Transpire Alma » Blog Archive » Aniversário no Caribe
     
 

Aniversário no Caribe


janeiro 16, 2010 Por Marcy


                                  “A questão é tornar visível

                             tudo o que se percebe secretamente”.

                                                   Paul Klee


        Em abril de 2002 Marcy foi levar o filho e os enteados na escola com uma vontade enorme de encontrar uma de suas amigas pois estava curiosa para saber em qual horário a amiga, comissária de bordo, iria sair de sua casa uma vez que ambas fariam o mesmo vôo para os EUA, uma combinação prévia que havia dado certo pois a amiga havia  solicitado com antecedência `a companhia aérea para trabalhar naquele vôo e fôra escalada. Marcy  viajaria para comemorar o aniversário de oitenta anos de seu tio, juntamente com vários familiares, num cruzeiro pelo Caribe.

       Marcy foi aguardá-la na padaria próxima `a escola e, enquanto esperava, decidiu comprar um pão croissant para levar para seu enteado pois sabia ser seu lanche favorito, porém, como não estivesse pronto comprou um pão de batata, também delicioso.

        Com muitos compromissos naquele dia de embarque Marcy estava com um pouco de pressa e quando já ia saindo da padaria encontrou-a em meio a outros conhecidos. Elas se abraçaram, confirmaram o encontro de logo mais `a noite no avião e começaram a tagarelar, num grupo de cinco pessoas, sobre diversos assuntos até que em determinado momento, enquanto combinavam fazer um curso juntas logo que retornassem, Marcy percebeu que a longa viagem que estava prestes a fazer, acompanhada no trecho aéreo por aquela amiga, não dizia respeito apenas ao vôo para os EUA, bem concreto, mas também a uma longa viagem para ampliar a consciência e conhecer novos mundos através de descobertas envolvendo o elemento ar, propiciadas pelo novo curso e sobretudo pelas trocas vivenciadas com a amizade.   Marcy havia sentido naquele momento uma significativa importância e muita firmeza na amizade de ambas, uma amizade para “grandes” e múltiplos “ vôos”….    uma amizade que iria longe…

      Marcy ficou imediatamente feliz, satisfeita, confiante, com os desdobramentos possíveis a partir daquele vôo, para a relação de amizade e para ela própria pois também percebia a transposição de uma fronteira física, de um pais para outro, como oportunidade para a transposição de fronteiras psíquicas, mentais, multidimensionais.   Para Marcy, todas as viagens que fazemos sintetizam, concentram préviamente, e portanto “revelam” o momento seguinte, o aprendizado subseqüente `a volta, ao retorno ao lar, ou seja, aquilo que ocorre de forma rápida, concisa, compacta na viagem encontra tempo para assimilação, no retorno, com situações, eventos e circunstâncias similares, quer seja, de mesma freqüência vibratória daquelas experimentadas na viagem.

      Marcy havia sentido, em meio `a conversa na padaria, que estava prestes a prosseguir -  na companhia daquela amiga  - em  diferentes sentidos, ou seja, no vôo daquela noite no qual viajariam juntas, feito pela “companhia aérea” na qual ela trabalhava, portanto na companhia dela em serviço, no curso que ambas haviam combinado fazer na volta, e na vida afora…

       O curso, livre, se constituiria mais num grupo de estudos sobre Saint Germain, o qual acabou não acontecendo por falta de quórum mas concomitantemente a amiga comissária convidou Marcy para praticar Tai Chi Chuan com um grupo que se iniciava, sendo que os efeitos estavam se demonstrando maravilhosos não apenas para as duas mas para todos do grupo.   Desse modo, a amizade de ambas, compartilhada também no Tai Chi Chuan estava flexibilizando-as e se solidificando ao mesmo tempo.

