agosto 13, 2009 Por Marcy
“Você não se esforça para que seu coração bata, ou
para que suas pernas andem, assim como você
não precisa esforçar-se ou buscar pela verdade.
A verdade está em você e trabalha em você como
trabalham seu coração ou seus olhos…”
Willhem Reich
Em agosto de 1996, no ensejo de oferecer-se cuidado, Marcy concordou em participar de um workshop de cura recomendado por sua ex-psicoterapeuta.
No mesmo final de semana a mãe biológica de seus enteados voltava ao pais para rever os filhos e aproveitaria para debater acerca de uma longa carta que Marcy havia lhe enviado.
Enquanto aguardava o início do workshop Marcy recebeu um telefonema dela, já em solo brasileiro, agressivamente reclamando do tom agressivo da carta. E Marcy pôde, de fato, reconhecer o quantum de agressividade que havia mobilizado não apenas com aquela carta mas para aquela carta, o que Marcy aceitou, de forma inédita, com naturalidade, ou seja, sem se sentir desconfortável. Tratou-se apenas de uma constatação, de uma conscientização. Marcy precisou sem dúvida da agressividade para poder colocar para fora, para poder expressar tudo o que vinha registrando, percebendo, constatando, acerca dos efeitos do abandono da mãe biológica em seus enteados pois há vários anos ela os havia deixado no pais para estabelecer residência na Europa e lhes enviava, vez ou outra, um cartão postal dizendo estar adorando os lindos passeios que fazia. Ela iniciava sempre os postais dirigindo-se a eles como “meus bonequinhos” e através da carta que Marcy enviou ela procurou lembrá-la que eles não eram brinquedos como talvez inconscientemente a mãe biológica quisesse crer.
Naquela manhã Marcy pôde ficar tranqüila, mesmo com ela reclamando do outro lado da linha, porque, através do “Jogo da Transformação” havia recebido uma carta de insight com o recado de que ela “havia sido capaz de apontar a falta de consciência de uma pessoa sem fazer julgamento ou fazê-la se sentir inadequada ou inferior”, o que talvez não estivesse completamente correto pois a mãe biológica protestava do outro lado da linha, mas aquela mensagem do jogo referendou o bem estar e o alivio que Marcy já vinha sentindo por ter simplesmente feito o que lhe cabia fazer, por ter feito o que a sua consciência exigia que ela fizesse, quer seja, expor, na tentativa de acordá-la, acerca da realidade que deixara no Brasil, duas crianças, seres humanos, e não bonecos que se deixa guardado num baú. Além disso, Marcy vinha se sentindo sobrecarregada com tamanha responsabilidade nas costas… um sobre-peso que se distribuiu, ou se expressou, em seu corpo.
Do outro lado da linha ( ou seria da rinha ??? ), a mãe biológica dos enteados de Marcy ao invés de debater os aspectos profundos contidos na carta, preferiu contestar apenas os superficiais como a data em que Marcy havia colocado como marco de sua saída do pais achando um trunfo o passaporte ter o registro de que ela saira no mês seguinte ao citado. Ela inclusive fincou sua contestação neste detalhe, porém, o que ela havia esquecido é que o pedido para que Marcy ficasse com seus filhos não foi feito na sala de embarque do aeroporto e sim na sala de estar da casa de Marcy um mês antes da viagem.
A carta e o longo bate boca não conseguiu beneficiar os enteados de Marcy, como seria justo, tampouco ela própria, como seria desejável, e como pretendia Marcy, pois não estimulou a mãe biológica a exercitar a abnegação em prol de seus filhos, ou a compartilhar com o ex-marido os esforços e encargos relativos `a prole através de maior participação ou mesmo da presença com um retorno definitivo ao país. A única alteração em seu procedimento, pelo menos momentânea, foi deixar de enviar para os filhos cartões postais referindo-se a eles como “ meus bonequinhos”, o que foi sem dúvida um ganho, ainda que tal reconhecimento tenha ficado restrito ao termo e não tenha se traduzido em amplas e reais responsabilidades cotidianas.
Entretanto, esse episódio significou para Marcy um ganho inestimável pelo fato dela ter reconhecido, de forma absolutamente inédita, e confortável, a sua agressividade.
A mãe biológica não pode assumir parceria nem oferecer sua efetiva colaboração para corresponder `as necessidade de seus descendentes, mas Marcy pode assumir parceria consciente com sua agressividade a partir de então. Não que Marcy não a manifestasse em diversas outras situações, mas é que antes sempre se sentia incomodada, aflita, por fazer uso dela e em muitas situações a reprimia, como no episódio de término de relacionamento com seu ex-noivo, onde infelizmente ela ainda não havia tornado a agressividade sua aliada, não a havia expressado em momentos adequados, ou não havia se expressado a partir dela, e acabou se deprimindo.
No transcorrer do workshop Marcy pôde perceber a mágoa que ainda carregava proveniente do término abrupto daquele relacionamento. Havia ficado ressentida com o que considerou ter sido uma traição frente aos ideais comuns e um abandono, de ordem sentimental, imperdoáveis. Marcy sentiu um grande alivio ter podido reconhecê-la pois a partir daquele episódio é que se descortinou para ela a possibilidade de transmutá-la através do perdão ao outro e a si mesma.
Cabe registrar que bastou Marcy dar apenas alguns passos em direção ao perdão e “ele” logo foi em sua direção, ou seja, a sensação que ela teve é de que mais o perdão foi até ela do que ela até ele, como Goethe havia postulado.
