu que o que tinha feito era se envergonhar em vez de envergar. E chorou, chorou, chorou. Também lamentou internamente de nada ter adiantado as aulas de hidráulica da faculdade de engenharia pois ela não tinha aprendido a conter o escoamento daqueles fluidos salgados em seus olhos.

O psicoterapeuta habilmente foi buscar, naquela sessão, questões lá de trás, justamente daquele período em que Marcy havia saído de casa para estudar engenharia e fora morar com três amigas numa república.

Marcy percebeu então que o adentrar na temática já havia se anunciado no inicio do mês quando ela foi parar, concretamente, na frente de sua antiga morada estudantil e quando resolveu os exercícios de matemática para seu enteado.

A energia já estava no “ar” pois o que estava acontecendo ali naquela sessão era uma sincrônica coincidência sobre o tema, o retorno a um momento ou lugar preciso do passado, numa abordagem emocional. Marcy comentou jocosamente com seu psicoterapeuta dizendo que se engenheira ela não podia ser, também não queria e se recusava, portanto, a ser babá de pré adolescente folgada e indisposta a colaborar com a limpeza e ordem na casa.

A seguir ela perguntou se ele achava que sua entrada na engenharia e sua saída da casa de seus pais fora um blefe de sua parte. Ele disse que achava que não, e que o que ocorrera foi que de fato lhe havia sido “puxado o tapete”. Disse que não havia sinal nenhum de que ela não poderia ter exercido a engenharia, independente e autônoma como se fez, e acrescentou que inclusive ela havia sido criada para isso, principalmente por sua mãe. Só que na hora de concretizar, de realizar, de ganhar a medalha pelos meus méritos… Marcy o interrompeu comentando o que ocorrera nos jogos Panamericanos daquele ano : “forjaram um dopping”… E ele acrescentou : “pois é, e o dopping nem existiu”…

Parece que o que houve foi uma “puxada de tapete” da parte da mãe de Marcy que não esperava todo o seu brilho, toda a sua capacidade, toda a sua autonomia, ou por outra, criou-a para aquele momento, sinalizou o tempo inteiro nessa direção e depois voltou atrás bruscamente, cortou relações com Marcy somente pelo fato dela ter se demonstrado mais capaz que ela para fazer o que ela gostaria de ter feito, quer seja, ter saído de casa para cursar uma faculdade na capital, o que foi permitido aos tios de Marcy mas não à sua mãe, pelo fato de ser mulher.

Ao invés de sentir orgulho de Marcy, de suas conquistas com tão pouca idade, ela preferiu sentir vergonha pelo fato de Marcy ter escolhido alçar vôo e ter ido morar fora do ninho que ela havia construído “antes de se casar”, como teria sido aceito naquela época… Tal qual as filhinhas de suas amigas faziam… Provavelmente ela sentiu inveja do cacife econômico conquistado tão precocemente por Marcy. Aliás ela chegou a verbalizar não se conformar com o fato de Marcy tão jovem ganhar mais do que ela que tinha tantos anos de exercício em sua profissão… Que saia (in)justa! Que angustia!!! Marcy chorou… Chorou… Chorou… E se perguntou onde estariam os botões para desligar seus equipamentos hidráulicos que ela não estava encontrando… Como fazer parar a inundação ? O tempo da sessão esgotara-se e ela estava se sentindo um esgoto…

O psicoterapeuta falou que ela não precisava ir embora rapidamente, que ela podia se oferecer um tempo para se recompor… Marcy percebeu que não precisava sair na pressa tal qual havia chegado… E aproveitou para fazer mais algumas indagações ao psicoterapeuta que acabou dizendo que “talvez a mãe dela naquele momento tenha percebido o quanto queria tê-la superprotegido e não o fez por ter dado ouvidos às pessoas que lhe cobravam outra postura pelo fato de ter tido uma única filha e não poder deixar que ela ficasse mimada.” Disse ainda que a mãe de Marcy a havia soltado desde a mais tenra idade e ali se assustara por ter perdido todo o controle. Quis a reversão de um nascimento, quis a entrada de Marcy novamente no útero, mas já era tarde, muito tarde..

Ela chegou a verbalizar na época em que Marcy saiu de casa que preferia a sua morte. E Marcy percebeu então - naquele instante da psicoterapia - que ela mesma quis morrer posteriormente, quando entrou em depressão, para cumprir com o desejo expresso de sua mãe, para realizar inconscientemente, é claro, o mórbido desejo dela, ou no mínimo para cumprir com sua fala completamente inadequada e inconsequente que poderia ter tido consequências trágicas. A mãe de Marcy pegou pesado com ela. E ela, ingenuamente, não teve a menor noção, sequer suspeitou, de que viria artilharia pesada.

O psicoterapeuta reafirmou naquele momento que Marcy não havia blefado. Disse que blefa uma garotinha entrando na adolescência, não uma jovem com a capacidade que Marcy tinha. Ocorre que apareceu no jogo, de surpresa, algo como doze jogadores no outro time, algo como um lutador parrudo, ou uma regra de ultima hora só para lhe derrotar. Puxada de tapete mesmo da parte da mãe de Marcy que não suportou sua autonomia e fechou o cerco, expurgando-a da família, sim, isso mesmo, porque ela prometeu que conclamaria os familiares a negarem todo e qualquer apoio a Marcy e assim aconteceu.

Marcy chorou, chorou, e chorou…. Chorou tanto que nem sabia mais o que era hidráulica…

O psicoterapeuta concluiu a sessão comentando que aquilo era apenas uma hipótese…

Marcy saiu de lá aos prantos e, desviando um pouco de seu caminho, passou de propósito em frente ao local da republica onde havia morado e teria talvez se suicidado…

Mesmo começo e fim não só do texto, mas também de todo um contexto não apenas daquele mês de agosto, mas também das coisas que aconteceram em seu passado muito a contragosto…


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