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T.P.M. ( Transformação Para Melhor )


agosto 14, 2009 Por Marcy

“Não lhe seria possível perturbar mais violentamente a sua
evolução do que dirigindo o seu olhar para fora, do que
esperando de fora as respostas que apenas o seu sentimento
mais secreto, na hora mais silenciosa, poderá talvez
proporcionar-lhe”

Carl Gustav Jung

Mais um agosto. 2001. Uma odisséia no espaço ? Uma odisséia por espaço ? Mais espaço para o ego ou para a alma ?
Difícil reajuste para Marcy em relação ao retorno dos enteados após os 20 dias que passavam anualmente com a mãe biológica.
Em plena T. P. M. (tensão pré menstrual) Marcy se estranhou e se entranhou.  Ela se irritou, provocou, brigou e se fechou. Ela fez uma crise escandalosamente imensa e uma semana depois percebeu que aquilo foi o início de algo que adquiriu o sentido de uma Transformação Para Melhor, o que não deixa de ser uma T. P. M. também.

Na crise Marcy ficou calada, monossilábica, gutural. Certamente, o que a atingiu acertou num núcleo pré-verbal.       

Dor de cabeça e insônia foram os sintomas da raiva, das elocubrações negativas e dos pensamentos obsessivos, mas também propiciaram auto-revelações, auto-conhecimento. Se ela tinha como intenção aproveitar mais um abandono perpetrado pela mãe biológica deles como oportunidade de acolhimento, por que as coisas estavam acontecendo daquela forma ? E justo no distanciamento ? ! ? Talvez até ela tenha ficado mais distante que a mãe biológica, que estabeleceu moradia há milhas do Brasil, no velho continente. É claro que o abandono deles a mobilizava pois aos dez meses de idade Marcy foi para uma creche para a sua mãe poder assumir a direção de uma escola. Mas além de Marcy nunca ter se sentido abandonada, há muito tinha deixado de ser um bebê indefeso que não sabia pedir, não sabia reclamar, só sabia chorar. Por que então continuar parada, estagnada, fechada, fazendo seu marido sofrer, sua família sofrer, ela mesma se amargurar e sofrer ?!?

Absurdo!

Marcy percebeu, de forma enfática e empática, o quanto o seu marido, naquela semana, se sentiu sozinho, abandonado também, e sobrecarregado com os encargos, as tarefas, as responsabilidades frente aos filhos já que ela havia retirado, em função de seu ostracismo, sua colaboração. É certo que ele trouxe em seu mapa astrológico, por ter desprezado em outra vida as mãos que o nutriram, um aspecto que indica que “como pai ele estaria só e que sobre ele pesaria um fardo familiar pois a parceira se absteria, estaria morta, ou incapacitada, devido a doença ou a viagens, de ajudá-lo, ou seria uma companheira demissionária, que fugiria às responsabilidades”. O que é inegável ter acontecido com ele, mas perpetrado por sua primeira companheira, que havia partido mundo afora. Como podia Marcy estar ali, naquela semana, “colaborando” com ela, a ex-esposa, em sua qualidade de agente “cármica” na vida dele, e não com ele ?

Absurdo!!!       

Marcy não poderia mais continuar ausentando-se.
A mãe biológica partiu para o exterior e Marcy é quem ficou aqui partida, cindida no interior, “esquizofrênica” na dor, “esquizóide” causando dor, por não “cair na real”, por não olhar a realidade.

Uma ambiguidade atroz: sempre que a mãe biológica fazia seus vinte dias de visita anual aos filhos Marcy desejava que ela fosse logo embora pois achava insuportável sabê-la por perto, e ao mesmo tempo Marcy tinha a esperança de que ela ficasse definitivamente por aqui para assumir os próprios filhos de modo que ela, Marcy, pudesse viver o papel mais simples, divertido, leve, sem compromisso, de madrasta, a receber os filhos do marido nos finais de semana, para levá-los ao cinema, para passear, para ir às festinhas, viajar, enfim, para cumprir não apenas com menos atividades mas com atividades amenas.

Mas a mãe biológica não quis de jeito nenhum o ônus do compromisso, do trabalho, da responsabilidade, da dedicação à prole. Ela pariu esses dois seres e em seguida partiu, tendo abandonado-os com a empregada, aos seis e três anos de idade, respectivamente. Separou-se do marido e parou com a maternagem aos filhos. Evaporou-se sua maternidade ???

Segundo relato do garoto sobre o curto período da infância no qual morou com a mãe, durante a semana a mãe não os encontrava pois o empreendimento que adotou com o namorado a permitia voltar para casa apenas de madrugada quando eles já estavam dormindo. De manhã, ela é quem estava dormindo enquanto eles brincavam com os filhos da empregada. À tarde, eles iam para a escolinha. Todos os finais de semana eles iam para a casa do pai e da Marcy, assim sendo, pouco parece ter sido o convívio enquanto ela permaneceu no Brasil.

Uma ocasião ela fez, sem comunicar ao ex-marido, uma viagem ao exterior e permaneceu alguns meses ausente. Como Marcy e o marido pegavam as crianças todas as sextas feiras na escola e as deixavam na segunda feira à tarde, também na escola, só descobriram esse seu feito ou feitio abandônico porque um dia a empregada ligou para a casa deles avisando que ela há algum tempo não telefonava, não dava notícia, e que tinha acabado o dinheiro que deixara bem como a comida da casa. Naquele mesmo dia Marcy foi às carreiras fazer compras no supermercado para levar suprimentos para a empregada e seu marido trouxe seus dois filhos para a sua casa. No dia seguinte, a coordenadora pedagógica da escola ligou solicitando reunião na qual comunicou ter observado que o garoto estava apresentando alteração de comportamento perante os coleguinhas, ou seja, de alegre, sociável e dócil, havia se transformado em triste, arredio, esquivo. Como (in)felizmente o casal havia tido conhecimento do motivo no dia anterior, puderam esclarecer alguns pontos e providenciar algumas vertentes de cuidado especializado para aquele período tão delicado.

Nos finais de semana com Marcy e o marido o garoto nada demonstrara talvez porque eles passeassem e brincassem bastante, mantendo-o entretido, talvez porque a atenção que lhe davam o distraísse e afastasse de seu coração a saudade da mãe. Por um outro lado, o exame clínico minucioso ao qual eles submeteram as duas crianças revelou um pequeno comprometimento orgânico na menina, o que foi prontamente corrigido através de remédios e de alimentação variada e nutritiva.

Dois meses depois desse episódio a mãe deles voltou do exterior e simplesmente comunicou que iria se desfazer de seus pertences e passar uma (outra) temporada, um pouco mais longa, no exterior.

Para surpresa do ego de Marcy, talvez não de sua alma, a “temporada” mais longa, que  ela achou que não fosse ultrapassar um ano, tornou-se definitiva.

Na formação e aprendizado que Marcy teve as mães não se demitiam jamais. Aliás, Marcy nunca tinha visto ou tido notícia de uma mãe classe média, portanto com recursos financeiros, concreta, e não apenas abstratamente, demissionária. De forma que ela ficou completamente aturdida e sempre reportou-se ao feito como inacreditável. Ser mãe, no entender de Marcy, era tarefa aceita em termos de missão, não se tratava de uma modalidade passível de incorrer em demissão…   Mas a mãe biológica corajosamente se exportou e não se importou – aparentemente, é claro - com os filhos deixados aqui, o que muito importunou Marcy. Mas cada qual sabe de si, inclusive porque ela, que sempre foi vista por Marcy como uma mãe turista, pode na verdade ser uma mãe futurista, vanguardista, avançada para seu tempo, posto que desapegada de funções, atribuições ou papéis, mesmo da possessividade ou da emotividade que pode fazer talvez parte de pessoas latinas e ditas sub-desenvolvidas como Marcy…

Embebida em seu universo, ou no desenvolvido universo europeu, ao invés de embevecida com os filhos, a mãe biológica dos enteados de Marcy, que quando queria sabia ser um porre, pelo menos numa visão de Marcy em plena T.P.M., acabou ficando por lá ! E ela, Marcy, acabou tendo que arcar todos os anos com a ressaca de uma embriaguez ditada pela falta de mãe. Afinal, vinte dias por ano era o suficiente para a mãe biológica. Frugal ela, não ? Algumas tias chegam a passar mais tempo com os sobrinhos…

Mas naquele ano Marcy desejou que fosse diferente, ou seja, ao invés de lamentar mais um abandono, que se sobrepunha ao primeiro, num somatório de abandonos perpretados  pela mãe biológica todos os anos, Marcy iria é aproveitar a oportunidade para acolher melhor, para receber mais calorosamente os meninos em seu coração.       

Bem intencionada ela estava. Confiante e esperançosa também… Então porque a crise, o distanciamento, e logo “de cara”, o abandono justamente de sua parte ?

Seria “só” mais uma T. P. M. ? Só uma crise, um chilique, uma irritação natural do período ?

Poderia ela se enganar, se ludibriar, se esconder atrás daquela T. P. M. ?

Talvez até quisesse, mas não pôde. Daquela vez não pôde… Marcy foi obrigada a se conscientizar de que, mensal ou não, a irritação era dela, o mau-humor também, não eram “da” tensão pré-menstrual, que aliás Marcy via como um sintoma moderno, que não “existia”, assim exacerbado, na época que ela atravessou a adolescência.

Mas Marcy se perguntava o que aqueles sintomas queriam revelar. E se perguntava também se os sintomas se agravavam a cada geração ou se teria sido sempre assim só que não se comentava a respeito…  Marcy também chegou a cogitar se eles teriam ou não alguma relação com o fato das mulheres optarem por distanciarem-se do feminino intuitivo, do feminino sabedoria, do feminino natureza, do feminino yin…  se seria um clamor orgânico por maior recolhimento, quietude, sossego como faziam as índias que se ausentavam da tribo para permitir um contato maior consigo mesmas, com a intuição, com a sabedoria, ou essa sua leitura soaria pueril e retrógrada…

De todo modo, `aquela T.P.M. especificamente de agosto de 2001, Marcy não pôde dar um “trato” superficial, não pôde continuar suprimindo os sintomas, ou continuar expressando-os irresponsavelmente. Simplesmente Marcy não pôde continuar ignorando suas sensações, por menos agradáveis que fossem. E ela se recusou a “abandonar” mais uma vez tais avisos, tais oportunidades, no caso mensais, de se tornar um ser humano melhor.       

Co-incidiu a tal visita anual da mãe biológica com a “visita” mensal do potencial biológico para Marcy tornar-se mãe e ela teve que trabalhar com a sua frustração nesse sentido. E também com a resistência que havia nela, uma resistência à maternagem abstrata, não à concreta, porque no fundo ela queria espaço para ter mais filhos, ou melhor, para ter tido mais uma filha natural, conforme estava inclusive previsto, e que as contingências não permitiram acontecer. Uma difícil resolução, pois Marcy queria ter sido mais uma vez mãe, concretamente, e não se permitia a fim de cuidar melhor das três crianças no dia a dia, mas precisava aprender a ser mais mãe, abstratamente, para oferecer-se com mais qualidade àqueles seres, para acolhe-los mais verdadeiramente como filhos…       

Forte e bela podia ser a intenção mas no cotidiano Marcy, fraca de atitudes, se decepcionava muito consigo mesma, com seu comportamento, por vezes muito rígido, distante e duro, quase como se ela fosse um testo e insensível pai, sem textura ou compostura, quase sempre numa postura turra… Excesso de testosterona ??? Um inconteste teste para quem se queria incontestável ??? Para alguém apenas instável ??? Ou para uma pessoa incontentável ??

Calorosa, afetuosa e energética é o que Marcy se queria mas muitas vezes, por falta de ética, demonstrava-se apenas enérgica…

Os fatos e as verdades foram então se descortinando na frente de Marcy.

Ela havia alçado o vôo da esperança (em melhorar como ser humano) e caia por terra de decepção (consigo mesma). Como os três helicópteros acidentados no período em que ela, a mãe biológica de seus enteados esteve aqui.

Aliás, Marcy sentiu que mergulhou na escuridão do mar das emoções tal qual ocorreu com o acidente de um empresário de São Paulo cujo helicóptero caiu à noite no mar do litoral norte do estado.

Marcy ficou se debatendo em birras e irritações sem sair do lugar e se afundando, afundando sua maternagem, afundando sua família. Felizmente seu marido teve fôlego e a ajudou a chegar “à praia”, diferentemente do que ocorreu concretamente com uma modelo que acompanhava o empresário pois ela veio a falecer no mar.

O aspecto masculino interno de Marcy, parte de seu ego, tem sido onipotente, como provavelmente se comportaram naquele dia o empresário e/ou seu piloto, por terem resolvido viajar com tão péssimas condições climáticas.

O tal empresário (e o ego de Marcy também, como veremos) precisou reconhecer a impotência de carregar a modelo consigo no mar revolto como devia estar. Ele deve ter tentado. Ele deve ter desesperadamente tentado. Aliás, não deve ter sido fácil para ele ter se dobrado à impotência. Como sabemos que não é fácil para o ego de ninguém. Tampouco para o de Marcy !!!

Das alturas da onipotência ao mergulho na impotência, ocorreu a sobrevivência do potencial.

Para mudança de comportamento ?

Talvez !!!

Talvez tenha sido esta a trajetória do empresário naquela sexta-feira à noite. Talvez pudesse vir a ser esta a trajetória do ego de Marcy a partir daquele mesmo final de semana em que ela estava de T.P.M. e se conscientizou acerca de uma série de opções e  comportamentos seus.

Marcy precisava que seu ego, quando em atuação a partir do seu masculino interno, se visse, se percebesse, se reconhecesse impotente e que ele saísse da onipotência, do autoritarismo, do orgulho, para deixar efetivamente o modelo infantil para trás, para superá-lo, para deixá-lo morrer nela enquanto parte de seu ser, não o todo de seu ser, a fim de preservar sua vida e buscar torná-la mais saudável e menos saudosa frente ao passado, frente à infância, frente a opções imaturas, frente ao comportamento infantil.

Marcy precisava deixar que saísse de cena o “a mando” seu, “a mando” dos seus caprichos, memória de um autoritarismo infantil, para dar lugar ao “amando” os seus (familiares, consanguíneos ou não) no maior capricho. União, e não separação desses termos, tampouco dos membros de sua família, constituída de forma não biológica.

Marcy queria-se caprichando nas ações e intenções e não caprichosa por excesso de ego.

Marcy queria entrar, emocionalmente falando, no universo adulto, queria ser madura e não má e dura. Queria deixar morrer o modelo de mãe severa e rigorosa que havia recebido na sua própria infância, adotado ou internalizado como seu e praticado até então para tornar-se cada vez mais materna. Queria ser amplamente maternal e não ficar no “maternal” , na “creche”, no “berço”, esplêndido ou não, a vida toda em função das respostas precipitadas ou imaturas que dava à vida, ou que permitia que seu  ego desse, às circunstâncias, aos desafios da vida.

Marcy queria demonstrar acolhimento e grandiosidade e não encolhimento e pequenez.       

Marcy queria mergulhar no amar e não morrer no mar. Que só é doce na canção, na vida real é dor, é perda, é trauma, é separação.

Marcy havia ficado sem dormir, com insônia, por medo da perda naquele período.

Consciente: de perder seu marido por separação ou morte súbita.

Subconsciente: de perder seu pai que, sem que ela soubesse, naquele período, teve problemas alérgicos, com agravantes cardíacos e, de fato, pensou que fosse morrer.

E inconsciente: de, no ego, perder mais uma parte de seu masculino interno para se tornar mais feminina, mais mulher, mais mãe.

Marcy ficou sem dormir, com insônia, sentindo-se ameaçada, de forma inconsistente e difusa, mas de fato ameaçada. E somente depois foi perceber que essa sensação tinha propriedade, merecia respeito e atenção, mas não de forma paranóica, e sim porque seu ego estava mesmo ameaçado, não totalmente, não mortalmente, mas em parte, pois era o momento dela, tão conscientemente quanto possível, abdicar de parte dele, dessa parte que tardiamente ainda insistia em manter, em seguir, um modelo infantil e onipotente de comportamento. “Restrições” necessárias a um ego espaçoso, vigoroso, imenso, que, naquela vez, finalmente acabou cedendo espaço para a alma, a feminina alma, de forma a que Marcy pudesse se olhar e se ver por inteiro. E assim rever posições, conceitos, posturas.