      Curiosamente a mestra de Tai Chi Chuan havia comentado em aula, dois anos após o frustrado projeto de estudos vinculado `a Saint Germain, que o responsável por propagar o Tai Chi Chuan no ocidente era justamente Saint Germain, pois, segundo informações esotéricas, ele estaria encarregado de inspirar  - a nós humanos - no processo de regeneração da Terra.     O peito de Marcy chegou a retumbar quando a mestra fez tal comentário pois ela imediatamente se lembrara daquele dia na padaria, e do “importante” curso que se anunciava através de insight, o qual Marcy, precipitadamente e no ego, tinha confundido achando que seria o grupo de estudos teóricos quando na verdade tratava-se da prática do Tai Chi Chuan.

      Mas retomando o encontro na padaria, Marcy estava meio que imantada na conversa, atenta apenas ao horário limite de sair para levar o enteado para fazer alguns exames médicos previamente marcados.  Marcy até queira ter voltado rapidamente para casa, inclusive deveria ter voltado mais cedo para ajeitar suas coisas, para lavar a louça, para arrumar as camas, para verificar as malas, mas sentia que tudo aquilo deveria ficar para depois pois o momento estava aberto para aproveitar as boas companhias e degustar as conversas.

      No momento limite de ir embora Marcy se lembrou de verificar se havia pão croissant no balcão, e claro que com tanto bate papo o croissant ficou pronto e ela pôde levá-lo para o enteado.

      Tudo estava fluindo `as mil maravilhas, num dia atribulado, intenso, e com muitos afazeres para deixar a vida organizada em função da viagem.

      Havia chegado afinal a hora de partirem para o aeroporto…   Quando Marcy pegou sua bolsa de mão ela sentiu necessidade de verificar se tinha pego os passaportes certos, ou seja, os mais novos, já que não jogava fora os vencidos.

      Ao abrir o passaporte do filho ela constatou que a data de vencimento estava prescrita.  Inacreditável.   Marcy tinha verificado todos em janeiro….    Nervosa, ela revirou toda a pasta para ver se não tinha pegado o passaporte errado, o mais velho, mas não, aquele era o passaporte mais recente mesmo e estava vencido, ou seja, seu filho não poderia embarcar.  Marcy estremeceu…

      Como o taxi já estivesse na porta Marcy pegou todos os documentos dele, fotos, tudo o que lhe vinha `a lembrança, na esperança de fazer outro passaporte naquela sexta-feira `a noite na policia federal do aeroporto.   E a família se dirigiu ao aeroporto acionando ajuda a partir de três celulares : amigo da policia federal, amigo chanceler, parente diplomata, parente ex-adido consular…  e todos informavam que eles talvez até conseguissem sair do pais mas não conseguiriam entrar nos EUA

      O amigo da policia federal contou inclusive que a tia dele havia levado a família para comemorar o aniversário em Nova York e que ela, a aniversariante, ao chegar ao aeroporto de lá foi barrada pois seu passaporte estava vencido.  Ela foi obrigada a retornar ao Brasil para providenciar outro passaporte e dias depois embarcou novamente rumo aos EUA para se reunir com os seus parentes que a aguardaram em Nova York para a comemoração.

       O parente ex-adido consular contou que a sua filha não pôde levar o filho uma ocasião para o México pois descobriu, já no aeroporto, que o passaporte dele estava vencido.  O casal teve inclusive que carregar as malas do filho por toda a viagem pois elas já tinham sido despachadas quando o passaporte foi verificado.

      Marcy sentiu certo consolo em saber que não era a única no planeta a fazer uma bobagem absurda como aquela, mas ainda assim não conseguia entender como tinha podido acontecer tal fato se ela havia tido o cuidado de verificar em janeiro a validade do passaporte.  Alem disso, Marcy sabia-se membro de uma família que verificava tudo com todo o cuidado múltiplas vezes, `as vezes beirando `a obsessividade, mas sempre na busca por tranqüilidade, e não sossegou enquanto não esclareceu para si própria o que a teria “cegado”, o que a teria confundido.  