Parecia inicialmente uma tarefa impossível tamanha a resistência de Marcy. Era como se anteriormente os “pés” de seu propósito estivessem colados ao chão, ou como se as “pernas” de seu intento estivessem paralizadas, mas bastou ela fazer um mínimo movimento interno, pautada numa intenção verdadeira, para que o perdão permeasse todo o seu ser.
Que alivio, que liberdade, que alegria foi para Marcy ter sentido que daquele momento em diante não haveria mais nenhum registro doloroso daquele relacionamento em seu corpo, em suas emoções, em seus pensamentos…
Marcy percebeu também, em outro momento, o quão orgulhosa se colocava perante a vida achando que sozinha, sem ajuda de profissionais especializados, se livraria de um incomodo sobre-peso.
Na sequência ela fez, através dos exercícios respiratórios propostos no workshop, mais um contato profundo com seu ser interior e percebeu que poderia solicitar ajuda “divina” para, mesmo tratando-se de algo prosaico, vir a emagrecer.
Marcy percebeu naquele momento o quão pouco entrava em contato com o “divino” , o quão pouco se aproximava, o quão pouco, devido ao orgulho, ela pedia ajuda aos anjos, por exemplo, ou mesmo ao Todo, a Deus, para dar adeus a seus sobre-pesos todos. Ela percebeu o quanto se esquecia do aspecto espiritual da existência, ou o quanto esquecia-se Dele, “ enquanto pai” e o quanto esquecia-se de si, “enquanto filha”. Percebeu o “distanciamento”…. Percebeu o seu abandono, descaso e esquecimento em relação a este âmbito sutil da existência. Percebeu o quanto se fechava na onipotência de seu ego achando que dava conta de tudo sózinha…. Percebeu a orfandade que forjava… Marcy carregava consigo a sensação de que tinha sido, ela e todos os seres humanos, abandonados por Deus aqui na Terra… E percebeu que aqui na Terra, muitos humanos, ela inclusive ou especialmente, abandonava a Deus, ao divino.
Marcy percebeu que esteve ferida de “esterilidade” por um longo período porque havia se “esquecido” do divino. Conforme Annick de Souzenelle coloca em sua obra “ O simbolismo do corpo humano”, “aquele que não se lembra é estéril no sentido ontológico desse termo, pois só é fecundo aquele que se põe no mundo, que nasce em campos de consciência diferentes”.
Marcy acredita que ao sabermos do Pai, do divino, da divindade, sabemos de nós mesmos, rememoramos nossa multidimensionalidade, e que precisamos ter a lembrança total daquilo que somos para realizarmos nossa descida ao mais profundo de nós mesmos de forma a encontrarmos o nosso núcleo, a nossa essência, a nossa verdade, ou seja, a nossa verdadeira identidade. A partir da identificação com o divino que “habita” em nós podemos nos identificar como divinos que – na verdade, ou quando na verdade – somos.
Marcy percebeu então o quanto se exigia emagrecimento através de tentativas vãs, incompletas, parciais, e portanto inclusive perversas, porque exclusivamente egóicas.
Marcy submetia seu corpo a regimes cruéis, recheava-o de privações, tratava-o com muito descaso e descuido, algo assim como a combinação nefasta de uma afirmação onipotente de que sózinha, ego/corpo, ela conseguiria emagrecer, sem ajuda do “divino”, sem a “presença” consciente de sua alma e sem auxílio de um profissional especializado, tudo isso aliado ambiguamente a uma negação total desse mesmo ego/corpo via falta de cuidado, desprezo, desatenção.
Marcy percebeu que agregada a si estava muita bagagem velha, antiga, obsoleta, tal como a mágoa, o ressentimento, o orgulho, a raiva, e sentiu-se “antiquária” de emoções que a possuíam ao invés dela possuí-las. E sentiu-se antiquada e desatualizada por carregar consigo tantas emoções antigas.
Apropriando-se de sua “velhice” emocional e simultâneamente reconhecendo necessitar ajuda profissional ocorreu-lhe passar, antes de mais nada, ou melhor, antes de uma consulta com um(a) endocrinologista, por uma consulta geriátrica para que ela pudesse cuidar do que era velho nela, ou seja, para que ela pudesse cuidar, e consequentemente atualizar, a sua forma arcaica de pensar, de sentir, de ser e de agir.
Marcy sentiu que estava efetivamente precisando da ajuda de um geriatra que a auxiliasse a deixar morrer o que de velho nela estivesse precisando ser superado a fim de que ela pudesse passar a agir de um jeito novo, a fim de que fosse orientada a rejuvenescer por dentro.
Com esse tema prevalecendo em sua pauta interna, mesmo com questionamentos egóicos simultâneos acerca de idéia tão esdrúxula para a sua relativamente pouca idade cronológica, ela decidiu, a partir da alma, que era prioritário fazer uma consulta com um geriatra.
Certamente a consulta não teria por base a vaidade já que Marcy nunca teve medo do envelhecimento estético do corpo físico. Estava cumprindo a década de trinta já em companhia de rugas, de celulites, de estrias, de adiposidades, inclusive de alguns fios de cabelo branco e os assumia por completo, sem retoques nem camuflagens. Aliás poderia usar uma pulseira informativa de produto orgânico : “sem corantes, sem aditivos, sem conservantes”.