Como Clarisse Pinkola Estes indaga em seu belíssimo livro, “Mulheres que correm com lobos”: “ao que eu preciso dar mais morte hoje para gerar mais vida ? O que eu sei que precisa morrer em mim mas hesito em permitir que isso ocorra ? O que precisa morrer em mim para que eu possa amar ?”
Mesmo temendo a “perda de poder”, ele, o ego de Marcy, mesmo “assustado”, acabou cedendo espaço e permitindo que só o interno, a parte masculina, viesse a “morrer”, e não seu pai, tampouco seu marido, cuja perda ela poderia vivenciar pela morte ou pela separação, já que ele poderia não aguentar seu distanciamento, seu ensimesmamento, seu descaso , seu desinteresse, seu ostracismo.
O ego de Marcy cedeu, e ela ficou feliz não só por perceber que isso foi possível, mas também porque todos os temores e fantasmas acerca de morte se desanuviaram imediata e simultaneamente.
Quando perguntaram à Marcy o que ela queria ser quando crescesse, ela respondeu, aos cinco anos de idade, que queria ser mãe, e continuava querendo, mas, a partir daquela T.P.M., não mais de um novo feto, e sim de um renovado afeto. Um treino, uma etapa, uma experiência frente à qual ela se abria cada vez mais para acompanhar seu marido no papel de mãe de seus filhos. Mãe abstrata, não mãe abstração.       

Ficou claro, naquele período “tepeêmico”, para Marcy, que eles, seus enteados, é que a haviam adotado, que a haviam aceitado, na sua pequenez de alma, e não o inverso. Ela é quem fôra adotada por essa família de seres fortes, amorosos, acolhedores. E eles aceitaram não apenas a ela, com seu sombrio pequeno eu, o interno, seu ego, mas também seu “eu” externo, pois ela fez-se acompanhar neste projeto por seu filho biológico.

Fantástico !!! Maravilhoso !!!       

Marcy precisava, mais do que tudo, dessa adoção. Dessa percepção frente à adoção… E precisava adotar um novo padrão. Assim sendo, ou ela se preparava, se abria para a alma, se abria para novas experiências e abria mão dos excessos do seu ego para nadar até o fogo, a chama, a luz de um lar acolhedor, que ela mesma viria a proporcionar aos seus, ou se afogaria – ou mesmo acabaria deixando alguém se afogar — no mar do abandono.

Marcy percebeu que teria uma escolha a fazer pois ou abriria mão do modelo anterior ou afundaria com ele. Ou se aprofundaria em si mesma, num exercício de auto-conhecimento, auto-superação e auto-transformação, ou se afundaria nas profundezas da escuridão possivelmente de uma depressão.

O empresário e seu co-piloto tiveram fôlego, tiveram preparo de atleta para nadarem até aquela luz que viram na praia e sobreviveram. Marcy esperava ter fôlego e preparo de atleta nos assuntos do coração, no afeto, no amor, para sustentar esse seu propósito, para sustentar-se neste propósito, mais de sua alma do que de seu imenso ego. Mas, instigada por aquela T.P.M., ela estava optando em identificar-se com a alma e não com o ego…

Marcy reconheceu precisar de muito, muito treino, porque seus músculos cardíacos estavam absolutamente flácidos quanto à capacidade amorosa. Mas ela não queria ficar para trás, não queria se deixar afogar, ou seja, não queria se deixar identificar com o que havia ocorrido com a modelo no acidente, tampouco queria continuar se identificando com o modelo infantil que trazia consigo, ou com os modelos rígidos, pesados, frios, que havia absorvido na existência e que poderiam fazê-la afundar. Marcy queria mais era reciclá-los para poder um dia se tornar uma super-mãe. Não a super-mãe de um filho único, capaz de sufocá-lo, de afogá-lo, num onipresente amar, mas uma super-mãe no sentido de completamente mãe, mãe abstrata, e nem por isso menos concreta, de vários, múltiplos, muitos seres humanos. Mãe, no sentido simbólico e pleno do termo, e não somente no sentido biológico. Mãe inspirada pelo modelo arquetípico. Mãe adotiva de filhos alheios se considerarmos o plano físico, biológico, mas simplesmente mãe, se considerarmos a multidimensionalidade de nosso ser e se considerarmos que todos somos adotivos na terra uma vez que nosso verdadeiro lar é cósmico e que nossos pais podem ser deuses e deusas intergaláticos.

Aliás, Marcy acha que todo adulto perto de qualquer criança deste planeta deveria adotar a postura de um pai ou de uma mãe frente a ela, sendo acolhedor(a), receptivo(a), compreensivo(a), atencioso(a), amorosa(o).

Marcy acredita que para melhorarmos um pouco o planeta bastaria exercermos a função, o papel parental, momentaneamente, nos encontros com quaisquer crianças, com as “nossas” crianças, já que todos compartilhamos este planeta. Marcy acha que deveríamos nos permitir entrar nesse lugar privilegiado a fim de sentirmos o prazer de acolher, de cuidar, de amar…  Assim talvez o mundo se libertasse aos poucos da imensa dor do abandono através da responsabilidade compartilhada por todos.
E tanto quanto deveríamos querer saber de nossas crianças do planeta, deveríamos saber querer nossa criança interna, deveríamos cuidar de nossas energias primárias e primeiras a fim de não permanecermos tão infantilizados, tão imaturos, tão prisioneiros de nossas infantis histórias.
Aliás, Marcy gostaria de lembrar que abandonar a infância e passar à fase adulta, movimento interno, é diferente de abandonar a infância no sentido de deixar a(s) nossa(s) criança(s) abandonada(s), em família ou na sociedade. E infelizmente estamos atuando mais frequentemente a concretude desta frase do que percorrendo sua abstração, e conquistando maturidade.       

E Marcy conclama a que abandonemos pois nossas infantilidades e não nossos infantes, a que abandonemos os desatinos de nosso mimado ego e aceitemos que os desígnios da presença interior nos guie, que a nossa divina criança interna nos indique o caminho.

Marcy sentiu naquela T.P.M. de agosto de 2001 que um enorme processo de aprendizado havia começado a partir da convivência com os meninos, filhos do seu marido, a partir da aceitação daquela maternagem.       

Houve um período em que ela chegou a achar muito pesado, muito trabalhoso, ter que cuidar de dois filhos resultantes de uma adoção compulsória. Posteriormente ela percebeu ter se tratado, apenas, de uma etapa inicial, de algo grandioso que poderia vir do futuro em sua direção, se assim ela o permitisse, através de reformulações contínuas em suas atitudes e posturas. Isso, se ela pudesse agir sem pesos, sem contrapesos, sem desbalanceamentos, sem desprezo, sem descaso, pelo presente, quer enquanto momento atual, quer na referência do “presente” de grande valor que havia recebido da vida na forma destes meninos, destes seres .

E Marcy, que não compreendia por que seu filho biológico desprezava, descartava, ou não valorizava os presentes que ganhava - ele brincava algumas horas, alguns dias e logo os descartava - naquela T. P. M. percebeu que ele estava animicamente imitando-a. Na T. P. M. ficou claro e óbvio que se ela, Marcy, que era parâmetro para ele, não o fazia, não assumia os meninos plenamente – o seu presente – ele não tinha mesmo a menor condição de “assumir” e concentrar sua atenção em seus presentes, pois as crianças reagem muito menos ao que dizem os adultos do que aos influxos da atmosfera circundante.

Teve um período, inclusive, em que seu filho não assumiu as responsabilidades escolares a contento, nem as suas obrigações mínimas, estava sempre disperso, o que pode também ter sido reflexo desse parco modelo que Marcy havia lhe oferecido não assumindo plenamente sua responsabilidade de mãe amorosa perante os meninos, escondendo-se atrás da imagem da mãe biológica deles que também não assumiu sua responsabilidade de mãe tendo deixado seus “bonequinhos” no Brasil.

Marcy assumiu, é claro, os cuidados necessários frente aos meninos, múltiplos e variados até, mas como fosse se alongando e se ampliando a exigência e ela se cansando ou ficando ansiosa para que houvesse espaço para poder receber sua tão sonhada e aguardada filha natural, os cuidados foram assumidos não a partir de seu centro amoroso e sim apenas como a obrigação e responsabilidade de um adulto que se vê diante de dois seres abandonados e indefesos.       

O vazio que a mãe biológica lhes deixou Marcy acredita que manteve, que preservou, e que “ironicamente” respeitou, acreditando que o lugar era dela, que ela voltaria a ocupá-lo, e que ela Marcy não poderia ousar retirá-la do posto uma vez que estava viva em algum ponto do planeta e não morta. Aliás, ela não quis abrir mão do pátrio poder, e o complacente marido de Marcy concordou em não abrir processo, apesar das evidências e das múltiplas testemunhas, inclusive sua ex-empregada, que se ofereceram a depor em favor dele, pai. Marcy não pretende, é claro, justificar com isso a sua postura, cuja base antecede obviamente tal situação e assenta-se, ela tem certeza, sobre seu coração pequeno, estreito, apertado, que não abre facilmente espaço para o outro, mas, com isso, talvez ela tenha de fato ficado mais fechada e refratária, com medo de maiores envolvimentos e de possíveis perdas, caso a mãe biológica reivindicasse, a qualquer momento, os filhos de volta, conforme seria, aliás, natural.

Foi desconfortável para a Marcy, que aprendeu a corresponder ao valor de respeito e honestidade com relação aos bens alheios, a situação em que a mãe biológica deles a deixou, ou melhor, em que ela se colocou. Marcy sempre quis que ela voltasse para assumir sua cria, para retomar seus “bens maiores”, os filhos, o que nunca ocorreu. Aliás, Marcy sempre desejou que ela voltasse para resgatar, não apenas os filhos, mas a própria maternidade, e com isso, a possibilidade de vir a ter a presença e a companhia de uma mãe numa próxima encarnação.

Marcy acredita ter construído mais este “delírio” ao estudar justamente o mapa astrológico de seu enteado, o qual revelava que ele, no passado, havia deixado os filhos e a família para passar a vida no exterior, tal qual sua mãe biológica atual. A partir dessa “descoberta”, Marcy passou a acreditar que como nós nos comportamos, como pais, com nossos filhos, é esboço e escolha de como queremos que se comportem nossos pais numa próxima encarnação, sendo que, se optamos, ou não podemos ter filhos, certamente a vida solicitará que façamos, através de maternagens com parentes, com idosos, com vizinhos, com dependentes, com alunos, com estagiários, o rascunho de nosso futuro.

Marcy acredita que somos sempre herdeiros de nós mesmos, de nossos comportamentos, de nossas opções, de nossas escolhas…

Marcy acredita que o “rascunho dessa vida atual tenha sido preparado numa vida pregressa e que esta vida atual também está sendo “rascunho” de uma vida futura…

Marcy  acredita numa conexão sempre ampla entre tudo o que fazemos…  Numa conexão entre passado, presente e futuro, envolvendo não apenas esse espaço/tempo da terceira dimensão, mas a multidimensionalidade de nosso ser…
Marcy soube que a mãe biológica de seus enteados havia perdido sua mãe na infância e em T.P.M. anterior, a partir dessa informação, garimpou outro de seus delírios pois concluiu que a mãe biológica de seus enteados havia “matado” precocemente sua mãe por duas vezes nesta vida. Felizmente, ambas de forma simbólica e não concreta. A primeira vez aconteceu porque ela fez-se orfã cedo na vida uma vez que aquela que viria a ser avó dos garotos teve uma doença grave e faleceu. A segunda vez, na infância dos garotos, “matando” a mãe que ela própria deveria ter sido e não foi por ter optado por uma moradia na Europa.       

Marcy observou, na T.P.M. de agosto de 2001, a necessidade de ajustar o foco de sua miopia a fim de poder reconhecer que a mãe biológica de seus enteados era dotada de uma enorme capacidade de abstração e não precisava de maternagem concreta, de presença física de mãe, tampouco seus filhos, ou mesmo ela própria que sempre foi muito autônoma. Mas ainda assim não perdeu de vista a perspectiva de que alguém tem sempre que cuidar, que prover, as necessidades dos pequenos grandiosos seres na infância, o que com certeza ela não fez !!!!

A mãe biológica começou a percebê-los e atendê-los melhor quando já eram adolescentes, período no qual Marcy foi sutilmente transferindo-lhe algumas obrigações.

Talvez a mãe biológica fosse capaz de manifestar o supra sumo, o perfume, a fragrância, a essência, em termos de maternagem na minúscula dose anual que conferia… Mas Marcy, desrespeitosa e impropriamente, durante período “tepeêmico” anterior, chegou a fazer uma associação dela a um ser reptiliano, não por identificar certa similaridade com o fato dos répteis botarem os ovos e abandoná-los à própria sorte, pois Marcy sempre reconheceu que ela teve o cuidado de deixar os filhos em outro ninho, mas sim porque, no trocadilho, concluiu que da forma como ela agiu perante seus próprios filhos, ela “reptiu” o padrão de “matar” a mãe precocemente conforme esclarecimento acima. Felizmente, é necessário reforçar, ela “matou” a mãe no sentido figurado apenas, e não concretamente enquanto matricídio, o que já é uma grande e nobre diferença, e um enorme passo em termos de desenvolvimento, ainda que essa “morte” perpetrada por ela com relação aos próprios filhos, por ter carecido de convívio, tenha carecido também da abstração maior oferecida ou conquistada pelas mães que se dispõem a estar presentes na vida de seus filhos, as quais cotidianamente buscam superar e atualizar o “modelo”, ou o “exemplo” de mãe que tiveram, processando internamente muitas “mortes” e muitos “lutos”, num verdadeiro esforço de criatividade em nome das gerações futuras, como por exemplo, o esforço de abandonar os padrões, os modelos, ou as referências ultrapassados da geração anterior, ou de sua própria, o esforço de “abandonar” o papel de filha no sentido de deixar de ser uma personagem assistida, para assumir a maternidade, o esforço de abandonar abnegadamente alguns projetos pessoais mas não, e nunca, os próprios filhos.

O psicanalista Roberto Freire traduz muito (po)eticamente esse contexto dizendo :

“hoje cedo encontrei meu pai,
Dói saber o quanto ainda sou filho.
É preciso matar meu pai, teu, nossos pais.
Mas é preciso sabê-los morrer,
Para não cometer suicídio”.

Matar o(a) pai(mãe), terreno(a) ou celestial, simbolicamente, é claro, faz parte de um processo de separação a fim de que encontremos, internalizado em nós mesmos, a imagem do(a) pai(mãe) terreno(a), e também cósmico, divino, a fim de que expressemos o(a) pai(mãe), terreno(a) e divino(a), que somos.

Psicologicamente, matar o(a) pai (mãe), sempre simbolicamente, é necessário para que ocorra a passagem da identificação para a identidade, para que saibamos quem somos, para que descubramos nossa verdade, sem suicidarmos nossos projetos, nossas intenções, ou os projetos e intenções de nossa alma, de nosso ser/self.

Como pai e mãe têm correlação direta com nosso passado, com nosso comportamento passado, com o modelo que adotamos no passado, é como se deixássemos assim “morrer” o que fomos (numa encarnação anterior ) para dar lugar ao novo, em nós mesmos, para caminharmos em direção ao nosso vir a ser…     Uma morte dentro de nós, simbólica, não uma morte nossa, nem de ninguém. Exercício de nossa capacidade de abstração e não de nossa concretude.  Opção de deixar que o ego “morra” parcial e abstratamente em nome de aspectos superiores de nosso ser ao invés de nos deixarmos morrer concretamente em função das opções equivocadas do ego.

Marcy em suas divagações percebeu, num dado momento, a necessidade de se retratar perante alguns nefastos e incorretos pensamentos pois, quem de fato acabou agindo sem capacidade de abstração, e muitas vezes atuou com frieza, com distanciamento, sem calor humano, foi ela mesma em seu cotidiano atribulado. Ela, Marcy, é quem teve dificuldade em aproveitar todas as generosas oportunidades que esses seres e o universo lhe conferiram. Foi ela Marcy quem de fato “reptiu” padrões obtusamente conservadores e ancestrais… Essa ancestralidade que herdamos de nós mesmos, de nossos comportamentos inalterados, ou pouco atualizados, desde sempre…

Marcy sempre desejou que ela, a mãe biológica, a (m)atriz principal, retornasse para assumir o seu papel de protagonista . Contratada para um papel coadjuvante, Marcy queria ter tido uma participação bem menor nesta história, aliás, Marcy talvez quisesse ter tido apenas o papel de uma mera figurante, mas com o transcorrer da trama ele inclusive foi se esticando e se ampliando. Assim Marcy, canastrona que sempre foi, que inclusive já havia recusado convite para atuar numa novela na televisão e tinha devolvido, por absoluta honestidade frente à sua desqualificação, cobiçados scripts, viu-se na contingência de permanecer em cena, desconhecendo completamente o roteiro .