      Na sala de embarque ela se deu conta do ocorrido : como eles iriam viajar para o exterior já em janeiro ela pegou o passaporte do filho no segundo dia do ano e, sem “atualizar” a mudança, a “virada’ numérica do ano, como ocorre `as vezes nos preenchimentos de cheque em janeiro nos quais se data com o ano anterior, ela simplesmente olhou o mês e o ano e concluiu que o passaporte teria mais de seis meses de validade.   Ela havia inclusive registrado mentalmente a necessidade de providenciar outro passaporte para ele mas no segundo semestre já que no vencimento constava setembro.

      Como a viagem para o exterior em janeiro não havia dado certo, eles acabaram fazendo um passeio pelo nordeste brasileiro e não  precisaram, é claro, do passaporte.   Quando surgiu a nova viagem Marcy nem verificou o passaporte porque já os tinha registrado mentalmente como válidos para aquele semestre.   Erro !  Erro !  Erro ! E Marcy não se conformava com o fato do filho ter tido que arcar com o erro dela.   Não se conformava com o fato dele ter tido que ficar.   Não aceitava o fato de não ter se equivocado com o passaporte dela e sim com o dele.

        Marcy sabe que tem errado muito na vida, reconhece o valor do erro para o aprendizado e constata que o Universo se mostra sempre compreensivo e paciente para com ela e seu moroso ritmo, daí sua surpresa e seus questionamentos :  Por que o Universo não estava se demonstrando condescendente para com seu filho ?  Por que fazê-lo “pagar” pelos erros dela, pelos lapsos dela ?   Os erros e equívocos eram dela, não dele !  Marcy ficou sem entender por que ela poderia ir viajar e ele não …

        Ela sabia não se tratar de castigo até porque, logo que começou a trabalhar com astrologia aprendeu que o Universo é magnânimo, compreensivo e nunca castiga.   Aprendeu que nos são oferecidas sempre criativas oportunidades de regeneração perante o Todo e perante a nós mesmos.   Castigo, punição, Marcy vê como construção, interpretação e criação nossa, (des)humanos que somos.

        O mapa astrológico que ofereceu esse aprendizado `a Marcy era de uma garota muito inteligente e também muito ambiciosa que, no passado, numa vida anterior como homem, havia buscado vorazmente o sucesso financeiro tendo adentrado na política.   Quando conquistou o cargo almejado não fez nada do que prometera aos seus eleitores, só quis se locupletar, ou seja, em função de seus objetivos, na verdade pessoais e não coletivos, mentiu, enganou, iludiu muitas pessoas.

        `A medida em que Marcy ia entrando em contato com aquela trajetória, revelada pelo mapa astrológico, como ainda era jovem, estudante de engenharia e portanto pautando-se sobremaneira em sua mente lógica/racional, recém rompida com a religião na qual fora criada e com vários conceitos religiosos ainda por desarraigar, plena de idealismos que a mantinham numa revolta sócio-politica, ela foi logo “castigando” a cliente, foi logo desejando o pior para ela, foi logo desejando que morasse embaixo de uma ponte para “sofrer” como achava que seus pobres eleitores haviam sofrido.   E qual não foi a surpresa de Marcy - ao continuar confeccionando o mapa e portanto antes de conhecê-la pessoalmente – ter descoberto que ela fora recebida nesta existência por uma família abastada e generosa porque o Universo não queria que ela continuasse a sentir as angustias de frustração material que acarretaram a distorção no caráter e o comportamento profissional displicente e anti-ético da vida passada.

        Marcy inicialmente não se conformou com o fato dela ter feito o que fez no passado e de certo modo estar sendo recompensada …   Marcy não conseguia entender…   Os dendritos dela pareciam querer entrar em sincope !!!   As sinapses de Marcy pareciam estar formando nós !!!   Foi difícil, dificílimo, “dificilíssimo”, encaixar dentro de Marcy, naquele momento de sua trajetória , a “nova lógica” que abolia o castigo.