Marcy nada tem contra os profissionais da estética mas é adepta da conservação da espécie, não do espécime em termos de “formo(l)sura” ou exageros pois algumas vezes os esforços resultam péssimos, especialmente quando a vaidade invade excessivamente a idade. Com moderação e não se tornando um vício, os serviços cirúrgicos e estéticos devolvem ao ser humano o viço. O que não combina é o adepto tornar-se adicto e ao invés de mais belo e harmonioso sentir-se plastificado.
Marcy não estava conseguindo agüentar naquele período a sua velhice por dentro, ou melhor, o encarquilhamento interno provocado por emoções retidas, as quais a descaracterizavam e estavam exigindo “exorcismo” ao invés de exortação.
Apesar dessa motivação, que Marcy considerou, referenciada na alma, muito justa e apropriada, ela teve certo receio, no ego, de não ser aceita em consulta e de passar por ridícula por fugir ao padrão externo de uma paciente geriátrica. Mas ela pôde retirar de seu caminho, de sua frente, tais considerações egóicas medrosas e repressivas que adentravam repentinamente, tanto quanto pôde deixar seguir o fluxo, sem criar caso, o carro que estupidamente havia “fechado” o seu carro no trânsito, ou seja, ela simplesmente deixou que ele se adiantasse e fosse reverberar sua perturbadora freqüência longe dela e de seu carro sem “criar caso”, sem xingar, sem sequer buzinar “ repreendendo-o”. Marcy havia percebido com clareza naquele momento, e graças ao veículo que quase a abalroou, que algumas idéias se interpõem em nossas mentes “fechando-nos” aos projetos que lançamos `a frente e que não devemos nos enroscar nelas.
Seguindo o fluxo do trânsito, e logo na sequência, no primeiro semáforo, Marcy percebeu dentro dela que receberia o sinal verde quanto a ser atendida, acolhida, ouvida, pelo geriatra, por estar na verdade do movimento necessário a ser feito naquele momento de sua vida.
E ali mesmo no trânsito Marcy entrou no seu espaço interno de confiança, de coragem e por que não dizer também no espaço de sua agressividade, descoberta e aceita como qualidade justamente naquele final de semana. Agressividade essa necessária para ajudá-la a vencer as barreiras do medo : medo de se expor, medo do ridículo, medo de não ser aceita, medo de não ser compreendida, medo de ser diferente, medo de falar de uma velhice não aparente mas interna e abstrata.
Num intervalo do segundo dia do curso, assertivamente ela solicitou o cartão de um colega de workshop, médico geriatra, decidida a marcar em breve uma consulta, mas o olhar que ele lançou a ela em duas oportunidades, ao término do workshop, iria perturbar seriamente a sua decisão.
Mal ela chegou em sua casa naquele final de tarde e o registro daquele olhar retornou em sua memória fazendo eclodir uma sensação desconfortável para uma mulher casada, sensação essa reconhecida como paixão, e juntamente com ela surgiu, é claro, um sinal vermelho com relação `a consulta e mil questionamentos que se exprimiam, ou melhor, se espremiam em seu cérebro :
Que descabido sentimento a importunar uma mulher casada !
Que descabido absurdo era aquilo que Marcy, uma mulher muito bem casada, estava sentindo ? Não era possível…
A noite foi agitadíssima…. Bombardeios de pensamentos e sensações fizeram-na rolar horas na cama antes de conseguir dormir… E seu amado marido ali ao lado…. pertíssimo dela e de seus pensamentos…. Será que “escutaria” ou perscrutaria seus pensamentos ? Pressentiria seus desejos ? Suspeitaria de suas fantasias ? E o que Marcy faria com as informações do tarot de que se casaria com seu parceiro ideal nesta vida e não com substitutos dele, ou com as informações de seu mapa astrológico natal de que seu casamento seria duradouro ? Como podia ela, uma pessoa conservadora, estar conjecturando um outro relacionamento ? Estaria ela desejando inconscientemente um outro parceiro, talvez um amante ? Os pensamentos e fantasias de Marcy iam longe demais e faziam muito barulho interno naquela noite silenciosa e insone. Diante daquele tema insonoro ela se queria insonte mas encontrava-se insolente.
Marcy censurou-se e reprovou-se quase a noite toda e, mesmo contrariada com a sensação, lamentou não estar magrinha e sedutora como já tinha sido, mas na ambivalência ficava também satisfeita com o sobrepeso pois ele a ajudava a ficar quieta e apegada ao casamento.
Finalmente ela conseguiu dormir mas nem nos sonhos teve sossego porque o colega de curso esteve presente… Marcy acordou com a desistência. Convicta, não mais marcaria uma consulta com ele pois na cidade havia vários outros especialistas da mesma especialidade médica…
Que situação mais incômoda, mais absurda, mais sem propósito, mais descabida, mais impertinente para uma mulher tão fiel e bem casada como Marcy…
Imediatamente Marcy deu sinal vermelho para as suas “invencionices”… Ela acionou a auto-repreensão e a auto-repressão tendo fechado questão quanto `a desistência da consulta durante todo o dia, porém, ao deitar-se naquela noite, ressurgiu repentinamente, num flash, o sinal verde. Do interno chegou-lhe a informação de que a relação seria possível enquanto, é claro, médico/paciente, pois o que ela desejava, no fundo, não era a qualidade de amante, não era copiar a ex-mulher de seu marido e agir da mesma forma para com ele - apesar de ser portadora de carbono em seu organismo - mas sim a sua qualidade “di”amante, ou seja, a sua tão almejada quanto longínqua qualidade “diamante”, possivelmente um nano menos distante com o tratamento médico, o qual a ajudaria a lapidar as emoções aderentes de sua precoce e tão enrijecida velhice, muitas das quais estavam precisando mais de uma lápide do que de qualquer outra coisa.