Como resultado desses anos todos, algumas vezes Marcy atuou dramas e tragédias, quando os enredos poderiam ter sido mais leves, até mesmo muito mais cômicos. Mas a dor do abandono foi real e não ficção e isso acabou comprometendo demais o seu desempenho. Muitas vezes inclusive, os episódios foram hostis, sendo que em cenas mais arriscadas, nas quais seu marido não teve coragem para expressar seus limites e solicitou que ela o fizesse, Marcy virou seu “double” e foi alvo, se não de contusões, pelo menos de confusões, traduzidas em agressividades que claramente deveriam ter sido dirigidas a ele. Outras vezes, em comoventes cenas de alto teor de compaixão, quando Marcy pode ser verdadeiramente maternal, também foi alvo de agressivas rejeições talvez porque fosse insuportável para seus enteados o registro do contraste entre o que ela lhes oferecia, e o que a verdadeira mãe deixava de fazer, entre o que ela estava se dispondo a ofertar-lhes e o que a mãe biológica recusava-se a oferecer-lhes. Marcy precisou se lembrar com frequência, naquele período, de Paul Valery que disse : “peça desculpas quando agir bem – nada fere tanto”.

E esse tempo todo muitas vezes Marcy se viu sozinha tendo que atuar e se desdobrar efetiva e eficazmente em diferentes “estúdios e locações” a fim de, no papel de cenógrafa, preparar-lhes cenários asseados para suas melhores atuações : sala, quarto, banheiro, quintal, escola, carro, clube, parque de diversões, casa de amigos, casa de parentes, inclusive a cozinha, que exigiu também seu desempenho como produtora de refeições, o que lhe consumiu muito tempo, dedicação e inspiração. No papel de contra-regra ela não apenas providenciou algumas regras para o bom encaminhamento e adequação das cenas como também praticamente tudo o que era necessário nos cenários tendo ainda supervisionado os técnicos que foram solicitados a fazer eventuais consertos….

Com tantos papéis a desempenhar, Marcy não pôde evitar as falhas, os nervosismos, os esquecimentos…  Além disso, Marcy não pôde contar com nenhum “ponto” oferecido por parentes de seu marido - quase todos ausentes - a lhe “soprarem” ajuda, ou mesmo as feridas, nos momentos mais frágeis e difíceis.

Resultado : o espetáculo na maioria das apresentações ficou sem a direção do eu superior.   Em muitos momentos, como na(s) semana(s) da(s) T.P.M.(s), Marcy emudeceu para não ultrapassar a superficialidade da ficção e colocar para todos as verdades de seus sentimentos, de suas percepções, de suas dificuldades, de suas limitações, mesmo de suas impossibilidades, de seus limites, com receio de que esse tipo de colocação pudesse vir a implicar numa interrupção, ou mesmo no término, do seriado real.

Sem dúvida, a saída de cena da mãe biológica dos enteados de Marcy, e a subsequente troca de papéis lá atrás, foi muito incômoda para ela, ou corrigindo, foi muito incômoda para o ego da Marcy e, assim sendo, a esperança no retorno da (m)atriz principal passou a fazer parte de seu cotidiano racional e nacional.

Esperança totalmente em vão. Múltiplas decepções Marcy teve com relação à mãe biológica dos meninos. Uma ocasião inclusive ela acusou a Marcy de ser uma pessoa de “expectativas muito altas” só porque Marcy verbalizou seu desejo de que ela voltasse ao pais para assumir os filhos. Pois bem, as expectativas de Marcy foram e continuam sendo em geral altas mesmo. O supervisor dela já havia percebido e lhe disse que ela atuava profissionalmente, mesmo sendo autônoma e não tendo que prestar contas a nenhum patrão, como se tivesse que matar um leão por dia para sentir que fez algo, para sentir que trabalhou, para sentir que produziu, para sentir que apresentou rendimento. Ele disse que parecia que Marcy queria bater records todos os dias. E uma colega acrescentou brincando : “medalha, medalha, medalha”.

Marcy reconhece que quando acha – pelos seus padrões elevados - que está dando pouco, acaba inclusive afugentando, afastando a clientela, como se tão somente por isso ela pudesse ser igualada a uma pessoa incompetente, embusteira, charlatã. E Marcy sabe que não se contenta não é com pouco só não, é com o normal, com o humanamente possível. Marcy quer sempre dar muito de si, de sua capacidade. Como disse seu supervisor, Marcy não aceita que a sessão seja light, que se aborde um só tema por sessão, “quer” logo vários temas e “quer” a cura também de aspectos relativos a outras vidas inclusive. É como se Marcy quisesse ser espetacular o tempo todo.

Marcy soube reconhecer o absurdo de suas auto-exigências mas acontece que era uma delícia para ela perceber os resultados como, por exemplo, com uma paciente que na primeira sessão chorou bastante dizendo, entre soluços, sentir saudade de outro lugar, não gostar da existência, não querer estar na vida. Essa paciente disse também estranhar estar invertendo a posição na consulta pois sua profissão de médica a colocava atendendo o outro e não sendo atendida. Disse não saber o que fazer ali, que só havia marcado o horário porque seu médico, para quem havia levado a queixa de persistentes dores de ouvido, a havia encaminhado para psicoterapia. A paciente contou ainda que um irmão seu havia se suicidado e que ela própria queria se suicidar, mas não tinha coragem.

Após oito meses de psicoterapia, numa sessão em que Marcy a havia colocado no rolo da bioenergética, ela desatou a chorar e a berrar desesperadamente reclamando de imensa dor no ouvido direito, algo como uma implosão no cérebro, segundo descreveu.

Enquanto oferecia-lhe continência, Marcy recebeu o insight de que ela estava se conscientizando de um suicídio em vida anterior. Marcy ficou quieta, calada, e claro, nada comentou a esse respeito com a paciente pois aprendeu que não poderia se adiantar ao que o paciente traz, senão o estaria violentando. A paciente, ainda naquela sessão, chorou muito, gritou muito, disse ter se sentido num lugar insuportável. Marcy sustentou um pouco mais o processo e a seguir retirou-a por trás do rolo, como num renascimento, e a tomou no colo, amorosamente, procurando demonstrar todo o seu acolhimento, em total silêncio. Quando a paciente se sentiu melhor e disposta a verbalizar, relatou-lhe que vivenciou cena, possivelmente do século anterior, em que havia se matado com um tiro no ouvido, justamente aquele que doía demais nesta vida.

Aliviada com a “limpeza” energética processada, ela saiu do consultório de Marcy naquele dia com vívida expressão no rosto. Na semana seguinte disse ter sonhado com várias imagens que a remetiam à frança e ao fazer o relato em sessão recordou-se do nome francês que sua mãe na vida atual queria ter lhe dado, mas o pai não permitiu. Nome que lhe soou forte como tendo sido real na vida em que havia se suicidado. Emocionou-se e entrou num momento de profunda compreensão e de perdão.

Nas semanas subsequentes, fez relatos para Marcy de inúmeros insights que surgiram a partir daquela intensa vivência, e contou-lhe ter se percebido refazendo as pazes com a vida e rompendo os “pactos” inconscientes com a morte. O primeiro passo foi ter vendido sua moto, sobre a qual disse que vivia arriscando a vida. Alterou também outras  atitudes de risco e, aos poucos, foi modificando inclusive sua atuação profissional pois, como médica, lidava preferencialmente com pacientes terminais, em U.T.I., área da qual foi se desconectando para montar consultório, onde passou a ter uma relação direta, de troca, de vínculo, com pacientes vivos e ávidos por saúde e vida, tal qual ela passou a se sentir.

Na mesma ocasião, Marcy havia recebido no consultório, para uma primeira entrevista, um executivo que teve dificuldade em aceitar ao convite para que fizesse movimentos corporais, o que aliás Marcy não fazia num primeiro encontro, mas a ordem de seu eu interno foi tão explícita e clara que ela só pôde obedecer. Tanto Marcy quanto o executivo parecem ter sido pegos de surpresa mas talvez por esse fator ele acabou acatando a sugestão e, sem paletó, fez vários movimentos. Achando ridículo tudo o que fazia, ele desatou a rir nervosamente, o que ajudou pois o fez movimentar também, e bem, o diafragma. Do riso desbragado passou ao choro copioso e, já suado e “amarrotado” no canto da sala, completamente descaracterizado do “lay out” com que havia chegado ao consultório, com o olhar de uma criança tristonha, relatou à marcy que havia se sentido reportado à infância, num galpão, onde havia brincado e se sujado, e posteriormente fora surpreendido pela mãe, tendo recebido imensa bronca, uma surra e posteriormente castigo. Nunca mais ele havia se permitido nenhum deslize nesse aspecto. Estava sempre impecavelmente vestido e asseado, porém ao custo de evitar muitas brincadeiras e toda e qualquer descontração. Cedo na vida havia se tornado muito sério, havia se tornado um pequeno adulto. E continuou a chorar a dor de sua criança interna até o ponto de constatar, de se conscientizar, que estava fazendo o mesmo tipo de exigência, e mais precocemente ainda, para com seu pequeno filho de apenas quatro anos. Chorou muito o arrependimento… Marcy conversou bastante com ele naquele dia buscando a elaboração de tais conteúdos e ele foi se recompondo. Quando ele deixou a “entrevista/sessão” havia um sorriso em seu, anteriormente sisudo, rosto e, mais relaxado sem dúvida, ele saiu caminhando com maior naturalidade. Chegou inclusive a verbalizar agradecimento pela agradável sensação de bem estar que estava sentindo. O executivo saiu, é claro, completamente diferente de como havia chegado, pois se antes estava todo alinhado saia amarrotado mas, tendo soltado as amarras, mostrava-se elegantemente descontraído na fisionomia….

Na semana seguinte ele relatou, em estado de contentamento, que havia ido ao sítio com seu filho no final de semana e que tinha brincado com ele na lama, sendo que ambos haviam voltado sujos, imundos, e muito felizes, num clima de proximidade, companheirismo, cumplicidade. Ao se referir ao bem estar e liberdade que sentiu quando imerso na lama Marcy sentiu-se acionada mais uma vez por seu eu interno, por sua intuição, que sugeria “imergi-lo” no som dos lamas tibetanos, um som grave, de terra, e de cura para as células, o que Marcy imediatamente cumpriu, indicando uma técnica de respiração e pedindo apenas que ele permanecesse deitado e em silêncio a fim de “absorver” aquelas vibrações.

Para Marcy foi engraçado o quanto ele se surpreendeu pois pareceu que “queria”, ou achou que teria, uma sessão tão ou mais movimentada do que a primeira, mas acatou prontamente a sugestão e certamente se beneficiou pois, sessão após sessão, foi se libertando de entraves, foi se descontraindo, e, sem deixar de ser executivo, no sentido do “alto funcionário que atua na área comercial”, pôde deixar de ser executor, no sentido de “carrasco, verdugo, algoz” , de si mesmo.

Sim, muitas vezes Marcy exigia demais de si e dos demais, como os dois casos citados acima exemplificaram… Mas não em nome da exigência e sim de uma existência mais plena… Sim, Marcy tinha mesmo padrões elevadíssimos de expectativa, pois sua esperança sempre foi de que seu eu superior se comunicasse com ela, ou de que a essência, ou o essencial, se manifestasse com a ajuda de seu ego. Mas isto, ao invés de ser um erro, como a mãe biológica dos meninos deixou subentendido, pode se constituir, se lapidarmos o aspecto do perfeccionismo e do orgulho de nossos egos, num acerto, num grandioso e iluminado acerto. Por que não ?

Não foi a Marcy quem a retirou do posto, foi ela quem abdicou dele. Alguém precisava ocupá-lo efetivamente, integralmente, totalmente. O que Marcy pensou tratar-se de uma substituição temporária, de alguns meses, ou no máximo um ano, não se configurou assim. Foi posto permanente. Ou seja, Marcy ao entrar no time passou de reserva a titular sem período de experiência no banco e começou a jogar sem treino, sem aquecimento… Talvez por isso sua busca contínua por aquecer sua maternagem e melhorar seu desempenho materno…

Marcy percebeu-se fazendo esses registros durante o feriado da proclamação da república no Brasil, e decidiu então proclamar a república familiar em sua casa. Afinal, experiência em república estudantil ela teve nos tempos de faculdade. Por que não tentar uma república familiar ?

Seria inclusive uma mudança, não de reinado, pautado na sucessão familiar, mas de regime. Algo muito mais revolucionário ! Saiu a mãe biológica, o “Dom Pedro” desta estória, que abdicou e quis voltar para a Europa, e com isso retirou-se do Brasil parte da família real dos enteados de Marcy, ou melhor, a mãe real e verdadeira deles, porque inclusive a Marcy, segundo definição da mãe biológica, era uma pessoa “falsa, cínica, hipócrita”, com o que Marcy, após a indignação inicial, passou a concordar pelo menos em parte, pois achava que tendia a ser mais cênica, pró “seneca”, ou mesmo “senecta” do que cínica, e com um aparte, pois todos sabemos que “quando Pedro fala de Paulo fala mais de Pedro do que de Paulo”, e assim sendo foi ótimo Marcy ter tido conhecimento dessa auto-definição projetiva dela.  Talvez Marcy inclusive devesse ter perguntado a ela : - “que bem eu lhe fiz para você me querer assim tão mal ?”

Para Marcy, a mãe biológica, real e verdadeira, já falou e fal(h)ou muito, sendo que Marcy preferiria que ela tivesse feito mais e falado menos… Mas Marcy aceitava todas as críticas que ela, ou seus filhos, pudessem lhe fazer pois só quem “coloca, ou colocou, a mão na massa” merece o privilégio das críticas e dos questionamentos. Quem não faz  ou não fez não se torna alvo de nada e se isenta inclusive dos erros, ou talvez até se contente frugalmente com um único erro : o de não ter feito.       

Marcy, feliz ou infelizmente, foi mais uma vez gulosa na vida pois não só fez o que não deveria ter feito desde o início, ou seja, tentar ajudar o marido com seu karma, ou mesmo tentar assumir o karma de outrem, no caso, da mãe biológica, um equívoco evolucionário, uma pretensão, pois isso só os avatares conseguem, como também abusou dos erros por total despreparo, e assim sendo, a única coisa certa desse trecho de sua história é o fato dela não ter dado conta sequer de seu próprio karma…

Um ser humano exemplar na sua luta pelos direitos humanos - Nelson Mandela - disse : “é melhor tentar e errar do que ficar parado esperando a vida passar”. Outro ser humano exemplar, Martin Luther King, disse que “tentar não é pouco” e Marcy tentou !

Marcy se recusou a ficar em estado contemplativo frente à premência de proporcionar para os três filhos condições de sobrevivência. Marcy não foi à Índia passar meses meditando ou fazendo yoga ( como talvez gostaria de ter ido pois aprecia sobremaneira  essas técnicas ), até porque é sabido nos meios esotéricos que, na era atual, a yoga mais poderosa não acontece no isolamento ou num “ashram”, como já ocorreu no passado, mas sim no trabalho cotidiano para sustentar a família, ou seja, na paternidade e maternidade assumidas.

Mas realmente parece que a falsidade dessa estória coube à Marcy… Sim, sem dúvida, Marcy era a mãe falsa, a biológica era a verdadeira, Marcy apenas “fingiu” ser a verdadeira porque não lhe restou, ou a mãe biológica não permitiu, mediante sua abdicação, outra alternativa. Nesses termos, podemos afirmar que a mãe biológica dos enteados da Marcy é também verdadeiramente perspicaz pois Marcy fica se perguntando até hoje como pôde ela ter sido tão precisa e ter acertado tanto ao “diagnosticá-la” se a viu tão poucas vezes, se conversou minimamente com ela… Trata-se de uma capacidade invejável pois Marcy que estudava psicologia há décadas não sabia, não fazia a menor idéia de quem a mãe biológica era como ser humano, sabia apenas que para ela própria tratava-se de uma pessoa enigmática, um enigma, uma esfinge, que como tal obrigava a Marcy a ir para a sua interioridade descobrir quem verdadeiramente era… Sem dúvida desvendá-la, decifrá-la significaria para Marcy desvendar-se, decifrar-se também…

Quanto à queda da monarquia, que curiosamente transmite o posto e os bens por via biológica, trouxe para Marcy entre múltiplos desafios , justamente o que ela queria aprender a superar : o seu apego ao biológico.