      Marcy ficou inicialmente inconformada mas prosseguiu o estudo do mapa que indicava que nesta vida sua cliente iria trabalhar com crianças pois o Universo colocaria em suas mãos seres tão ingênuos quanto foram seus eleitores do passado a  fim de que ela se demonstrasse confiável e pudesse assim resgatar a confiança em si mesma, dos demais, e nos demais, a qual havia perdido por ter mentido, enganado, iludido.

      Respeitando o livre arbítrio, ao se dedicar ao propósito da alma, ela poderia reconquistar a auto-confiança e vivenciar profundamente a vida e a espiritualidade, caso contrário, se repetisse o modelo egolátrico e anti-ético do passado, a sua própria auto-confiança ficaria comprometida e ela poderia vir a fazer uso de drogas, as quais lhe proporcionariam de imediato mais “nóia”, mais “bode” e menos “viagem”, menos “prazer”, do que para seus amigos, o que foi por ela confirmado pois ela já tinha experimentado as drogas quando Marcy a atendeu.

      Respeitando o livre arbítrio também, caso não cumprisse com a trajetória, com a missão, com o aprendizado necessário de desenvolver o emocional e aprimorar o caráter, ela permaneceria ingênua afetivamente e as pessoas que se aproximariam dela estariam mais interessadas em seu dinheiro do que em formar laços verdadeiros, ou seja, ela poderia talvez vir a ser enganada, poderia talvez vir a experimentar, no setor afetivo, aquilo que havia praticado no passado no setor profissional.

       Marcy procurou esclarecer para ela que tal desfecho não se constituía numa sina, num destino, pois não necessariamente, não obrigatóriamente, seria acionado já que ela poderia tranquilamente passar ao largo desse tipo de resultante e vir a se unir com alguém de caráter, de fibra, e muito verdadeiro em seu amor, desde que ela expressasse para o planeta a sua  regeneração, desde que manifestasse no planeta a verdadeira intenção de sua alma, sem as distorções que o ego já havia lhe “imposto” na vida anterior. 

      Parece que o mapa completo, com várias outras informações foi muito bem recebido por ela, e por toda a sua família pois Marcy acabou atendendo a todos daquele grupo familiar, inclusive seu irmão, cujo mapa revelava ter sido uma pessoa que em outras vidas havia feito uso de apropriações indevidas, de ações furtivas, de desonestidade e roubos, aliados `a mentira, e `a dissimulação para a satisfação de seus caprichos.

      Para “ tranqüilizá-lo “, assim como `a irmã, frente `as angustias de frustração material, o Universo havia permitido a encarnação num lar confortável, abastado, generoso, mas para instigá-lo `a transformação proporia um aprendizado baseado na distinção entre a satisfação interior, que ele tanto necessitava, e a satisfação inesgotável de seus desejos materiais  que no entanto não lhe trariam um bem estar interno, tampouco  amizades fiéis.

       Com as emoções afetando seu sentido de propriedade, e vice-versa, quando prevalecesse a insegurança ele tenderia a se demonstrar ciumento, caprichoso e possessivo com relação a seus bens e aos entes queridos, e quando sentisse falta de atenção e afeto, ou se sentisse preterido, ficaria irritado, inseguro, emocionalmente instável e, mesmo tendo sido recebido num lar generoso e abastado, a fim de não mais sentir necessidade de adotar posturas ilícitas, poderia manifestar cleptomania, o que foi confirmado por seus pais.

     Tímido, retraído, ele sentia dificuldade em lidar com as pessoas mais intimamente e pouco disposto a se colocar inteiro nos relacionamentos.  Essa postura de “ procurar se esconder “ estava relacionada a um profundo arrependimento frente `a frágil resposta prática `as suas emoções em vidas anteriores, o que estaria se traduzindo impropriamente na vida prática da encarnação atual por uma “ vergonha “ inconsciente e difusa que o fazia ter receio indevido de se expor, de expor suas emoções e sentimentos.