Esse “insight” trouxe-lhe um imenso alivio, desanuviou toda a tensão e confirmou a possibilidade dela usar efetivamente o recurso da consulta para lapidar-se, enquanto pedra bruta, no sentido então atualizado de aprimoramento, de aperfeiçoamento e não mais, como esteve fazendo inicialmente, no sentido de “ um contínuo suplício de apedrejamento num criminoso “ pois Marcy não apenas vinha se maltratando há anos, como tinha passado a se “apedrejar” com censuras naquela semana, criminosa que se sentia pelo fato de ter tido fantasias de aproximação afetiva/sexual com outro homem que não seu marido.
Foi um alivio para Marcy ter podido reconhecer, vivencialmente e não apenas em teoria, que uma pessoa casada, homem ou mulher, pode sentir atração sexual, pode ter desejos de ordem sexual , o que é algo absoluta e instintivamente natural, mas não necessariamente ele é ou precisa ser exercido pois pode vigorar a instância da vontade, a qual se interpõe aos instintos, de se manter a fidelidade, a monogamia, de se manter o vinculo, a união estável, de priorizar-se a dignidade e o respeito.
Outro registro marcante daquela noite foi que o acordar da libido não necessariamente implicaria numa relação sexual até porque tesão para Marcy já havia perdido a relação de exclusividade com o ato sexual e havia se tornado sinalização de atividade vital e prazerosa e consequentemente sinalização de permissão para que ela desse continuidade `as iniciativas desse modo sinalizadas e deixasse entrar ou penetrar em sua vida, múltiplas outras atividades “ vitais” que não apenas o ato sexual.
O acordar da libido se constituía no indício de que com tal ajuda terapêutica Marcy recuperaria a sua vitalidade e elevaria sua libido que até então estava baixa porque, desde a gravidez seu marido havia parado de ter relações sexuais com ela e não as havia retomado por inacreditáveis três longos anos. Foi um período muito difícil para ela, de muita tristeza por não saber o que estava acontecendo. Seu marido sequer admitia conversar sobre o tema, dizia que a amava e que não tinha amantes mas a incógnita permanecia e a falta de tratamento para o problema também. O assunto tornou-se inclusive tabu entre eles pois o marido dela ficava melindrado quando ela abordava o tema. Marcy sentiu-se muito humilhada, entristecida e envergonhada.
Sem compreender aquela opção dele, até porque na gestação ela engordara apenas dez quilos e rapidamente voltara, no pós parto, a seu peso normal, com IMC 18,5, Marcy foi perdendo a auto-estima, a auto-confiança, foi minguando por dentro e engordando por fora… até finalmente conseguir, a muito custo, zerar a própria libido para se igualar a ele e assim poder permanecer, ainda que sexualmente carente, no casamento.
Após aquele extenso e assexuado período, o interesse sexual do marido de Marcy voltou mas ela é quem, tendo ficado insegura, ora demonstrava-se receptiva ora não pois o índice de sua libido permanecia baixo e ela estava desconfortável com seu sobre-peso. Marcy percebia-se estufada, estafada e sem estofo para reverter a situação, e foi justamente por tais motivos que ela sentiu necessidade de procurar os mais diversos workshops cujos temas incluíssem alguma proposta de cura…
Mas retomando o sinal verde que Marcy havia recebido com aquele insight autorizando-a a prosseguir na busca de seu diamante interno, ela esperou que o registro amadurecesse um pouco mais dentro dela para somente então marcar a necessária consulta geriátrica com o ex-colega de curso.
Algumas semanas depois, ao adentrar a recepção da clínica geriátrica, Marcy sofreu um abalo sísmico ao ver somente pessoas muito idosas aguardando consulta. Enquanto elas caminhavam vagarosamente com suas trôpegas e tremulas pernas, Marcy, similarmente lenta, vacilava no passo, quase a engatar uma ré, mas agüentou firme, num misto de “já que estava ali mesmo não ia retroceder” com uma pitada de “estamos nessa juntos, eu interno e alma, e se vocês trouxeram-me até aqui, segurem-me nesse terremoto”.
“Chegada a sua hora”, nestes termos mesmo, que é para manter a conotação de morte que Marcy sentiu ( ou seria de transformação ? ), o profissional surgiu alvo e sorridente em meio aos escombros. E o termo neste caso não tem sentido figurado, mas concreto, pois Marcy se deu conta de que o consultório do geriatra estava mesmo caótico pois passava por uma enorme reforma, ou seja, o terremoto não tinha sido apenas uma sensação interna, mas um amplo registro…
Foi muito marcante para Marcy a presença, absolutamente acolhedora, daquele profissional que, com um sorriso, ofertou-lhe as boas vindas, no olhar e na fala, em seu impecável traje emoldurado por muito entulho. Marcy descobriu que havia um ser por trás do pó, ou melhor, por trás do guarda-pó.
Toda e qualquer inadequação que o ego de Marcy quis lhe impingir anteriormente, retomada na sala de espera, e afastada pelo contato com seu eu interno, foi então embora de vez, foi varrida sumariamente e ela sentiu-se muito `a vontade, com muita presença de alma naquele momento. Marcy sentiu que estava no lugar certo, na hora certa.