Como a ciência diz que somos 90% nós mesmos, 5% o ambiente e 5% a herança genética, Marcy percebeu que seus enteados também terão que superar algo do gênero pois, mesmo Marcy não sendo a mãe biológica deles, vários “bens” ela lhes transmitiu apenas pelo convívio. Assim sendo, Marcy não lhes deixava herança genética, é claro, mas algumas heranças anímicas sim e ambientais também, por ter escolhido o ambiente de sua formação. A menina inclusive, que se crê muito parecida com a mãe biológica, e pode mesmo ser, na personalidade, no ego, não imagina quantas similaridades e quantas afinidades tem, como alma, com Marcy, em seu percurso de vida. Até o anjo da guarda há o informe, segundo a data de nascimento, de que é o mesmo. Já disseram também para Marcy que sua alma vem ajudando a dela há várias vidas e que foi ela quem sentiu imensa repulsa pela mãe biológica já na barriga, desejando afastamento, separação, pois são inimigas de longa data, não se suportam há muitas vidas. Daí talvez a mãe biológica não ter lhe dado suporte no início da vida. Aliás, a função de Marcy nesse contexto parece ter sido não apenas ajudá-la no início da vida, no inicio da encarnação, como também deixar as coisas de tal forma que ela pudesse aprender a reconhecer a mãe biológica como uma amiga, uma aliada, e não mais como inimiga, o que, sendo destino, certamente tende a acontecer (ainda que surja a necessidade de alguns pequenos ajustes), pois a mãe biológica foi poupada dos desgastes cotidianos de uma relação mãe/filha, especialmente dos desgostos que teriam ocorrido entre elas por se tratarem de inimigas, ou seja, porque teria se tratado de uma relação mãe/filha com inimizade embutida. Nesse sentido Marcy serviu de anteparo e protegeu sua enteada, tendo absorvido, ao longo da jornada, parte da inimizade das duas, pois Marcy se tornou  inevitavelmente, ao contrário do que inicialmente desejou e acreditou que fosse possível, inimiga de sua mãe biológica – a verdadeira mãe desta história. Mas inimigo é mestre, e Marcy no fundo gosta de ser uma eterna estudante…

Conforme Marcy aprendeu posteriormente, “ninguém nasce em barriga errada”, tampouco cresce em moradia errada, de forma que o contexto escolhido por sua enteada, antes de nascer, tende a ser sem dúvida favorável para o resgate que ela necessita processar frente ao ser que nesta vida é sua mãe biológica. E Marcy, que sente enorme admiração e orgulho por sua enteada ser quem é, sente-se também muito satisfeita por ter podido ajudá-la nesse seu projeto de alma. Aliás, o ego de Marcy com suas avaliações e julgamentos pode ter se sentido massacrado, conforme extrai-se do que vem sendo descrito aqui, com a “pobre” tarefa porém, sua alma sente-se cada dia mais leve e feliz com a “nobre” ( ou seria republicana? ) missão…

Mas, retomando os fatos estóicos e estóricos, ou históricos e histéricos, no período da nova república da casa de Marcy quem passou a assumir a governança foi ela mesma como marechal , pois precisou ter pulso para conferir estrutura e organização à família num período de transição muito crítico em que ocorreu tanto ausência concreta da mãe  biológica de seus enteados quanto “ausência” figurada do pai biológico daquelas três crianças. Porém, tendo percebido, com ajuda da T.P.M., os excessos de seu autoritarismo, surgiu o desejo de deixar cair também a alta patente para que o sistema em família não continuasse a ser autoritário com capa de democrático, como vinha sendo, e como já foi em alguns países, quando governado pelos militares.

Marcy concorda que apesar de várias ditaduras mundiais terem caído ainda nos cabe debelar as ditaduras fragmentadas, invisíveis e introjetadas, seja “da felicidade obrigatória”, do “sucesso obrigatório”, do “corpo esculpido obrigatório”, do “acerto obrigatório”, enfim, a ditadura das várias idéias e parâmetros que passaram a governar-nos na vida moderna e que nos subtraem, tirânica e invisivelmente, a liberdade, perante as quais precisaremos ter cuidado redobrado para não cairmos nós num patamar abaixo do humano.

Marcy gostaria muito de vir a conseguir vivenciar algum dia em família uma saudável e autônoma democracia onde cada membro pudesse perceber que não cabe ficar fazendo exigências ao “governante”. Cada qual poderia assumir conscientemente o posto em sua micro esfera de influência de forma que, como “governante” de sua casa, de seu corpo, se perguntasse : — como posso sustentar em mim o poder de melhorar meu cuidado, minha atenção com a saúde, minha e de meu lar, com a educação, minha e de meu lar, com o lazer, meu e em meu lar, com a higiene, minha e de meu lar, enfim, que cada qual assumisse realmente o poder pessoal, como individuo, não para mostrar competitividade mas competência, a fim de que pudéssemos inclusive, melhorando a “governabilidade” em nós mesmos, melhorando a nossa “governabilidade” interna, e a “ governabilidade” no interior de nossos lares, chegar quem sabe um dia à melhorar a externa, ou seja, o “governo” de nosso país.

Parece que Marcy, em sua casa, deseja utopicamente chegar à verdadeira anarquia, que prescinde de autoridades externas pelo fato do princípio da autoridade estar bem internalizado e ser saudavelmente externalizado, com cada qual assumindo suas responsabilidades a partir de comandos internos e não de mandos externos de forma que o poder necessário às decisões conjuntas tivesse livre circulação para aportar em quem ele — poder — julgasse digno de expressá-lo no momento, o que no minuto seguinte já poderia mudar… Claro que Marcy sente-se longe disso pois tem muito ainda que trabalhar sua relação com o poder e com o amor a fim de que o amor ao poder que seu ego tende a manifestar possa se transformar , algum dia, em poder do amor, na expressão legitima da alma.

Como Marcy e as pessoas de sua geração costumam brincar,a educação em suas casas vai de Piaget a Pinochet, tem todos os matizes num só dia dependendo da dose de humor e de amor, mas Marcy certamente quer ver reduzir o estilo Pinochetiano, consequentemente o Pinocchiano também…

Marcy acredita que o poder em família, assim como a energia doméstica, precisaria circular entre os diversos membros ao invés de ficar centralizado, senão ocorre inevitavelmente estagnação, apodrecimento, o que está longe de uma qualidade vital. Aliás, Marcy pensa em aprender urgentemente a aplicar um Feng Shui nele, poder, e não apenas na casa ou em seu consultório…

Marcy, em outra de suas confusões delirantes concluiu que o prazo de validade do poder,  em qualquer esfera, é curto, curtíssimo. Ela acredita que ele precisa circular pois, do contrário, fixo nas mãos de alguém, torna-se altamente perecível. Para Marcy ele é volátil, fugaz, e qualquer tentativa de aprisioná-lo numa única pessoa confere-lhe um caráter mortal, a curto prazo, seja para a integridade e saúde moral de quem o detém seja para a saúde geral do grupo, familiar, profissional, ou social. Ele precisa circular com amplitude, pelo grupo como um todo, de um para outro membro, aportando com liberdade pois, sem essa possibilidade, percorre o circuito curto, auto-referenciado, por dentro de uma só pessoa, o que tende a torná-la, uma pobre referência egóica escravizada. É o curto-circuito que potencialmente destrói todo o sistema, seja ele familiar, profissional ou social… Já o poder referenciado na alma manifesta-se no fluxo  do amor…

A energia no corpo físico também precisa se movimentar igual-mente pelo corpo todo, precisa circular amplamente, senão adoecemos. Se ela fica estagnada em algum órgão, surge o curto circuito que estraga aquele órgão comprometendo todo o organismo.

Marcy reconhece que tem acionado curtos-circuitos em sua vida, por exemplo, ao privilegiar o ego em detrimento da alma, ao privilegiar a cabeça, o racional, em detrimento do afeto, do amor. Na cabeça, no racional a tendência é imperar o pobre poder do autoritarismo.

Viva a queda da bastilha, viva a queda do velho regime monárquico ! Aliás, talvez não seja por acaso que a mãe biológica dos enteados de Marcy pediu para que ela ficasse com seus filhos, no intervalo entre sua primeira temporada no exterior e a subsequente, definitiva e atual, num dia 14 de julho…

Data essa em que Marcy, ingenuamente, a recebeu em sua casa “de peito aberto” nos dois sentidos , concretamente porque Marcy estava amamentando seu filho e figurativamente porque Marcy aceitou recebê-la amigavelmente após ela ter invadido agressiva e escandalosamente o quarto da maternidade no dia seguinte ao do nascimento de seu filho, tendo lhe causado pânico pois Marcy estava incapacitada de se defender devido aos cortes da cesariana. Marcy ficou apavorada, achando que ela poderia invadir também o berçário para agredir seu filho recém-nascido e não conseguiu dormir enquanto ambos não obtiveram alta hospitalar. Tamanho susto e preocupação acarretou um enorme transtorno que pode ter comprometido inicialmente a amamentação pois, dois dias após a alta, fragilizado e enfraquecido, o recém-nascido teve que ser internado novamente, em caráter emergencial, na U.T.I. de outro hospital, pois estava com icterícia, desidratação e infecção generalizada…

Marcy reporta-se insana por ter concordado em recebê-la em sua casa após ter vivido aquela situação tão traumática, ou seja, após ela já ter demonstrado claramente não ser uma pessoa totalmente confiável. Certamente ela iria omitir que o encargo, ou a incumbência, não seria transitória.

E Marcy acabou percebendo posteriormente, muito posteriormente, que havia se precipitado em recebê-la e em perdoá-la. O perdão foi prematuro e funcionou não apenas como atitude de desculpar mas como uma grande perda, o “perdão” de uma oportunidade de enxergar e colocar com clareza seus limites, ou de perceber o quão limitadamente agiu por pautar-se ilimitadamente no ego. Marcy talvez devesse ter pedido um contrato por escrito fazendo constar a data da volta, do retorno, da mãe biológica mas não atinou, não percebeu, não registrou como “golpe” a fala : - “fica um período com os meus filhos”…

Posteriormente, em função de vários outros descompassos, Marcy deixou efetivamente de acreditar não apenas na possibilidade de uma relação amigável com ela mas sobretudo de acreditar na pessoa dela de vez. Mas ainda continuou tendo motivos para comemorar todos os 14 de julho, juntamente com os franceses, os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade. Apesar de nunca ter estado na frança nesta data festiva, Marcy sempre gostou de fazer, na maior simplicidade, um prato da culinária francesa e chamava os amigos ou familiares para compartilhá-lo, ou então discreta e solitariamente comemorava a data numa bagueterie ou num bistrô.

E continuava, é claro, na expectativa de que caíssem as cabeças, mais cabeças, não literalmente, é claro, tampouco para dar lugar à irracionalidade, mas sim o reinado das cabeças frente ao corpo, esse sim sábio e referenciado no coração.

Marcy, em outro de seus delírios, chegou a achar que o centro da cabeça deveria estar sendo o umbigo, tão narcisistas e ególatras se comportam os seres humanos, os seres racionais, quando privilegiam o intelecto.

Marcy queria a si própria, e à humanidade, enquanto seres amorosos que potencialmente são, e gostaria que ficasse no passado qualquer definição do ser humano como ser exclusivamente racional pois ela acha que deveriamos nos definir como seres amorosos que somos…   Deveriamos ampliar nossa disponibilidade em aquietar a mente e perscrutar os segredos de nosso coração…  Deveriamos experimentar a mudança de referencial da cabeça para o coração pelo menos uma vez ao dia e depois ir aos poucos ampliando…

Marcy aposta nas redefinições do humano não em termos mas também nos termos, para melhor nos termos…   Sim, porque uma vez que somos também seres amorosos, por que não nos definirmos enquanto tal, aliás, por que não nos definirmos por esse caminho ?

Marcy é uma mulher que quer muito vir a ser amorosa, quer vir a ser, no ego, ou seja, enquanto indivíduo, enquanto pessoa, o ser amoroso que sabe já ser a partir da alma, do self, da essência.

Marcy acredita que se cada um de nós fizer essa trajetória de deixar a hegemonia da cabeça buscando abrir-se para outras instâncias internas mais sábias ; se a família fizer essa trajetória de romper com o autoritarismo paterno ou materno procurando incluir e ouvir todos os membros, especialmente no mundo ocidental nossos esquecidos ou descartados idosos, sabendo também evitar, é claro, que em nome de uma pretensa modernidade, os pais apenas obedeçam a filhos autoritários, como vem ocorrendo ; se a  sociedade fizer essa trajetória dando voz também ao corpo social e não apenas às pretensiosas elites, haverá certamente mais saúde, individual, familiar, social, e possivelmente também mais equilíbrio, mais harmonia, mais paz.

A partir dessa alteração energética que cada um de nós se ofereça, se propicie, o próprio sistema capitalista poderá dar lugar a outro sistema econômico/financeiro uma vez que exprime no mundo externo a forma como atuamos nossas energias internamente.

Enquanto nós continuarmos nos concentrando, como indivíduos, no mental, na cabeça, haverá concentração de capital, de dinheiro, de renda e também concentração na capital pois continuará havendo concentração de pessoas, ou seja, alta densidade demográfica nas capitais em busca certamente não da capital mas sobretudo do capital.

A Marcy fez esse percurso pois saiu do interior do estado para a capital (feminino, singular), ou para “a cidade que aloja a administração do estado”, buscando o capital (masculino, singular), o dinheiro, a riqueza, que acabou não encontrando, mas encontrou respostas capitais, respostas plurais, fundamentais, essenciais, para suas indagações existenciais, algumas delas expostas neste site, o qual poderia ter sido feito em letras capitais , maiúsculas, perante as quais, Marcy não gostaria de ter capitulado, cedido, mas conseguiu de outra forma capitular, ou seja, descrever, episódios de sua vida, expressando-os em capítulos.

Capital vem de capitus, de caputi, que significa, não por acaso, cabeça.

Marcy acredita que nós distribuímos, como indivíduos, muito mal a nossa energia, pouco vai para o corpo e para o coração. A sociedade idem. O capitalismo idem, distribui mal a renda, concentra-se nos cabeças do sistema, pouco vai para o corpo da sociedade, para o coração proletário que trabalha e impulsiona a sociedade. Dinheiro é energia. O que acontece no nosso micro-cosmo acontece no macro-cosmo, e vice versa. Mudaremos o mundo se mudarmos essa regência interna em cada um de nós, em cada célula do corpo social, numa revolução silenciosa, pacifica, sem violência, sem agressão, que aliás abrirá espaço em nosso ser interno para muitas revelações.

Pode parecer difícil e demorada mas não é impossível. Além do que, poderá valer a lei dos campos morfogenéticos que diz que pode ocorrer uma grande transformação na população como um todo se um numero “x” de pessoas – significativo, porém percentualmente bem inferior à totalidade – efetivar tal transformação.

Inicialmente alguns podem entender o processo de voltar-se para o corpo, de atentar para o nosso corpo de uma forma superficial e ditatorial também e assim se perpetrarem verdadeiros atentados contra ele.

A ditadura da estética determina que se esculpa freneticamente os corpos, ou os músculos desses corpos, o que é superficial, não necessariamente no sentido de fútil, pelo contrário, pois é muito útil também já que é ótima a iniciativa de cuidarmos de nossos corpos, de procurarmos mantê-lo saudável, mas no sentido de pouco profundo porque não atinge necessariamente o músculo que está mais em nosso interior, protegido pela caixa torácica, o nosso músculo cardíaco… Esse sim precisa ser fortalecido no exercício cotidiano do amor pois somente através dele é que somos capazes de mobilizar e acionar o que é sutil. Ou seja, o que Marcy propõe é que não cuidemos tão somente da forma física, mas também e principalmente da forma como o físico se expressa, se manifesta, se com o coração ou sem…

Marcy acredita que poderia ganhar corpo em nossa sociedade uma campanha que estimulasse a posse do corpo ao invés das poses. Ela acha que talvez pudéssemos até mesmo trocar, no corpo social, a frenética posse da matéria, e os (in)consequentes desrespeitos à natureza, pela posse do corpo material que justamente adentre a superfície de forma que a consciência passe a habitar todas as células, e nenhuma expressão, verbal ou física, se faça na inconsequência, ou na inconsciência. Assim a corporalidade se traduziria em gestos mais harmoniosos e honestos, menos gananciosos e indigestos, a natureza tanto interna quanto externa agradeceria certamente. Pena tratar-se de utopia.

Mas a posse, a apropriação, de nosso corpo material está mais próxima, se não no tempo pelo menos no espaço, por motivos óbvios. Quando Marcy se refere a essa apropriação fala da riqueza e sabedoria interiores, de um preenchimento interno de nosso corpo físico com nossos sentimentos, e através destes com a nossa própria alma, com nosso eu superior , para que não fiquemos como robôs, automatos, adormecidos, dopados.

Aliás, quantos de nós, tal qual bebês do universo, não passamos a vida toda, ou um longo período dela, alternando apenas entre comer e dormir, e dormir aqui no sentido de “ficar sem ação ou sem eficácia”, no sentido de “não agir com a atenção ou a presteza devida”, no sentido de “descuidar-se”, de “distrair-se”, no sentido de “estar entorpecido”.

Precisamos acordar - para a alma e com a alma - tanto no sentido de despertar para essa realidade sutil quanto no sentido de concordar, de estar de acordo, de ajustarmo-nos, de harmonizarmo-nos com ela, a fim de ficarmos despertos para uma vida mais integrada e portanto mais plena.

A expectativa da Marcy é alta ? Pode até ser , mas o potencial da humanidade e de cada ser humano também é…

Usamos comprovadamente menos de 10% de nossa potencialidade como espécie humana. Aliás, Marcy acredita até que usamos menos de 10% de tudo o que dispomos, seja inteligência, amorosidade, recursos, e tudo mais. Nossos pulmões, por exemplo, têm muito maior capacidade do que efetivamente aproveitamos com nossas respirações curtas e amedrontadas sendo que respirar profundamente, entre outros benefícios, traz saúde e auto-confiança, além de ampliar a aura.

Talvez nós, seres humanos, se continuarmos com essa mesquinharia de oferecer menos que o dízimo de nossas capacidades todas, venhamos a ser dizimados, como espécie. Aliás, os impostos, que deveriam, estes sim, respeitar a dízima, estão significativamente ampliados, e não bastasse, são periódica e sistematicamente aumentados, destruindo assim não apenas nossas espécies mas sobretudo nossos salários, o que causa espécie a muitos .

Marcy não é especialista da área, mas ousa comentar que talvez até a pequena parcela da população mundial, financeiramente privilegiada (10% ?), consiga usufruir de fato apenas 10% do que possui, deixando como acúmulo ou configurando em desperdício, e portanto supérfluo, os restantes 90%, enquanto que a maioria da população (90% ?), em sua carência, sobreviva com somente 10% das condições do viver, insistindo em sub-existir mesmo mediante uma carência de 90% do que seria necessário em termos do básico para uma vida na simplicidade, porém com dignidade. Certamente trata-se aqui de exageros e equívocos de Marcy, mas talvez os que têm além da conta não tenham a quem confiar e os que têm aquém confiem apenas no além.

Como definiu Chamfort, “o mundo é composto por duas grandes classes, aqueles que possuem mais comida que apetite e os que têm mais apetite que comida”.

De qualquer forma, Marcy acredita que o uso de menos de 10% seja real, pelo menos para uma significativa parcela da população, com relação ao aproveitamento daquilo que nos cerca, ou seja, daquilo que o universo, a natureza, ou o trabalho humano nos disponibilizou. Por exemplo, apreciamos, ou observamos parcialmente uma paisagem, mesmo em nosso bairro, pois se nos perguntarem quantas arvores, postes ou mesmo casas, há no quarteirão em que moramos poucos saberiam responder corretamente.

Referindo-se à classe média, enquanto representante que é, Marcy afirma que o mesmo tende a acontecer com os objetos adquiridos pois a tendência é haver aproveitamento de apenas 10% deles, o que inclui por exemplo as roupas ( e no caso das mulheres também os calçados, os cremes, os perfumes ), pois em geral são escolhidos 10 % para uso de fato no dia a dia, o restante tende a ficar sem uso no armário ou no closet por vários meses, como coleção, ou num outro exemplo, as receitas culinárias pois em geral tem-se muito mais do que efetivamente é preparado no dia a dia, ou com os recursos dos computadores, dos celulares, dos palm tops, dos i-pods, e de muitas outras máquinas… Quantos usam e aproveitam realmente todos os recursos dos aparelhos modernos ? Em meio à abundancia parece também surgir o frugal…

Marcy acredita que o aproveitamento de menos de 10% permeie inclusive a relação com o tempo, ainda que este seja abstrato, pois a tendência é não utilizarmos integralmente o tempo de nossa existência, tampouco, as horas diárias. Marcy sabe que esse comentário poderá gerar muitas contestações pois muitas pessoas acham que fazem coisas demais no dia a dia mas sugere que façamos um exame :

Percentualmente como podemos situar o período do dia em que estamos de fato conscientes de quem somos, atuando a partir de nosso eu superior, de nossa alma, de nossa verdade interna com desvelo, cuidado, dedicação e imersos no momento presente, no aqui/agora, em pleno exercício de amorosidade ?

Estamos é vivendo a morosidade, a lentidão, a procrastinação com relação aos nossos potenciais, com relação aos 90% que correspondem ao nosso vir a ser, ou melhor, ao que de fato somos e negamos, ou nos recusamos a aceitar.

Estamos, principalmente os moradores de grandes cidades, acelerados por fora, no corre-corre cotidiano, agitados em busca de desenvolvimento. Mas precisamos ter calma pois essa procura pode se traduzir por não envolvimentos, já que a partícula des pode assumir conotação de negação, de privação, de ação contrária, ou seja, um des-envolvimento. E esse tipo de aceleração nem sempre significa, ou não necessariamente significa, que estejamos acelerando nossas partículas internas, nosso DNA, em prol de saltos quânticos, em prol de significativa revolução e consequente evolução, no que seria a devida apropriação de nossos 90% restantes.

A aceleração necessária não é para nos deixar, como seres humanos, agitados, apressados, estressados, estafados, doentes. É tão somente para que possamos ganhar um ritmo menos lento, menos letárgico, como seres cósmicos, em nossa busca por aprimoramento, por evolução, do ego. Além disso, vitalidade não deve ser confundida com excitabilidade, equívoco comum de ocorrer na vida moderna. A aceleração é para acontecer em nossa frequência vibratória, é aceleração em nosso campo sutil, é aceleração interna, dentro, modificação de frequência vibra-tória, com respostas mais atentas ao sutil, com prontidão maior para a alma, não é aceleração para deixarmos nossa frequência cardíaca acelerada, não é aceleração em nosso cotidiano para desempenharmos as tarefas atabalhoadamente, não é aceleração externa para nos impor correria .

Marcy acredita que a terra, nossa nau, esteja atravessando um cinturão de fótons, o que, entre outras transformações, levala-á a alinhar seu eixo, atualmente inclinado com relação à eclíptica. Marcy acredita inclusive que é por estarmos em plena travessia que sentimos o dia como tendo menor duração, os meses passando mais rápido, porque de fato possivelmente assim estejam em função de alteração na frequência vibratória a fim de que possamos acessar, desde dentro, o poder da intemporalidade, o qual nos remete à nossa eternidade.

Precisamos nos sintonizar com o momento cósmico, com o ritmo cósmico, com o tempo cósmico, precisamos aprender a incluir em nosso dia a dia o aspecto espiritual ou energético do tempo.

Conforme alerta o “calendário da paz”, “o tempo mecanicista escraviza-nos ao estigma de que tempo é dinheiro”, o qual, por sua vez, se atrela a “desarmonias, desentendimentos, desavenças, guerras, consumismo, desperdício criminoso de recursos naturais”. “tempo não é dinheiro… O tempo é divino. O tempo pressupõe unidade, ordem, beleza, harmonia, igualdade, autonomia. Tempo é arte ! É a arte de criar a vida. O tempo recicla a vida e a vida recicla o tempo. Vivendo no tempo correto, vamos  reconstruir o nosso paraíso, nosso lindo planeta azul, multicolorido por natureza, a nossa casa ! O local é aqui e o tempo é agora !”

A permacultura, criada por Bill Mollison, parece concordar com esses termos, pois estimula estilos de vida mais simples, mais próximos ao natural, com menos consumo e mais auto-suficiência do ser humano, busca a cultura que dura, que tem vinculo ético e harmonia com a terra, que não é descartável, não é efêmera, não polui, adota princípios de respeito que valem para todas as relações humanas, seja perante outros seres humanos ou perante o meio ambiente, de modo que o que permeia nossas vidas possa deixar de ser o medo ambiente.

Realinhemos portanto nosso eixo egóico com a alma, nosso eixo temporal com o intemporal, nosso eixo tridimensional com o multidimensional, nosso eixo humano com o divino… E permitamos assim “que a nossa energia possa enlaçar mundos”…

Marcy confia muito na humanidade, confia muito em nossa humanidade. E tem plena convicção de que chegaremos lá, aqui mesmo, algum dia.

Marcy sentiu-se finalmente autorizada a ocupar um espaço vazio, o espaço de mãe, e quis fazê-lo a partir do coração. Afinal, a mãe biológica de seus enteados não precisaria morrer concretamente para ela se permitir assumir esse lugar, seja para com seus filhos ou filhos de outrem. Pode, como quis, morrer simbolicamente. Aliás, assim acontece com as mulheres pois não é preciso morrer a mãe que as gerou para que se tornem mães. Basta elas se autorizarem a ocupar esse lugar, basta elas assumirem a maternagem para si próprias - a fim de se cuidarem, de se respeitarem, de amarem a si próprias - e também para com aqueles que delas necessitem, filhos naturais ou não. Morre assim apenas simbolicamente a mãe lá fora porque o posto foi assumido. Não é preciso excluir, anular, rechaçar a maternagem que vem de fora, que é oferecida por outrem, tampouco tripudiar a respeito dela, é preciso apenas reconhecer que o ser humano tem uma maternagem que vem de dentro , e que justamente por isso pode ser mais presente, mais compreensiva, mais satisfatória, mais preenchedora, mais amorosa,  incondicionalmente amorosa perante as agruras de nosso ser .

Marcy percebeu que naquela T.P.M. escolhia mais uma vez o lugar e o papel de mãe, mais uma entre inúmeras vezes… Ela deve inclusive ter escolhido esse papel antes de nascer… E já deveria ter feito a opção, mais conscientemente, antes mesmo nesta vida. Mas talvez tenha sido o momento certo pois curiosamente seus enteados, que estudavam teatro, estiveram naquele mesmo mês de agosto escolhendo seus papéis na peça que representariam no final do ano. Aliás, a garota viria a participar de uma peça cujo tema discutia justamente o novo versus a tradição, ou seja, o questionamento proposto pela peça Marcy vivenciou interna, intensa e profundamente no mesmo período. A garota teve um belíssimo desempenho em sua apresentação - concreta, externa, visível – nos palcos e deu um grande passo em termos de amadurecimento, enquanto Marcy fazia mais uma vez um “beliquíssimo” trabalho psicológico, portanto abstrato, interno, invisível, entre duas vertentes de seu guerreiro ser, aparentemente antagônicas : o ego e alma.

Marcy esperava poder vir a apresentar-se melhor, como um ser humano melhor, por adotar o novo e se desapegar da tradição, nos palcos da vida. Esperava conseguir amadurecer também. Aliás, quanta sincronicidade no período… A enteada de Marcy era muito talentosa e se ela já não soubesse, via astrologia, que ela iria adotar no futuro outra profissão, poderia dizer, em função do brilhantismo de sua apresentação, que continuaria nos palcos pois a merda concreta na qual ela escorregava e caia sentada quando criança, ou na qual pisava e emporcalhava todo o carro, poderia acompanhá-la de forma figurada no grito que antecede as apresentações.

Mas para ocupar o lugar e o papel de mãe Marcy precisava aprender a relativizar seus conceitos de honestidade, de verdade, de integridade e de respeito, ou melhor , não deveria mais aplicá-los em relação a um “fantasma”, como a mãe biológica de seus enteados se quis, mas sim em relação aos meninos. Estes sim mereciam seu mais honesto carinho, sua mais verdadeira atenção, sua mais íntegra conduta, seu mais respeitoso afeto…

Marcy buscava assim abrir mão das distorções que seu ego defensivamente construiu, como se abre mão de uma roupa que não se precisa mais. Exatamente o que eles, meninos, fizeram naquele agosto deixando-na perturbada com o que ela considerou ser um consumismo exagerado e um desperdício de roupas novas. Marcy descobriu assim que apesar deles serem os europeus ela é quem tinha postura conservadora. Completamente desapegada, a mãe européia deles parece ter adotado postura mais americana pois tudo para ela era descartável, como parece ter sido inclusive, não os filhos, mas o convívio cotidiano com eles… Mais uma vez marcy percebeu o quanto tinha a aprender com essas pessoas. Entre outras coisas eles a estavam ajudando a se libertar de apegos, de conservadorismos, de tradicionalismos nefastos. O velho, o antiquado, na Marcy, precisava dar lugar ao novo… Precisava ser reciclado… Isso valia para idéias, padrões, conceitos, posturas…  Se isso ocorre na natureza com uma nova geração sucedendo a antiga porque não pode ocorrer em nosso interior ?   Talvez fique mais fácil, inclusive, se abrirmos espaço no coração ou até a fim de que possamos abrir esse espaço…

Marcy ficou espantada ao constatar, após vários anos de investimento contrário, a força e a vitalidade de seu conservadorismo, de seu apego não apenas ao antigo, ao velho, mas também à dor. Marcy percebeu-se conservando a dor, e conservando-se na dor, mantendo a dor e mantendo-se na dor… Para seu horror… Sentiu-se envergonhada com a falta de criatividade…
Marcy percebeu-se conservadora na sua insistência em trabalhar numa profissão oficial legitimada através de diploma universitário, quando na verdade a sua vocação era de astrológa, de “bruxa”, como carinhosamente a chamavam enquanto ela própria se assustava…       

Marcy percebeu que havia resistido demais com relação a esta sua aptidão insistindo, investindo e esforçando-se para se colocar no mercado de trabalho através de uma profissão com diploma. Todas as faculdades que ela cursou – quatro – mostraram-se inférteis profissionalmente para ela. Todos os cursos de línguas que frequentou - quatro, inclusive um instrumental – não se tornaram instrumentos de trabalho…. Não adiantava, o mercado não queria saber de seu currículo, ou por outra, uma instância de seu ser não queria saber do mercado de trabalho e ela teve que se conformar em ser extra-oficial, teve que continuar trabalhando com a astrologia, que era não apenas um local privilegiado para ela sentir as galáxias, mas também a profissão e linguagem na qual ela melhor se expressava.

Marcy se perguntava se teria buscado corresponder às expectativas de seus pais…. Não e sim.

Se teria buscado corresponder às expectativas da sociedade ? Não e sim.

Se teria buscado corresponder às expectativas de seu conservadorismo ? Sim e sim, lamentavelmente sim… Que escravidão ! ! ! Que prisão ! ! !

Marcy sentiu que precisava deixar de almejar uma profissão “oficial” para libertar-se das algemas que havia se colocado e, sem gemer ou se lamuriar tanto, passar a conferir maior expressão à alma.

Marcy também percebeu-se conservadora no mal estar que sempre sentia por não ter, após casada, uma família “normal”, ou seja, de um mesmo núcleo biológico. Marcy sentia uma espécie de desconforto, um desconforto exclusivamente de seu ego, não de sua alma. E esse desconforto certamente não era devido aos meninos, uns amores, mas à situação, pois revelava que ela não era apenas uma mãe biológica, ou uma mãe adotiva, mas uma madrasta. Algo que sempre foi sentido por ela como se fosse um defeito, como se fosse um estigma… Talvez por ser mais uma forma de bruxa é que a incomodasse, ou a seu ego infantil muito impressionado com os contos de fadas. E neste caso o incomodo era proveniente mais do termo do que da função… Mas aquelas conturbações todas, Marcy percebeu na T.P.M., eram resultantes da dificuldade dela em aceitar o novo, o diferente, o moderno, ou a contingência… E justamente numa época em que as famílias estão cada vez mais se constituindo em bases não mais lineares de um pai e uma mãe, exclusivos, mas piramidais, trapezoidais, com vários padrastos e madrastas a co-laborarem com novas configurações espaciais e especiais.

Curiosamente, e demarcando um enorme contraste, Marcy se via e agia como uma pessoa de vanguarda na juventude, além disso, jamais havia registrado postura preconceituosa com relação aos casais separados e seus filhos. Foi com surpresa que descobriu-se intrinsecamente preconceituosa e conservadora, que percebeu-se lamentavelmente arcaica… Trata-se da velha estória de aceitar, de compreender, de apoiar a diversidade desde que ela aconteça na família dos outros… Sob teto próprio, não. Marcy descobriu-se assim, hipócrita. Desconfortavelmente hipócrita, preconceituosa e conservadora… E reconheceu a mãe biológica de seus enteados como uma pessoa muito astuta quando assim a definiu…

Marcy percebeu que precisava aprender também que aceitar o diferente não era aceitar o desigual, enquanto desigualdade fomentadora de injustiças, era aceitar o não igual, o diverso, a diversidade desde que não fosse aquela, muito em voga atualmente, irredutível e incomunicável do individualismo perverso que se fechava num solipsismo sem aberturas para o outro.

Marcy reconhecia que em várias situações havia se sentido ameaçada por seus enteados, duas crianças maravilhosas. A ameaça surgia como algo difuso nela sem que ela pudesse nomear exatamente de onde partia. As pessoas que tentaram ajudá-la diziam que ela estava transferindo para eles o que tinha vivido com relação à mãe biológica deles, que de fato a ameaçara dezena de vezes, que de fato havia esmurrado o portão de sua casa, que de fato havia quebrado vidros na frente de sua casa, que de fato tinha invadido seu quarto na maternidade. Mas Marcy nunca pôde aceitar ou referendar esse argumento pois jamais o reconheceu, quer a partir do ego ou da alma, como verdade. Marcy percebeu, naquela T.P.M., que seu ego é que se sentia ameaçado pois estava diante de um aprendizado em que deveria abrir mão de muitos padrões aos quais se mantinha apegado, como por exemplo, o conservadorismo, o preconceito, entre tantos outros aspectos… Esses sim uma real ameaça…

O casamento trouxe para convívio de Marcy muitos mestres, muitos instrutores…

Infelizmente Marcy não pôde ser o tempo todo uma “aluna” atenta, dedicada e compreensiva… Marcy reconhece que atuou inúmeras vezes a distração, o desinteresse, o descaso, a má vontade, a preguiça, a ignorância, tal qual uma relapsa aprendiz, ou simplesmente, tal qual uma humana aprendiz…

O desafio moral a que ela se propôs certamente foi de ter o conhecimento de suas torpezas cotidianas e assim se descobrir nada mais que humana.