Indicando-lhe o local de sua sala, resguardada do “terremoto”, o médico reconheceu Marcy como sua colega de workshop.
Na anamnese Marcy cometeu um ato falho ao responder acerca de sua profissão pois ao invés de dizer psicóloga, disse astróloga, e resolveu explicar-lhe que já tinha sido astróloga e que havia parado os atendimentos para escrever um livro, recém publicado, sem no entanto ter retomado as consultas.
Ele então pediu-lhe licença e tomou a iniciativa de fazer o mapa astrológico de Marcy. Com o mapa na tela do computador Marcy expôs sua queixa com a máxima transparência e clareza possível. Ele logo foi dizendo que Marcy tinha muita energia e que precisava de atividades físicas, de esportes, para liberá-la. Aquela fala foi ao mesmo tempo uma surpresa não=surpreendente para Marcy, o tal registro já sabido que é preciso escutar outrem dizê-lo para ser assimilado.
De imediato Marcy lembrou-se do quão ágil, ativa, esportista, inquieta fora até se casar e ter se tornado mãe, e constatou o quão parada, apesar das tarefas e funções cotidianas, estava… A “velhinha” Marcy estava recuperando a memória… E assim foi a consulta inteira, um resgate da memória acerca de quem era ela, Marcy, esquecida que havia ficado de si mesma, tão solicitada havia se sentido em atender `a família.
Após a consulta, já caminhando na calçada, Marcy foi se dando conta do quanto havia se distanciado de si mesma e dos cuidados e atenção que, como todo ser humano, deveria reservar para si. Marcy esteve cuidando com tanto esmero da família que acabou se esquecendo de si mesma, de suas necessidades, inclusive dos atendimentos médicos exclusivos para si pois nos últimos anos havia “pego carona” nos atendimentos para as crianças. Mas Marcy percebeu também que voltar a cuidar de si significaria, na sequência, cuidar melhor de sua família também. E como ela queria e estava precisando rever e reaver seu eixo…. Tantos livros de Jung havia lido, amava-o, e tinha se esquecido da recomendação que ele fizera `a sua paciente quando ela perguntou o que poderia fazer para ser uma boa mãe : “ Cuide de si, nada melhor para um filho que ter uma mãe saudável”.
Voltando para casa, Marcy passou no shopping para pegar umas fotos que tinha deixado para revelar e elas lhe revelaram que ela tinha uma linda família…
Marcy voltou muito bem para casa, voltou sentindo-se bem, voltou outra, ou melhor e corrigindo, voltou ela mesma, mais preenchida por si própria, sentindo-se mais, percebendo-se mais, reconhecendo-se mais, gostando-se mais.
No dia seguinte Marcy foi levar as crianças para a escola e, ao deixar seu filho no jardim de infância, um coleguinha bateu em sua cabeça com um carrinho de mão de madeira. Ele chorou e Marcy fez-lhe então um “carinho de mão e de mãe” também na cabeça. Ele logo sentiu-se melhor e voltou a brincar. Marcy despediu-se e saiu. Imediatamente após ter deixado o filho no jardim sobreveio-lhe um choro profundo, anímico, de abandono. Marcy deixou todo o fluxo do choro espraiar e, em dado momento, lembrou-se de que a mãe biológica de seus enteados embarcava naquele mesmo horário de volta para a Europa.
Ainda chorando, Marcy percebeu que estava para acontecer uma festividade escolar e resolveu ficar por ali, no pátio da escola, para ver a cerimônia. Nos primeiros acordes do hino ela desatou a chorar mais desbragadamente o abandono e esquecimento que havia perpetrado frente a si mesma, do qual havia se apercebido no dia anterior através da consulta geriátrica.
No meio da cerimônia é que Marcy constatou, registrou, que celebravam o dia sete de setembro, comemoração da independência do Brasil, independência…. Independência em relação ao velho continente europeu que nos colonizou… E comemorou, em meio `a intensa emoção, a independência que tinha ido buscar em relação `a sua contingente, precoce e abandônica velhice..
Marcy percebeu que o mal estar que sentia quando a mãe biológica de seus enteados ia embora do país e os “devolvia” para ela e seu marido, nas raras vezes em veio vê-los, tinha correlação com a dor do abandono dela, era algo que acontecia e a remetia a uma incomoda e inconsciente lembrança ou registro de abandono. Uma sensação esquisita, estranha, uma profunda irritação mesclada com muita raiva, algo que somente naquela data pôde ficar mais consciente. Talvez porque Marcy não tenha tido registros de abandono nesta vida, ou talvez porque os tais registros tenham sido muito precoces, em fase pré=verbal, é que ela tenha “demorado” mais para perceber que o abandono estava presente em sua vida, como um abandono de si mesma, sempre “atualizado”, com esquecimentos acerca de quem verdadeiramente era. Marcy percebeu que ela, e não apenas a mãe biológica de seus enteados, é quem “ia embora” e demorava a “voltar”. Ela é quem recentemente havia abandonado suas características pessoais, sua personalidade, seu temperamento, sua disposição, sua energia, sua idiossincrasia, e estava “demorando” para recuperá-las, estava demorando para recuperar-se….