Marcy chegou inclusive a se questionar naquela T.P.M. se queria ser, concreta e não multidimensionalmente, mais que humana…. Acaso pretendia-se sobre-humana ?

Aliás, enquanto Marcy atuava a sua raiva por ter percebido a mãe biológica dos garotos como o chupim, aquele pássaro preto da família dos icterídeos, a colocar seus enormes ovos no seu pequeno ninho de tico-tico, enquanto Marcy a reportava como uma sórdida e folgada exploradora a abusar dela como inocente útil, a abusar esses anos todos de sua boa-vontade, de sua generosidade, de sua paciência, de sua ingenuidade, de sua solidariedade, de sua compreensão, de sua tolerância, não percebia-se presa e apegada ao ego através de conceitos conservadores, pequenos, mundanos, mesquinhos.

Na T.P.M. Marcy percebeu que quem era um chupim, quem era dona de um “big egg”, ou de um enorme ego, quem havia abusado e explorado a boa-vontade, a generosidade,  a paciência, a ingenuidade, a solidariedade, a compreensão, a tolerância não apenas dos meninos, mas de todos os membros de sua família, magníficos e grandiosos seres, era ela mesma .

Naquela T.P.M. Marcy percebeu também que a mãe biológica de seus enteados era na verdade uma pessoa boníssima, magnânima, despojada, um ser verdadeiramente altruísta, tendo demonstrado isso ao “abrir mão” dos próprios filhos. A egóica, egocêntrica, egoísta desta história era ela, Marcy, que estava inclusive se sentindo um tico-tico de gente.

Marcy percebeu que os meninos, por sua vez, tinham abdicado da presença da mãe biológica para ficar com ela, quase que exclusivamente com ela…. Eles se dispuseram a efetuar um sacro-ofício que Marcy algumas vezes pode ter transformado em sacrifício simplesmente por ter se comportado de forma afetivamente estreita e tacanha.

Na escola exotérica Marcy tinha sido uma aluna precoce, às vezes até mesmo prodígio, em geral bem colocada entre os demais. Mas, em determinado momento, ela se cansou desse esquema e ardentemente desejou ser a pior de classes mais avançadas. Marcy achava que era melhor ser a pior do nível seguinte do que a melhor de um nível inferior. Preferia ser a mais medíocre, entre os inteligentes, do que a mais inteligente entre os medíocres. Mal sabia Marcy que esse seu desejo adolescente a transportaria, como ela pôde perceber naquela T.P.M., para aprendizados esotéricos tão importantes, significativos e, ao mesmo tempo, tão cotidianos quanto a convivência com esses sábios, avançados, maravilhosos e esplendorosos seres que se dispuseram a compor um núcleo familiar e a acolhe-la nele.

Aliás, Marcy reconhece-os como seres capazes de manifestar tanta luz que muitas vezes ela não suportou a revelação que eles faziam de sua própria sombra e reconhece ter tido vários comportamentos nefastos, até mesmo agressivos, pois pautados no desespero, na  rigidez e no conservadorismo de seu ego, e não na confiança, na flexibilidade, na criatividade, na originalidade, de sua alma.

O cotidiano muitas vezes engoliu os ideais de Marcy, a força da gravidade muitas vezes fez arriar seu eixo, a dor muitas vezes obliterou sua consciência. E Marcy perdeu oportunidades de deixar nascer o novo em si mesma. Ela abortou o novo em si mesma. E como resultado ficava ensimesmada….

Na T.P.M. Marcy percebeu que ela e os seres humanos em geral muitas vezes abortavam o novo ser que constantemente era gerado em seu interior, ou seja, ocorria cotidianamente o aborto do próprio vir a ser, o que não envolvia outros indivíduos, outras pessoas, outras criaturas, muito menos fetos, é claro… E ao perceber esse “aborto” que a espécie humana tende a fazer de si mesma, de seu potencial, esse boicote que os humanos fazem em relação a si próprios, Marcy ficou se indagando como poderia haver na população quem “condenasse” os abortos de fetos, se esse tipo de ocorrência simplesmente expressava no mundo externo o que fazemos ou como agimos em nosso interior ? ? ? Como condenar alguém por um aborto concreto se praticamos tantos abstratos ? Como criticar alguém se o externo tão somente expressa, explicita, o  que estamos fazendo em nosso interior, com nosso eu interno ? Aliás, Marcy chegou à hipótese – delirante como sempre - de que talvez aqueles que mais efusivamente condenem as mulheres que abortam sejam justamente aqueles que mais abortam seu vir a ser adotando comportamentos não apenas e estanques mas sobretudo retrógrados por total incapacidade de abstração.

Marcy acredita que todos compartilhemos em não desejar que ocorram abortos de fetos em nossa sociedade mas, para que isso não mais aconteça, talvez precisemos lidar com os abortos que praticamos cotidianamente contra nós mesmos, contra nosso próprio vir a ser, contra o novo em nós, contra a austeridade na transformação que nos realiza, contra o descanso do tempo cheio.

Marcy acha que precisamos de novas posturas, no sentido aqui é claro de novas atitudes e não de ovos postos por uma ave durante certo tempo. Precisamos sem dúvida de “ovos” ou de “óvulos” para serem fecundados, mas sobretudo precisamos de n’ovos seres fecundos. Precisamos nos tornar fecundos, no sentido de criativos, de inventivos, de criadores e não apenas no sentido de reprodutivos, de capazes de conceber ou gerar. Não devemos esquecer que fecundar tem também o sentido de desenvolver, de criar progresso, e que muitas vezes ao fecundar irresponsavelmente não estamos nos desenvolvendo mas des-envolvendo, deixando de nos envolver, e no abandono, no “não” envolvimento, criando retrocessos em meio a uma superpopulosa sociedade.

Marcy acha que talvez precisemos ampliar a humanidade - em cada m de nós, a nossa capacidade humana, o nosso potencial humano, como qualidade intrinseca de nossa espécie - e não numericamente, quantitativamente enquanto superpopulação.  E é obvio que ela não está com isso, em absoluto, incentivando os genocídios, pelo contrário, está inclusive preocupada com as inúmeras perdas que estamos tendo quer em situações de guerras explicitas ou de guerras dissimuladas como violência econômica ou urbana, todas elas criminosas.    Mortes essas que Marcy crê talvez estejam ocorrendo porque estamos deixando morrer o humano em nós, estamos portanto deixando morrer a nossa humanidade, infelizmente nos dois sentidos, quantitativo e concreto tanto quanto qualitativo e abstrato, pois a realidade externa é também uma projeção de nossa realidade interna, quer individual ou coletivamente.    Assim sendo, estamos, antes de mais nada, deixando morrer nossa humanidade, nosso humanitarismo, ou seja, aquela postura de quem ama os semelhantes, daquele que visa, que deseja e que trabalha pelo bem-estar da humanidade, considerada coletivamente.

      Para Marcy, a mentalidade da maioria de nós, humanos, está atrasada, está defasada, está desatualizada, está por demais retrógrada e conservadora, e ela, infelizmente, reconhece-se como legitima representante desse quadro.

       Como astróloga ela sabe que seu Saturno é forte, bem posicionado, bem aspectado, estruturado, mas que exagero !!!   Que fronteira difícil de ultrapassar, de superar, mesmo de perceber, de enxergar….   E Marcy se pergunta por seu Urano….    Cadê seu Urano ?   Marcy quer o seu Urano, urgente, urgentíssimo !!!!

       Marcy quer mudar de órbita, quer saltar da circunscrição de Saturno para alcançar uma órbita mais ampla, a de Urano, para vir a ser também moderna, avançada, transpessoal.  Marcy quer se fundir ao futuro, quer dar esse salto quântico amalgamando o tradicional com o moderno. Ela quer atravessar a vida nas linhas invisíveis da ruptura e da continuidade, sem pólos, simplesmente no eixo, fazendo vibrar – o mais conscientemente possível -  as energias de todos os planetas.

       Aliás, na T.P.M., Marcy sentiu não apenas a possibilidade de entrar numa era ou década uraniana, como percebeu a sua década de trinta muito saturnina, dura, pesada, frustrante, aprisionante, sofrida, triste, com muitos encargos e responsabilidades, a sua década de vinte com fortes características jupiteriana pois dedicou-se a vários cursos superiores, a vários cursos de língua estrangeira, participou de várias viagens ao exterior, inclusive com possibilidade de ter se fixado por lá.    E permitindo-se seguir o fluxo desses pensamentos Marcy encaixou o período dos 15 aos 20 anos como “pertinente” `a Marte pois conviveu com muitos homens, colegas de curso e de trabalho, teve postura ativa, com muitas iniciativas profissionais, muitas conquistas escolares, com participação política, sendo que por hobbie ela havia adotado a musculação, o vôlei e a descida de morros em carrinho de rolemã.   Entre os 10 e os 15 anos Marcy crê ter vivido um período de Vênus com o despertar das paixões, com o universo feminino das amizades, com muita vaidade e dedicação `as artes.   O período entre 5 e 10 anos ela relacionou a Mercúrio, com a entrada na escola, o aprendizado básico, o convívio com vizinhos, os diversos passeios e pequenas viagens.  Entre dois anos e meio e cinco anos Marcy crê ter vivido de forma lunar, com grande bem estar.  Entre zero e dois anos e meio percebeu-se Solar, só lar, só no lar, em sua chegada ao lar terreno…

       A T.P.M. daquele agosto fez com que Marcy se sentisse no vazio do espaço interplanetário que havia nela, vazio pleno de percepções, sensações, insights, a caminho do “campo gravitacional”  de Urano, vazio “sináptico” pleno de liberdade, pleno de eternidade.

       Marcy queria a liberdade enquanto ser cósmico e intergalático que é, e não simplesmente terráqueo, enquanto ser multidimensional e não apenas pontual, circunscrito, restrito, delimitado a um ponto da terceira dimensão, o ego….

       Marcy não se queria mais conservadora

                   não     queria mais conservar a dor

                        ela  queria atravessar a dor

                          e transformar a dor em amor     

      Em geral, ao invés de atravessar ou ultrapassar a dor, Marcy recuava e fazia voltar a sua energia para o mental, para o intelecto, para a racionalização, para o fantasioso, para o imaginativo.   Ao invés de ir `a frente com o sentimento, de expressá-lo, de expô-lo, de agir com ele e por ele, Marcy recuava e não se dava o consentimento, não se dava com o sentimento.

      Paralisia, estagnação, imobilidade que a atavam ao passado ao invés de dinamismo, mobilização, produtividade a conduzirem-na ao futuro, `a modernidade, `a moderna idade…

       Marcy colocava os sentimentos, as emoções longe, muito longe : no exterior, no outro.  Dizia que o sentimento, por exemplo, de abandono, de distanciamento, de isolamento, era do outro, da outra, da mãe biológica de seus enteados e não seu…

        Na qualidade de dublê ela aplicava um drible em si mesma.

        Marcy percebeu naquela T.P.M. que precisava ser mais ela mesma, mais egoísta, mais possessiva mesmo, no sentido afirmativo e não no negativo, para reconhecer como seu, para aceitar como seu, para cuidar como seu, daquilo que era seu.  Os sentimentos e emoções eram seus “filhos”, eram “produtos” do seu ser, e desse modo eram afinal “produtos” dela…   Marcy precisava reconhecer essa maternidade e não abandoná-los, ignorá-los ou mesmo atribuí-los a outrem.  Marcy precisava cuidar deles e delas ao invés de negá-los ou de delegá-los a outrem…

       Foi no mínimo esquizofrênico Marcy ter dito esses anos todos que o sentimento, o sentir, era do outro e não ter se responsabilizado por ele, não té-lo assumido, não tê-lo tomado como realidade interna.   Mas Marcy sabe que muitos de nós ainda projetamos nossos sentimentos, especialmente os hostis, no outro, no mundo externo.   E não os reconhecemos como pertencentes `a nossa psiquê.

       Aliás, o desajuste de Marcy, que culminou na desistência da profissão de engenheira, foi emocional e não mental.  Marcy acha inclusive que deprimiu na época porque a energia estava precisando descer para a região cardíaca do sentir e como Marcy não soube diferenciar a parte do todo, ou como identificou a cabeça como o todo de seu ser, ficou de cabeça baixa, triste e chorosa, a tudo conferindo criticamente uma conotação grave, austera, sisuda, circunspecta, “totalmente” ( ou seria tolamente ? ) deprimida…  Foi na cabeça dela que a gravidade incidiu, e nos dois sentidos pois não apenas ela abaixou obrigatóriamente  seu “topete”, tendo ficado cabisbaixa mas também menos prepotente…

       Na época Marcy não aceitava sua fragilidade, ou a fragilidade que atribuía ao emocional, não aceitava a vulnerabilidade de suas emoções, de seus sentimentos, queria o exato, a ciência exata, o saber exato, ou exatamente só o saber, não o sentir.  Marcy não aceitava esse seu “bebê interno” - o emocional - não o assumia, não o acolhia.    Fantasiava inclusive que não era seu.  Fingia isolamento e acabava acreditando que não lhe pertencia.  Abandonava-o e voltava-se frequentemente para o mental, para o intelecto, para as racionalizações, as quais sobrepunha a ele buscando encobrir e esconder os verdadeiros sentimentos.

      “Bons” ou “maus”, “agradáveis” ou “desagradáveis”, Marcy percebeu que eram dela, pertenciam ao seu ser, e se ela não os reconhecesse, permaneceriam subdesenvolvidos ao invés de desenvoltos, e ela idem…   ela idem…   sem a mínima desenvoltura na vida, atada pelo seu próprio sub-desenvolvimento, e também pelo sub-desenvolvimento de seu pais.  Ambos escolhas, ambos respaldados pelo livre-arbítrio, ambos freqüências vibratórias compatíveis…

       Cabia somente `a Marcy escolher se iria cuidar ou descuidar dessa instância de seu ser…

      E Marcy se perguntava se iria assumir ou sumir…

      Marcy, que tinha ficado anos e anos acusando, julgando e mal compreendendo a mãe biológica de seus enteados por ter feito o que fez com eles, por ter sumido ao invés de tê-los assumido, percebeu, naquela T.P.M. que ela, com sua postura abandonica, entre outras benesses, explicitou para Marcy o que ela mesma fazia com seus “filhos” sentimentos, com suas “filhas’ emoções, que eram “produtos”, eram “frutos”, de seu próprio ser…

      Marcy, que havia acusado a mãe biológica de seus enteados de egoísta por ter pensado só em si mesma ao deixar os filhos no Brasil, percebeu que Freud estava certo quando afirmava que “toda crítica denuncia inveja”.  Marcy pôde reconhecer, na T.P.M., que teve mesmo inveja dela e que queria mais era ser, se permitir ser, egoísta também.   Mas egoísta construtivamente, ou seja, apropriando-se daquilo que era dela, apossando-se dos sentimentos que eram dela, das emoções que eram dela.

      Marcy acredita que ser egoísta destrutivamente é acharmos que as coisas, os objetos ( e as pessoas `as quais damos tratamento de objeto e não de ser humano ) são nossos, são de nossa propriedade,

são nossas posses, e não generosos empréstimos que o Universo nos faz para nosso crescimento, aprendizado e evolução neste planeta.  Aliás, nosso ego ( e corpo físico ) não deixa de ser também um empréstimo, provisório, temporário, para que nossa alma atue no planeta.  Aliás, todos sabemos que um dia teremos que devolver `a Terra o corpo físico que ela nos emprestou para experimentarmos essa terceira dimensão em seu solo…    E deveríamos procurar “devolvê-lo” pleno de moléculas de prazer…

      Marcy acredita que ser egoísta destrutivamente é cuidar, exclusiva e alienadamente, dos próprios interesses  enquanto que construtivamente é cuidar de si, de sua “jurisdição” o mais amplamente possível pautando-se em interesses apropriados e assumindo os próprios atos.  É tentarmos ser melhores a partir do self, em ampliações concêntricas, abrangendo cada vez mais pessoas.

       Marcy acredita que ser egoísta destrutivamente é alienarmos nossos sentimentos permitindo-lhes atuação inconsciente e nefasta.

      Aliás, se não formos egoístas conscientemente certamente o seremos inconscientemente, ou seja, faremos atuar o egoísmo destrutivo sem assumi-lo, o que tende a ser nefasto.