Naquela tarde Marcy pôde compartilhar o colo, que vinha se oferecendo naquele período, com seus enteados que choravam a dor de mais um abandono real da mãe, que choravam a falta de presença da mãe, que choravam a falta do “carinho da mãe”… Consolo esse sempre insuficiente dado o caráter de substituição…
E Marcy percebeu, graças `a consulta geriátrica e `as vivências daquele dia, que abandono não é apenas o outro que perpetra frente a nós, mas sim que o outro, com seu comportamento e postura, nos permite lembrar que está em nós, quando não nos cuidamos, quando nos afastamos de nossas legítimas características, quando não assumimos nossas verdades, quando não expressamos nossa autonomia, quando ficamos dependentes de outrem, quando deixamos de viver plenamente o momento presente, quando esquecemos a nossa idade para adotar outra sem veracidade, para mais ou para menos, quando nos fechamos aos apelos de nossa criança interna, quando nos distanciamos de nossa centelha divina, do divino que há em nós…
Juntamente com essas percepções Marcy ampliou um pouco mais a lembrança, recuperada no dia anterior, do quão confiante, animada e ativa já tinha sido. Veio-lhe `a memória diversas circunstâncias e situações onde ela se sentia plenamente inserida no presente, espontaneamente ativa e participativa. Marcy acordou então para vários aspectos de si mesma que estavam abandonados e naturalmente foi se recuperando…
Entre muitas situações positivas, que passaram a adentrar em sua vida e lhe trouxeram contentamento houve um emagrecimento rápido, sem esforço e sem sacrifícios… Marcy trocou as fritas ou frituras pelas frutas, as massas pelas maçãs e brincando, costumava dizer que havia emagrecido coma ajuda do soja, não a leguminosa mas sim a conscientização de que “um só já bastava”, já era suficiente, e ajudava a não exagerar na dose ou no doce, ajudava a ser comedida e não comedora….
Havia um retorno de consulta marcado com o geriatra onde Marcy apresentou os resultados dos exames solicitados e contou resumidamente para o medico as experiências daquele mês. Ele comentou que naquele momento Marcy estava mais aberta para o emocional, mais na verdade do terreno emocional, menos racional, como estivera na primeira consulta… Marcy concordou, envergonhada ao perceber a discrepância, justamente nela, que tinha por profissão ajudar os outros a adentrarem no terreno emocional, mas pôde acolher sua vergonha, ou seja, ela não se abandonou nem ao que estava sentindo, e pôde perceber que ao mesmo tempo em que revelava sua dificuldade, sua resistência, em entregar-se `as emoções, estava se empenhando em vencê-la, em ultrapassá-la, e este consistia exatamente em seu trabalho necessário, interno e externo… desta e talvez de várias outras vidas, como Quiron, o mitológico curador, cuja possibilidade de curar vinculava-se justamente ao eterno ferimento que carregava consigo…
Durante a consulta de retorno, talvez pelo fato de Marcy ter se permitido destravar o emocional, a dor de não ter tido relações sexuais com seu marido por três anos seguidos extravasou… Ao seguir o fluxo de seu choro Marcy percebeu que deveria trabalhar mais profundamente esse assunto em terapia se quisesse de fato continuar o movimento de se cuidar, mas ela não deixou de expressar ali na consulta a dor, a raiva, a vergonha, por ter passado por aquele tipo de situação… e se viu repentinamente não apenas num retorno de consulta mas também em meio ao retorno da ligeira e fugaz paixão pelo geriatra. Ao invés de se deixar perturbar e de se abandonar mais uma vez, Marcy pôde retornar a si e perceber que havia usado a gordura corporal para se defender dos homens, para se proteger do desejo masculino sobre ela e do seu desejo de fêmea, a fim de conseguir atravessar, casada, aqueles anos de “castração”, que anularam não apenas sua sexualidade, mas que, sobretudo, restringiram fortemente a sua personalidade.
E Marcy percebeu na sequência a sua falicidade castradora de sua felicidade porque não foi o outro, senão ela mesma, a responsável por tudo o que lhe havia acontecido.
Egoicamente fálica, Marcy precisava “castrar” simbólicamente o seu homem interno, o seu aspecto acentuadamente yang, e acabou, sem querer, “castrando”, ainda que não concretamente, uma vez que apenas no não exercício cotidiano da sexualidade, o homem externo, seu marido, que desinteressou-se pela troca sexual com ela…
Marcy percebeu-se, se não máscula, no mínimo muito distante do feminino em si própria e sentiu que ela estava precisando de um retorno ao feminino, que estava precisando lembrar-se de que era mulher, ativa e dinâmica, porém ainda assim mulher… uma mulher animada, entusiasmada, viva, exuberante de alegria, que no entanto não desejava atrair outros homens tampouco se por a trair seu marido.
Marcy percebeu que por raiva, mágoa, ressentimento, em função do distanciamento do marido quando ela engravidou, ela não havia se devolvido integralmente como mulher, após o parto, a seu marido, ou melhor, havia se devolvido inicialmente mas como não tinha obtido receptividade passou a expressar somente a mãe. Marcy sentiu que precisava voltar ao seu corpo de mulher, que precisava voltar a sentir a vitalidade, o prazer, a felicidade, a sensualidade de seu corpo de mulher.
Marcy saiu da consulta de retorno bem amparada pelos insights e por seu referencial interno, entretanto, a pequena paixão, que julgava descartada, havia retornado e insistia em acompanha-la. Incomodada com a tal paixão que não arrefecia, Marcy solicitou uma consulta extra com sua x-psicoterapeuta, que havia recomendado o workshop detonador do processo de cura que ela estava atravessando.
Marcy conseguiu um horário de sessão e relatou-lhe que estava entrando em contato com uma paixão frente `a qual queria dar um trato impessoal pois não desejava vivê-la de fato, na vida real. A psicoterapeuta sugeriu que ela revelasse a paixão para o médico de forma que ele a ajudasse a trabalhá-la como cura. Marcy decidiu marcar nova consulta, não para declarar-se a ele, mas para revelar-lhe o acontecia com ela sem citar nomes.
Na semana que antecedeu a data da consulta Marcy teve enjôo, diarréia, mal estar e resolveu fazer três dias de jejum alimentar para tentar se livrar das toxinas, que ela sabia serem mais sentimentais e mentais do que físicas.
Marcy continuou perturbadíssima, sem saber se o que estava vivendo emocionalmente era um sintoma ou uma verdade, e não se permitiu ir `a consulta, a qual cancelou previamente.
Muito confusa e arrependida da covardia, do não enfrentamento, ela voltou a marcar nova consulta e ao desligar o telefone percebeu, através de um insight, que o que estava desejando era o olhar que ele havia lhe dispensado no final do curso, o olhar de um homem para uma mulher, um olhar com diferenciação sexual, e não neutro de uma pessoa para outra pessoa. Marcy percebeu ali que desejava ser vista como mulher e não como assexuada, percebeu que queria adentrar no seu feminino, no seu eu feminino, na sua feminilidade…
Aquele momento de conscientização foi indescritivelmente forte, inegavelmente pertinente, e inalienável dela a partir de então…
A paixão, naquele mesmo instante, sumiu, simplesmente desapareceu, esvaziou-se e desocupou o vazio de Marcy, o vazio de tantos anos… Vazio reconhecido naquele período e passível, a partir de então, de ser preenchido pelo desejo de Marcy, singular e plural, atuado nela mesma, de se fazer mulher para poder ser vista e reconhecida, pelos outros e por si mesma, enquanto mulher. E não o desejo atuado sobre outrem, ou sobre outro, enquanto desejo de que aquele outro especificamente a visse e a reconhecesse como mulher.
Marcy foi capaz de decifrar aquele seu enigma porque estava se buscando, porque estava se observando, porque estava se olhando e porque esteve procurando se ver. Quando uma pessoa entende ou decifra o seu sintoma ele perde o sentido, ou melhor, ele cumpre o sentido que lhe deu lugar. O sintoma não se “cura”, se “procura” o significado…. O sintoma fala acerca de uma parte do eu/ego de uma pessoa que não se manifestou, ou melhor, que não pôde se manifestar de outra forma, mais criativa, mais saudável, mais produtiva, mais construtiva… Acabar com um sintoma ou “matá-lo”, “suprimi-lo”, é fazer morrer essa parte do eu/ego capaz de nos remeter `a nós mesmos, `a nossa verdade interna, ou melhor, é obrigá-lo a se manifestar de outras formas o que, em sua busca por comunicação, pode significar seja ampliação de complicações, seja de agravações de doenças porque ele insiste, felizmente, em renascer, mas infelizmente o faz através de sucessivos agravantes de sintomas.
O sintoma é aviso, é denúncia, que possibilita a ampliação, que possibilita olhar para dentro de nossa verdade mais íntima.
Exemplifica também a relação com o sintoma o caso de uma criança que foi levada a uma consulta devido a graves episódios de convulsões. Após tomar o remédio homeopático manifestou fortes dores de ouvido e “estourou” o tímpano que expurgou muito pus dias seguidos. Na sequência espocou em seu corpo várias pústulas na pele, que posteriormente tão pronto quanto apareceram, sumiram e ela não teve mais convulsões. Uma noite desse período de tratamento essa criança apareceu no quarto dos pais chorando e contando que havia sonhado que o pai não queria mais ficar com ela, que havia batido nela dentro da barriga da mãe. E de fato essa mãe, na gravidez, havia enfrentado uma briga com o pai da criança que a havia empurrado e batido em sua barriga pois ele queria que ela tivesse feito um aborto e ela se recusou ao procedimento. Possivelmente essa criança não quis ouvir as brigas do casal, tampouco tomar conhecimento da rejeição de seu pai, e “tampou” os ouvidos tendo manifestado sucessivos problemas nessa área, sintoma esse suprimido com o uso de antibióticos, e que gerou o problema, ou melhor, o sintoma mais gritante das convulsões, através do qual talvez até viesse a deixar a existência, cumprindo assim o “desejo” de seu pai, e seu próprio aspecto destrutivo, se não tivesse simultâneamente outro aspecto, construtivo, manifestado através dos cuidados de sua mãe e de seu médico que, ao invés de fazer sumir o sintoma, facilitou-lhe a expressão.
Marcy, através da revelação de seu sintoma “paixão”, quis algo menos focal para cima do outro e mais focalizado nela mesma, e portanto menos restrito e mais amplo, mais abrangente, com vários outros e outras a reconhecerem-na como mulher simplesmente porque passaria a ser, ou voltaria a ser, aquilo que era, ou que sempre tinha sido, pelo menos na atual encarnação, e que havia esquecido, tão envelhecida havia se tornado : uma mulher.