      Marcy concorda com aqueles que dizem que precisamos nos saber, nos reconhecer, seja como egoístas, seja enquanto invejosos, seja como  possessivos, seja como abandônicos, e tudo o mais para atuarmos tais energias construtivamente.

      Há alguns anos Marcy fez um curso de formação cujos alunos apresentariam uma peça teatral no encerramento do ano letivo.  Haveria papéis de anjos e de diabos.  Surpreendentemente o papel de diabo foi quase que unanimemente rejeitado.  Marcy acha que se pudessem eles inclusive o teriam retirado da peça, um texto clássico de Goethe…

      E Marcy, que há alguns anos vinha procurando elaborar seu desconforto em determinados papéis, que já havia feito o papel de bruxa, no seu passado profissional de astróloga, que estava desempenhando o papel de madrasta naquele momento de sua vida, não se importou nem um pouco e se ofereceu prontamente para fazer o papel do diabo.  Marcy sempre achou mais interessante não apenas a personalidade mas também o figurino dos vilões.   Ela tem inclusive verdadeira fascinação pela personagem Malvina Cruela nos “101 dálmatas”, e mesmo amando profundamente os cachorros, estes ficam, no filme, em segundo plano para ela.

      Mas parece que só Marcy havia adotado e adorado poder representar o diabo pois, por incrível que pareça, seus colegas, todos adultos, muitos já formados em outros cursos superiores e na meia idade, resolveram reclamar com a direção do curso “denunciando” a professora por “impor-lhes” tal papel.

      Houve uma reunião com a direção da escola onde os tais alunos, com criticas absurdamente irreais, insanas, excessivas, exigiam o afastamento daquela professora tal qual verdadeiros inquisidores.

      Faltando pouco para “colocarem-na na fogueira”, ou seja, para ela ser destituída do cargo, Marcy já não agüentando mais tamanho absurdo pediu a palavra e pontuou o que, a seu ver, eles estavam fazendo sem se darem conta, sem que tivessem consciência, quer seja, por não quererem interpretar o diabo na peça, pelo fato de negarem-no, estavam projetando o “diabo” na figura da professora sendo que, na realidade, eles estavam “atuando” seus próprios “diabos”, estavam sendo “diabólicos” ao terem criado tão constrangedora e nefasta situação.   Quanto absurdo !!!!   Mas Marcy sabia que era assim mesmo  que acontecia na vida pois, ou assumimos conscientemente nosso aspecto luciférico ou o deixamos atuar inconscientemente através de nossas ações.   Marcy acha inclusive que é por isso que o mundo está como está…   Há um adormecimento geral !!!!  Ninguém quer atuar mas atua…   Foge-se de lidar e elaborar uma representação abstrata, simbólica, e com isso apresentamo-na concretamente, ou o que é pior, tornamo-nos fiéis representantes inconscientes dela, ou seja, atuamos o pior, o nosso pior, na vida real….

     William Hazlitt disse que “ a ignorância acerca do mundo deixa a pessoa `a mercê da maldade”, possivelmente se referindo ao mundo externo, mas sem Duvida o alerta é válido também com relação ao mundo interno.

      No “processo de inquisição” escolar somente Marcy, única também a ter aceitado representar o diabo da peça, defendeu a professora contra todos os seus colegas, os ávidos por serem anjos, por serem elevados espiritualmente, mas ela explicitou os fatos com tamanha clareza e lucidez que foi suficiente para apaziguar os ânimos e “reverter” aquele quadro de idade média produzido por pessoas de meia idade.

       Ainda que Einstein tenha nos informado que “o senso comum é a coleção de preconceitos que a pessoa adquire até os dezoito anos”, e que Marcy prefira os incensos e os insensatos, ela resolveu resgatar do senso comum o alerta quanto `a perigosa fase da meia idade sem saber que se tratava de uma idade em que, na tentativa de atualizarmos nossos comportamentos “medievais” poderíamos nos tornar tão perigosamente medíocres…  Mas sem a mediação da alma, e sem adotarmos a meditação, o que mais poderíamos

querer ?    Marcy acha que enquanto não corrigirmos ou escolhermos mais conscientemente quais aspectos do nosso ser colocar na “fogueira”, enquanto não processarmos vários “renascimentos internos” a fim de acolhermos a alma, e com ela, toda a profusão de nossos iluminados talentos, toda a modernidade de nossa essência, permaneceremos nas trevas e nos entreveros de nossos egos entronizados e pré-copérnicos, com dificuldade de nos entrosarmos uns com os outros, apenas entrevendo as luzes mas não manifestando-as…

       E como na reunião com a diretoria, os colegas de Marcy – para usar latim medieval – capitularum, a professora permaneceu na escola com a classe, a peça foi ensaiada com todos os seus diabos e apresentada com sucesso sem mais percalços…

      O “diabo” acolhido e atuado conscientemente foi construtivo, enquanto que o “diabo” abandonado, rejeitado, atuou inconscientemente e estava sendo destrutivo…

       Marcy sabia muito bem como isso ocorria pois, por ter rejeitado em si própria a “bruxa’ esotérica, conforme a astrologia a queria, atuou inconscientemente em alguns momentos a “bruxa” mundana perante seu filho e seus enteados.  E por ter abandonado o propósito de ser uma “madrasta” esotérica, adotando os “filhos/clientes” que fariam consultas astrológicas, tornou-se uma “madrasta” mundana, a cuidar e por vezes também descuidar, dos filhos alheios.

      Marcy queria-se revolucionária na juventude, acreditava-se de vanguarda.  Teria sido destrutivamente revolucionária numa atuação para fora : um erro, um equívoco, um desperdício.

      Marcy, naquela T.P.M. sentiu-se revolucionária por dentro : quantas estruturas internas por cair, quantos comportamentos ultrapassados, quantas instancias velhas por morrer…  mas também quantos novos valores, novos comportamentos, novas posturas estavam sendo construídas…

       Marcy passou então a acreditar que revolução se faz no silêncio e na calma.  Silenciosamente na alma.   C’alma.   Ou seja, com a alma.

       Marcy percebeu que tanto quanto tinha muitos familiares idosos no mundo externo, tinha muitos “idosos” familiares no mundo interno.   Quanta familiaridade ela tinha com esse universo…   Mas se lá fora seus parentes eram felizmente saudáveis, dentro dela infelizmente os comportamentos arcaicos eram inadequados e inoportunos.  Marcy precisava deixá-los morrer.  

       A numerologia havia indicado para Marcy que com o casamento, “com a vibração de seu nome de casada ela tinha saído de uma vibração adolescente – aberta `a vida, alegre, livre e feliz – e tinha entrado diretamente no número do ancião, tendo ficado mais densa, mais tensa, mais preocupada, com muitas responsabilidades por ter escolhido amparar o marido em sua missão, como colaboradora, para que ele conseguisse levar a mochila dele”

       Com o casamento, ainda segundo a numerologia, Marcy teve que “esconder um pouco sua energia, teve que esconder um pouco a sua luz, teve que se sentir amarrada, presa, a fim de quebrar estruturas decadentes, posicionamentos e posturas dentro de si mesma, a fim de fazer limpezas internas que exigiram esforço extremo, a fim de trabalhar o desprendimento de seus valores, de seu orgulho, de seu ego, servindo de instrumento para ensinar pessoas `a sua volta.  E Marcy teve que segurar a situação, teve que recebê-la sem se quebrar, porque veio para saber, para descobrir, que tem a força de um carvalho”. 

      Incrível a numerologia, que resumo mais preciso e esclarecedor trouxe para Marcy…  E Marcy que já era fã dos números quantitativamente falando, tornou-se fã qualitativamente também…

       Marcy percebeu seu movimento todo daquele agosto como um Etna particular atuando, o “seu” Etna individual…     Marcy acredita que o que acontece na Terra acontece também com os habitantes da Terra…

      E o vulcão Etna esteve em erupção no mesmo período de agosto.   O consultório também entrou em “erupção e ebulição” com intensos conteúdos manifestos em quase todos os pacientes….     Sincronicidades por todos os lados…   A lava de Marcy cheirando mal transbordou tumultuando a vida, a família, os conceitos, o ego, mas permitindo com isso que um pouco do antigo, do velho nela pudesse ser destruído, pudesse morrer para fertilizar um novo momento.

       Marcy se recusando a “abrir” amorosamente o coração para os outros, para os seus enteados, para a sua família e para si mesma e o pai dela tendo que abri-lo concretamente para os médicos colocarem pontes de safena…   Marcy preferia apenas o abrir simbólico, interno, amoroso, capaz de resultar em atitudes humanitárias, generosas, altruístas, magnânimas, em forma de gestos concretos…

      E quantas pessoas também hoje em dia manifestam problemas na mente porque não conseguiram abrir o coração, porque não conseguiram reconhecer o valor da vida, a benção da vida…

       O período menstrual daquele agosto foi não apenas detestável para a instância egóica retrógrada de Marcy, como também de testes porque houve sérias complicações de saúde para seu pai…    Mas a T.P.M. deixou claro que seria melhor Marcy assentir em “perder” parte de seu masculino interno para se tornar mais mulher, mais receptiva, calorosa, amorosa, do que perder o masculino externo quer na figura de seu pai, de seu marido ou mesmo de seu filho, não por acaso, ameaçado de morte no mesmo período por colegas que surpreendentemente se revelaram sórdidos e perversos, e com os quais ele acampava pela primeira vez…

      Marcy e seu marido deixaram-no acampar porque queriam proporcionar-lhe oportunidades de desenvolvimento de valores éticos por meio da vida em equipe, do espírito comunitário, da liberdade responsável e do estímulo ao aprimoramento da personalidade, o que infelizmente esteve longe de acontecer uma vez que os veteranos o tornaram refém de tirania exercida com crueldade.   Mas Marcy percebeu que ela e o filho passaram por aquilo que cabia-lhes passar naquele momento, o que resultou num aprendizado acerca de aspectos nada nobres da natureza humana…    Marcy acredita que todos nós precisamos no apropriar de nossos aspectos perversos a fim de não precisarmos nos submeter `a perversidade alheia, o que torna-se inclusive fundamental nos dias atuais em que os governantes do planeta estão extrapolando seu poder tirânico.  Não podemos permitir que eles prossigam avançando terreno, mas como as autoridades nos representam, são expressões nossas, explicitando ali fora como somos por dentro, precisamos lidar primeiramente com a perversidade dentro de nós, com aquela que nos é intrínseca….  

      Naquele período da T.P.M. Marcy foi fazer uma depilação e pintar as unhas, querendo se sentir mais feminina, mais mulher, o que num primeiro momento foi percebido por ela como algo única e exclusivamente físico, mas posteriormente ela pôde reconhecer as outras dimensões da expressão desse desejo…  É claro que ela se queria mais mulher por fora, mas também por dentro, ou seja, mais receptiva, mais dócil, mais sensível, mais solidária, mais amiga, mais amorosa, enfim, mais afetiva…  ou seja, uma representante  mesmo do princípio universal feminino…

      Marcy lembrou-se de um cliente cujo mapa astrológico revelava ser um expert em princípio universal feminino pois há várias vidas ele vinha encarnando como mulher, mas que, em busca do equilíbrio entre princípios complementares, havia concordado em encarnar não mais num corpo feminino e sim num corpo masculino posto que a “forma” física masculina o levaria, com os passar dos anos ou mesmo de encarnações futuras, a aprender a atuar de “forma” masculina , ou seja, a ser mais yang, menos yin, equilibrando assim os princípios yin/yang dentro dele.    O mapa informava também que – na transição – ele seria vitima de preconceitos e de discriminação sexual em função de sua homosexualidade porém, tratava-se de experiência fundamental de aprendizado uma vez que ele mesmo havia adotado uma postura preconceituosa e discriminatória no passado com relação `as diferenças raciais, as quais estaria buscando superar nesta vida.

      Marcy percebeu que ela também estava precisando abandonar seus preconceitos e discriminações pautados no biológico, percebeu que ela também estava querendo e necessitando que sua forma feminina externa atraísse a sua forma feminina interna de se comportar, agir, pensar, e sobretudo de sentir e amar…

      Naquele mesmo dia ela e o marido assistiram ao filme : “Que mulher é essa ?”   Não foi uma escolha prévia, sequer uma escolha consciente, simplesmente era o único filme disponível no horário que eles tinham para lazer.    Mas o que aparentemente era uma falta de opção tornou-se uma ótima sugestão para reflexão.    Reflexão pessoal, muito própria para Marcy, bem intima, e absolutamente particular :   Que mulher era ela ?

      Eram cascas e mais lascas de identificação com o masculino ainda por cair…   E Marcy se questionava se antes do fim de sua existência conseguiria driblar a resistência e insistência de comando do seu ego -  que tinha se identificado com o poder, com o mando, com o racional, com o masculino – e se tornaria plenamente mulher…  Gerada e regida pelo feminino…   Gerando e gerenciando atitudes, posturas e comportamentos mais femininos…  Tornar-se-ia aliada de sua feminina alma em seu feminino corpo ou estaria para sempre cooptada pelo masculino e cego ego ???

      Marcy percebeu que paparicava sobremaneira o masculino, tanto interno – seu ego – como externo, os homens de sua família.  Ela percebeu que atendia pronta e imediatamente a esses “homens”, parentes ou amigos, e a esse aspecto masculino de seu ser, o seu ego…   e que `as mulheres com as quais convivia, e ao seu aspecto feminino, ou seja, `a sua alma, era lerda em atender, procrastinava, adiava…

       Ao assistir ela achou o filme cansativo, apelativo, enfadonho mas ao sair da sessão passou a gostar, a perceber alguns elos, o que o tornou, sob determinado aspecto, até interessante.

       Três homens se deixam fascinar pela mesma mulher, cada um agindo de acordo com suas particularidades.  Os três precisam desabafar a paixão : o primeiro o faz com um bandido, o segundo com um padre e o terceiro com um psicanalista.

      Nenhum deles obtém a resposta que gostaria de receber.  Eles se embolam, se misturam, se metem em confusões e , é claro, nenhum deles fica com o objeto de desejo.

      Marcy percebeu que ficava sem obter respostas da vida enquanto atuava de forma masculina, enquanto permanecia na função paterna distorcida, ou seja, enquanto fria, distante, mesmo repressora…   E percebeu que queria muito sair daquele lugar interno…


Marcy queria sair da função de pai

                                                       e não de seu país

                                                                                  para encontrar a paz


       Marcy queria a função materna, queria a mãe “nela”, a mãe que ela poderia vir a ser…   E percebeu a mãe biológica de seus enteados, que os havia abandonado tendo deixado o pais, como uma “parte” interna dela projetada no exterior…   Tanto no sentido concreto, porque ela, pessoa, foi morar no exterior, como no sentido simbólico, enquanto mecânismo projetivo dela, Marcy.  Tão óbvio e Marcy não enxergava !!!   Tão explícito !!!

      O que Marcy trazia como abandono ou atuava como abandono, ela não assumia, colocava para fora, no outro, colocava distante, no exterior…

      Abandônica não era ela, a mãe biológica dos enteados de Marcy, ou pelo menos não era só ela…  Marcy abandonava também…   Abandonava suas emoções quase que sistemática e cotidianamente…   Tinha abandonado a profissão de engenheira, de astróloga…    Tinha “abandonado” várias vezes até o próprio filho e os enteados para trabalhar em workshops nos finais de semana….  E naquela T.P.M. de profundo ensimesmamento tinha “abandonado” o marido “obrigando-o”, por omissão, a cuidar dos filhos como pai e como mãe…

      Sem dúvida a missão era dele e Marcy apenas havia se comprometido a ajudá-lo mas se o mapa de Marcy indicava que ela assumiria o karma de outrem como forma de serviço e sacrifício pessoal, como podia estar abandonando-o, abandonando seu compromisso astrológico, pessoal e sobretudo sua intenção transpessoal ?

       Marcy não queria mais o masculino da “O”missão, queria compartilhar com ele, no feminino, “A” missão que lhe fora atribuída.    