O casamento havia transportado Marcy precocemente `a velhice e não `a maturidade. Marcy estava precisando mesmo daquelas consultas geriátricas…. e sentiu-se grata ao doutor geriatra que a ajudou a atualizar não apenas a sua idade mas a sua condição sexual de mulher e nesse sentido também não apenas a sua libido mas sobretudo o seu desejo. Marcy sentiu-se plena de seu desejo, plena de si… e apropriou-se mais um “bocadito”, um belo e bom bocado de si…
Proprietária ou inquilina de um corpo feminino, Marcy foi buscar ser mais mulher, não para conquistar outrem, mas para conquistar mais de si para si mesma, mais espaço interno para o seu feminino ser, mais espaço de conforto e adequação afetivos…
Marcy não atuou a paixão lá fora…. Marcy foi pé no chão… E certamente a conquista que efetivou e que efetivaria futuramente em sua vida, a partir da paixão e dos insights concomitantes, foi e viria a ser mais significativa, mais duradoura, mais saborosa, para ela, para seu marido, para sua família.
Marcy não estava querendo dizer com isso que é contra as paixões ou que não se deva vivê-las, só esta querendo, com seu depoimento, acrescentar que elas podem revelar muito acerca de nós mesmos, de nossos desejos, de nossas verdadeiras intenções…
- Marcy descobriu também, naquele período, que sua relação com as conquistas era mesmo relativa pois sobreveio-lhe fortemente a sensação de que se em outras vidas poderia ter sido um homem bélico e ter conquistado, no sentido de “vencido, de subjugado” outros países, pela força das armas, e através de guerras, sendo que na vida atual ela se sentia conquistada, no sentido de “granjeada, de ganho de amizade, afeto, amor” pelos mais variados países que havia visitado, que tinha conhecido. Marcy sentia-se facilmente conquistada pelas mais diversas etnias, sabia-se imediatamente conquistada pela alma de um povo, reconhecia-se frequentemente conquistada por diferentes culturas, sentia-se constantemente atraída por variadas paisagens, por diferenciados sabores, por diversos climas e aromas e podia então dizer que todos os países aos quais teve o privilégio de conhecer certamente a conquistaram. E assim talvez tenha se processado mais uma transição em sua vida : de conquistador a conquistada, o que também não deixa de ser uma passagem do masculino ativo para o feminino passivo que ativa e constantemente viaja por prazer e, porque não dizer, para se sentir rejuvenescer…
Marcy percebeu ainda naquele momento que se constituíam em fatores de rejuvenescimento para ela o contato com outras pessoas e as viagens e prometeu oferecer a si mesma e aos seus, muitas viagens e passeios…
Como resultado daquele fundamental insight a requerer uma Marcy mais mulher ela decidiu fazer uma consulta não mais com aquele geriatra, que já havia cumprido o seu papel de ajudá-la a resgatar a memória, mas com um psicoterapeuta a fim de trabalhar em profundidade os vários aspectos de sua sexualidade. Era a primeira vez que Marcy escolhia, como profissional da área, um homem, capaz de ajudá-la a ir ao encontro de seu verdadeiro desejo : tornar-se uma mulher feminina.
Curiosamente o profissional escolhido, um renomado psicólogo cujo consultório sempre foi muito concorrido, retornou prontamente a ligação dela oferecendo-lhe um horário, recém aberto em sua agenda, porque sua secretária havia feito uma pequena confusão entre ela e a primeira pessoa de uma longa fila de espera. Desse modo Marcy furou, “sem querer querendo”, uma fila e soube aproveitar a oportunidade quer por ter sido convincente na entrevista, em seu pedido por psicoterapia, quer por ter se demonstrado absurdamente necessitada, quer por ter se demonstrado pronta para entrar em processo pois o psicólogo a aceitou como sua paciente mesmo consciente do equívoco de sua secretária.
Definitivamente era o momento de conquista de Marcy, conquista não de um homem, não de outrem, mas de um novo espaço terapêutico capitaneado por um profissional altamente capacitado o que consequentemente significaria, com o tempo e o mergulho em si mesma, conquista de auto conhecimento e portanto, conquista de si mesma….
Muitos poderiam dizer que o investimento em workshop ou em psicoterapia é uma bobagem, perda de tempo e dinheiro, que seria melhor outro tipo de “chopp” após o “work”, numa “happy hour” mas para Marcy, que já foi quase “hippie” e que facilmente ficava “happie”, tais processos, além de muito libertadores, adquiriam um valor incalculável proporcionando “retornos”, em todos os sentidos, inestimáveis…
Assim sendo, Marcy sempre achou válido ambas as opções pois, ainda que fosse abstêmia, nunca se sentiu suficientemente “xiita” a ponto de tornar-se “chaaata”….
Desde cedo Marcy conviveu bem com os bares e botecos da vida…. Na infância seu pai a levava num botequim próximo ao seu trabalho e lhe oferecia chá mate gelado. Na juventude Marcy foi proprietária de um bar o qual administrava até altas horas da madrugada. Em diversos outros momentos saia com seus amigos boêmios numa ronda noturna pelos bares e cafés da cidade garimpando papos cabeça e tomando suco de laranja, em geral sem gelo e sem açúcar, mas `as vezes no calor da discussão ela atordoava alguns garçons pedindo o seu suco sem açúcar e sem laranja… O de seu amigo era sempre com duas doses de vodka seguido sempre do bordão “ que esse negócio de alimentação sadia e natural só vira uma vida longa e insípida ”. Posteriormente esse seu amigo tornou-se escritor e mandou-lhe esse mesmo recado através de personagem de um de seus livros….
Apesar do teor alcoólico de Marcy permanecer ínfimo ou nulo ela se mantém “espirituosa” e assídua nas “happy hours” , aliás, ela acha que o termo não deveria ser exclusivo para o fim de tarde pós trabalho pois todos merecemos happy every hour…
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