       Marcy estava acordando naquela T.P.M. para a realidade que havia criado se fechando em si mesma, se fechando em seu interior, se fechando ao amor, por oposição `a outra, a mãe biológica de seus enteados, que tinha ido para o exterior, para a Europa, e pensou que talvez ela, a mãe biológica de seus enteados, ao invés de ter se contemplado com perspectiva e ter tomado distância de si mesma, ou principalmente do próprio ego, para se reconstruir após a separação, não tenha usado de abstração e tenha tomado distância concreta do pais , o que acabou acarretando no abandono dos filhos.  E Marcy percebeu, na sequência, que tanto a mãe biológica de seus enteados quanto ela mesma eram aspectos femininos de seu marido, ou seja, ambas eram metáforas de sua realidade feminina interior.  Assim como ele poderia ser delas….   e neste caso Marcy resolveu elocubrar se no masculino de outras encarnações teria ela também desprezado as mãos que a nutriram…  Obviamente que sem poder chegar a conclusão nenhuma Marcy lembrou-se apenas que no início desta encarnação desprezava tanto a cozinha como o ofício de cozinhar e que foi através do casamento que tinha aprendido a cozinhar…   Sentia-se grata naquele momento por sua família e filhos a terem “confinado” na cozinha, local que arrefeceu o fogo de seu destemperado e forte temperamento, o qual aquiesceu a contragosto freqüentar aquele, ora reconhecido, nobre “laboratório”…  Marcy sentia-se grata sobretudo por eles terem confiado a ela a missão de alimentá-los.   Para quem nada sabia do ofício o progresso foi imenso…

     Com tantas rações, ou corrigindo, razões, ou melhor, racionalizações congeladas, Marcy gostaria de poder ir do frio ao calor, da sombra `a luz, “da noite para o dia”, sem paródias, e nos dois sentidos, ou seja, enquanto transição e imediatamente.   Aliás, se reconhecendo imediatista, gostaria de poder fazer isso no mesmo dia como o clima de sua cidade, São Paulo, que num só dia explicitava as quatro estações, infelizmente não aquela de Vivaldi como no concertos executados em elegantes praças de cidades européias.

     Curiosamente, ao caminhar por uma alameda envolta em reflexões, Marcy percebeu que enquanto estava ao sol, sobrevinha-lhe um afluxo de insights e quando as árvores faziam-lhe sombra, eles se dissipavam… 

      Aliás, naquela semana, enquanto se indagava se deveria ou não compartilhar com seu marido as percepções todas, Marcy mal havia “formulado” a dúvida quando, ao virar uma esquina, deparou-se com um veiculo de aluguel onde estava divulgado na lataria :  fale com fulano, telefone tal…    E o fulano, dono do veículo de aluguel era homônimo do marido dela, ou seja, mais explicita a resposta impossível…

       Dois dias depois, tirando o pó do consultório, antes dos pacientes chegarem, Marcy se percebeu cantando um refrão de música muito antiga que dizia : “levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”, e entendeu-o como um toque, um estímulo, para algo que deveria fazer a fim de realmente desvencilhar-se do passado.   Marcy queria muito deixar o passado egóico/abandônico, e mesmo a saudade que poderia ter dele, para entrar num futuro amoroso/acolhedor, sobretudo para passar a expressar efetiva e efusivamente seu calor humano e seu amor.

      Marcy queria colocar para fora, não no sentido de descartar, mas no sentido de expressar no mundo fenomênico, sua qualidade amorosa, sua afetividade, de modo a poder se dar através do sentimento aos outros.   Num português impróprio, incorreto, mas popular, ela queria colocar para fora o “dar”, ou o “dá”, para sair da sau-da-de  quer de uma onipotência ou de uma impotência infantil a fim de poder, através do movimento, entrar na saú-de, no saudável.

       Marcy havia tomado, em plena crise, um remédio homeopático chamado Ignácea Amara mas ao invés de ouvir Amara como amargo ela “ouviu” como amará, e concordou silenciosamente em vir a amar, em vir a ser, ou se tornar um dia um ser humano amoroso, fazendo chegar o ignáceo, ou antes, o ígneo, o fogo interno, `a tona e expressando-o, como o Etna, como uma pequena, minúscula e humilde Etna.

       E pensar que tudo pôde se revelar, pôde se descortinar quando Marcy decidiu expor para seu marido a dor de três distintos momentos na vida do casal onde ela quis lhe dar um presente e sentiu-se rejeitada, incompreendida, abandonada, desprezada, só e se fechou, tal qual havia se percebido naquela T.P..M..

        Primeiro quando ela engravidou do filho e ele mudou de personalidade, afastou-se e deixou-a só.  Na responsabilidade do dia a dia ele estava ali cumprindo com as obrigações do trabalho mas em casa apresentava-se num torpor esquizóide como se tivessem lhe roubado a alma.  Ele não estava inteiro, de corpo e alma e Marcy, naquela época, entrou na dor do abandono, na tristeza, mas teve que se fazer forte para atravessar a gravidez, o parto, os primeiros anos de vida do filho e também o encargo de seus dois enteados, ainda pequenos.   Ele impotente para amar e Marcy com as dores potencializadas.

       Segundo, quando Marcy ofereceu a seu marido a oportunidade de conhecer sua realidade profissional mais de perto.   Ela estava fazendo um curso de especialização e os workshops eram instigantes, atingindo o  mundo interno profundamente.     Ele exigiu que Marcy o interrompesse mas ela aplicou-lhe a técnica aprendida e ele não apenas deixou de implicar com o curso como resolveu cursá-lo posteriormente.

       Inicialmente Marcy achou ótimo mas algum tempo depois ela sentiu-se desconfortável pois ele havia resolvido “acumular funções” e além  de atender como médico passou a atender como terapeuta.   Marcy entristeceu ao perceber a postura de certo modo ávida da parte dele, e estranhou também o fato dele não querer passar por processo psicoterapêutico, tampouco por supervisão, itens obrigatórios na profissão de Marcy que entendeu aquele comportamento como onipotente sendo que ela sentiu-se impotente e esvaziada profissionalmente.

      Terceiro quando a família de Marcy comprou-lhes um novo apartamento e no processo de mudança  ele “sumiu”, “fechou-se” , “abandonou-a” com os encargos todos nas costas e ela se sentiu que mais uma vez ele estava se comportando como havia feito na gravidez, nas inúmeras vezes em foi “atender” a ex-mulher desesperada e arrependida por tê-lo trocado por outro, ou como havia feito um dia após o parto de Marcy, que não contou com ele no hospital, porque ele foi “socorrer” as crianças uma vez que a mãe biológica deles tinha se demonstrado perigosamente descompensada pois, em surto,  tinha invadido escandalosa e agressivamente o quarto de Marcy no hospital.  Marcy sentiu que não deveria palpitar a respeito mas teve sérias palpitações.

       Marcy naquele agosto queria reverter todo o mal estar, queria transmutar tudo aquilo através do perdão, queria sair da dor, sair do mergulho no sofrimento interno.  Marcy sentiu que precisava da energia do perdão, não em relação aos outros, porque isso poderia fazê-la sentir-se superior a eles, o que ela não desejava, mas do perdão a si própria até para não vir a vivenciar o perdão como uma grande perda, perda do aprendizado que as situações traziam, perda do relacionamento com o marido, perda do convívio com aqueles seres maravilhosos, perda daquela oportunidade…

      Marcy queria se dar aos seus no presente, generosamente, amorosamente, queria aceitar integralmente sua família como presente, nos dois sentidos : uma dádiva que a vida havia lhe dado e uma realidade do momento.  Marcy sentia-se muito grata por toda a experiência e lamentava não ter podido acolhê-los com serenidade naquela T.P.M. por ter ficado ensimesmada cultivando dores.   Mas se na dor ela havia retrocedido, mesmo regredido, e apresentado seu lado sombrio ao invés do luminoso por não ter reconhecido seus recursos superiores, ela tinha a firme intenção de superar-se, de sair da estagnação, de sair da subjetividade e voltar `a realidade numa atuação construtiva.   Marcy queria voltar – não para trás, não para as racionalizações, não para as suas respostas do passado, não para dentro num fechamento – mas no sentido de se ter volta, de retomar a vida e expressar sua integridade e sua capacidade amorosa.

         Marcy havia dito ao marido, no período de namoro, que queria ampliar sua capacidade amorosa.  Ele estava constrangido por ter tido dois filhos em outro relacionamento mas Marcy estava aberta, confiante, receptiva, e plenamente consciente de seu desejo de ampliar sua capacidade amorosa.  Marcy apenas não sabia que ela mesma resistiria tanto `aquela intenção, que mobilizaria tanta dor e dramaticidade em oposição `aquela intenção.  Marcy não fazia idéia das barreiras erguidas por sua raiva, por seu medo, por sua mediocridade.    Marcy não suspeitava que se demonstraria mais teórica do que prática.

       Marcy percebeu que não era só a mãe biológica de seus enteados que ia embora todos os anos para o exterior, ela também ia embora, só que para o interior, para o seu mundo interno, e ficava fechada, calada, contida, introspectiva, desanimada….     Animicamente ausente.     Marcy sentiu-se muito irresponsável e também sentiu-se praticando desperdícios e arrogâncias  ao fazer julgamentos acerca da mãe biológica de seus enteados…   E percebeu que enquanto “acusava” a outra “lá fora”  “recusava-se” a assumir integralmente a função de “mãe anímica” dos meninos…

        Marcy não queria-se mais parcial, queria-se integral, não queria mais a cisão corpo e alma, queria a união .

       Marcy não queria mais partir, nos dois sentidos : de dividir corpo para um lado e alma para outro, ou de ir embora para dentro, para a introspecção, para a subjetividade da dor, para o mundo interno.

    Marcy queria acordar nos dois sentidos : de estar de acordo com as tarefas de sua missão e de despertar para a realidade da vida.   Realidade essa aconchegante, acolhedora, não mais dura como ela insistia em percebê-la e como havia ficado, nos dois sentidos : de rígida, de resistente `a mudanças e de sem dinheiro.  Sim, Marcy foi ficando em dívida naquele mês com várias pessoas, claro, para sinalizar essa dívida maior para com seu projeto de vida, para com seus sentimentos, para com suas emoções, para com sua missão, para com seus familiares, para consigo mesma.

       Marcy queria reverter a situação, ou seja, ao invés de estagnação na divida, movimentação “di” vida, de vida, ou uma devida movimentação de vida.

       Marcy  iria pagar a divida para com seu supervisor e percebeu-se apta a saldar o compromisso com essa visão ampliada da vida, do ser, de si mesma, com a “super-visão” que havia tido naquela T.P.M. sobre si mesma, sobre suas posturas, sobre suas escolhas, sobre sua história de vida, o que se constituiu numa inter-visão .

     Marcy percebeu ainda que tinha múltiplos resquícios de uma super-visão do homem, não apenas porque via o mundo masculino em primeiro plano, como sendo o máximo, fenomenal, por ter “comprado” a ideologia machista reinante, mas também porque viu em determinado período os homens, a humanidade, como onipotentes donos do universo ainda que na adolescência tenha ampliado os conceitos e percebido o homem, a humanidade, como parte e não o todo da criação.

        Marcy via o aspecto entre Lua e Netuno de seu mapa astrológico como forte fator de espiritualidade mas percebeu naquela T.P.M. que aquela visão também era pretensão pois havia muito por desenvolver e por sair da ilusão.


  Marcy queria-se precoce

            Passou a querer-se prece

                           Sem apressar nada

                                      Para apreciar melhor a vida


      Naquele agosto, quando Marcy saiu da casa de uma amiga, ao ligar o carro constatou que no relógio digital a composição das horas com os minutos perfazia o ano no qual havia nascido. No primeiro farol, quando ela “bateu” o olho novamente no relógio ele marcava 20:01, o ano em que estava.   Marcy indagou-se se teria sido uma sinalização de atualização necessária mas duvidou que até o relógio do carro estivesse “conspirando” naquele sentido…

      Marcy se lembrou que desde jovem  havia aguardado o ano de 2001 com muita expectativa, por conta do filme “2001, uma odisséia no espaço”  e veio-lhe `a mente que seu filho estava lendo, a pedido da escola, o livro “Odisséia” de Ulisses.  Marcy havia planejado também comprar um carro novo em 2001 só para “batizá-lo” de odisséia, o que não aconteceu, mas certamente seu veículo físico, seu corpo/ego estava passando, naquele agosto de 2001, por uma verdadeira odisséia….

      Não por acaso o marido de Marcy havia retirado na locadora naquele final de semana o filme : “Um homem de família”.    Quando ele o colocou no vídeo Marcy disse-lhe já ter assistido a película no cinema.   Ele ficou  assustado, depois bravo e enciumado e Marcy, sem se lembrar com quem tinha visto o filme, quase agravou a tensão até recordar que tinha sido em janeiro daquele mesmo ano quando havia levado o enteado ao cinema.    Alivio geral para o mal estar que os egos criaram !!!   Alivio total para o ciumento ego do marido de Marcy.

      Marcy foi preparar o jantar enquanto o marido assistia o filme.

       Os enteados assistiram-no no dia seguinte, sábado de manhã, enquanto Marcy preparava o almoço, mas como ela havia ficado com vontade de rever o filme ela o levou para a casa de seus pais no domingo, dia dos pais, e eles assistiram juntos.

     No cinema Marcy não havia percebido que o filme fazia “um relato de sua própria vida”, de suas escolhas conscientes e inconscientes.

      O filme mostra a um casal de namorados a possibilidade de escolha : estágio no exterior, carreira de sucesso, retorno financeiro alto e ameaça de solidão para ambos, ou o abrir mão disso para construir uma família, filhos, um lar aconchegante, a companhia de parentes e amigos.

       Num primeiro momento a garota escolhe a segunda opção, o nós, o estar junto, a união, e pede que ele abdique do estágio e fique com ela mas ele escolhe partir para o estágio no exterior.   Escolhe o “eu” primeiro e o “nós” depois, sendo que o “nós” não acontece.  Ele viaja sozinho e cada um toma o próprio rumo na vida, o dele é ascendente profissionalmente e solitário.   Em determinado momento há um encontro especial, um teste, onde ele pode, em “sonho” , vivenciar, experimentar o que seria o outro lado da escolha, ou seja, como seria se ele não tivesse embarcado para cumprir o estágio ou se tivesse se arrependido e voltado.

      Com grande estranhamento ele vai experimentar a vida em família procurando se adaptar a essa nova realidade, contrastante sobremaneira com a anterior, e o faz graças `a orientação daquela que seria, deveria ter sido, ou é, a sua filha. 

      O protagonista do filme se adapta `aquela vida prosaica e passa até a gostar dela.   Sem ter perdido a consciência de sua realidade anterior, ele tem a possibilidade de levar essa família para aquele outro “modus vivendi” de sucesso profissional, o que sua mulher não aceita por ser contrária `a correria e desgaste de uma frenética cidade mas se dispõe a ceder optando mais uma vez pelo “nós”, mesmo consciente das perdas relativas `a qualidade de vida que tal opção acarretaria.   Naquele momento a campainha da casa/apartamento toca e ele, que estava vinculado `a família, imerso no ambiente familiar, desperta do sonho para a sua realidade de executivo bem sucedido, mas já não dá para ser o mesmo homem com a consciência onírica obtida.

      E ele, que foi dormir recusando-se a telefonar para ela, a ex namorada de treze anos atrás, acorda ( nos dois sentidos ) e a procura.  Ela havia entrado em contato porque queria devolver-lhe alguns objetos pois estava de partida para Paris.   Ela também, naquele momento, era uma profissional de sucesso que estava só. Mas ele a procurou porque passou a querê-la em sua vida, porque passou a desejar construir junto com ela a realidade de família vislumbrada no sonho.

       Foi ela então que naquele momento escolheu o “eu”, enquanto ele escolhia o “nós” e que, decidida, partiu para o aeroporto.   Quase embarcando ela cede mais uma vez e o escuta, o acata, fazendo prevalecer para os dois o “nós”, a família.

     É o que Marcy queria, o “nós” de eu, tu eles, nós todos, e não os “nós” das amarras, dos fechamentos, das trancas e travas de seu ego.

     Marcy havia tido oportunidade de sair do pais, de ir morar na Europa antes de casar e, `as vésperas de fechar contrato, seu eu interno ordenou-a a ficar e a indicar outra pessoa para ir em seu lugar.   Marcy obedeceu e inclusive viabilizou a saída da outra pessoa, tendo optado conscientemente por ficar no Brasil para fazer uma viagem interna de auto-conhecimento.   Ninguém na empresa ou na sua família acreditou que ela estivesse conscientemente “jogando fora” aquela oportunidade, mas corajosamente ela ficou.

      Não teria sentido ter ficado e não aproveitar para ficar verdadeiramente próxima das pessoas amadas. Marcy percebeu naquela T.P.M. que não queria mais ficar tão distante, tão ausente quanto achava que a mãe biológica de seus enteados ficava por morar no exterior, e se questionava porque teria demorado tanto para se enxergar…

       Que deslocada de espelho fantástica  havia ocorrido naquele mês de agosto !!!

       Bendita T.P.M. !!!!

       Necessária para quem menstrua, fundamental para que instrua !!!

       Marcy sentiu-se muito grata…     e deu as boas vindas a todas as T.P.M.s…   boas vindas a

   todos os deslocamentos de espelho…

      Marcy olhou a profissão de psicóloga como perfeita e iniciática para ela… e deu “vivas” aos deslocamentos de espelho…

      Marcy  sentiu naquele agosto toda a presença de seu amor e gratidão por Lacan…


 


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