       O mapa o fez lembrar que sua necessidade de auto-controle deveria ser dirigida apenas `aquele aspecto de auto-indulgência ocorrido no passado a fim de que ela não mais voltasse a se manifestar, e não ao “ todo ”  de seu ser, senão se traduziria, com relação `as vivências desta encarnação, por auto-repressão comprometendo sua espontaneidade, sua naturalidade, e consequentemente seu bem estar em meio aos demais.

      Alem disso, a repugnância aos erros do passado ( presente no subconsciente desta encarnação ) não deveria ser traduzida por um perfeccionismo obsessivo e extremamente incomodo para ele mesmo.

      Ele também não deveria permitir que sua enorme vontade em acertar se traduzisse simplesmente numa grande necessidade de impressionar os outros através de sucessivas exibições de competência pois isso poderia torná-lo antipático,  e mais isolado ainda, quando na verdade ele queria ser competente no sentido de bem cumprir as suas tarefas cármicas, frente ao Cosmos e `a sua eternidade, e não para demonstrá-la como auto-afirmação sobre os demais no nível mundano, terreno, tão somente, senão se tornaria um técnico altamente especializado em sua área porém misantropo, alheio ao convívio social, melancólico e alvo de “bulling”.

      Mas, retomando a viagem ao Caribe, mesmo diante da ausência de culpa com relação `a impossibilidade de seu filho embarcar, Marcy no entanto, sabendo-se responsável, tentava encontrar a lógica daquele seu equívoco e foi procurar em seus arquivos a reconstituição do projeto inicial da viagem.

      Logo que surgiu a idéia da comemoração do aniversário de seu tio numa viagem, Marcy havia pensado em ir só com o marido uma vez que a turma toda de sua casa estaria em período de aulas.   O marido de Marcy falou em irem todos mas lembrou-se da “grana” que eles não tinham para gastar pois estavam com duas dívidas, uma de compra de imóvel, outra de viagem pelo nordeste brasileiro.  Ambos desistiram então de ir, pararam inclusive de  falar  a  respeito pois se conscientizaram de que não tinham dinheiro sequer para “unzinho” deles ir.

      O entusiasmo era sempre muito grande quando se falava em viagem na família de Marcy mas eles colocaram os pés no chão pois as dívidas não eram pequenas.

       O tio de Marcy, porém, sempre muito generoso, antecipou-se ao telefonema que ela lhe daria naquela noite comunicando a necessária desistência e colocou-os como seus convidados, ou seja, ele ofereceu a viagem para a Marcy, para o seu marido e para o filho do casal.  

        Nossa !!!!   O aniversariante era ele mas Marcy e seu pequeno núcleo é que estavam ganhando um presentão….       Formidável, bárbaro, incrível,  pensou Marcy.

     O sim inconseqüente dos endividados, que se transformara num conseqüente não, voltava a ser sim e consequentemente o casal ficou eufórico….

      Internamente Marcy sentiu que se seus enteados não fossem, alguém mais não iria.   Marcy teve um insight, digamos, de inclusão…      A seguir ela raciocinou e racionalizou que se não fizesse algo a favor da inclusão  alguém poderia, por exemplo, vir a ter problemas de saúde `as vésperas da viagem e, dependendo da gravidade, isso poderia implicar numa desistência na última hora.

        Marcy estava, naquele período, com dois aspectos astrológicos indicativos de que o inesperado, as surpresas  - agradáveis, como o convite, ou desagradáveis – poderiam ocorrer, e assim sendo ela ficou ligeiramente preocupada, com receio de algum incidente.

      Marcy queria que seus enteados também fossem e estava confiante em conseguir levá-los pois, em outra ocasião, na qual seu marido não quis levar as crianças Marcy insistiu em que fossem e deu certo, todos se divertiram muito nos parques da Flórida, mas naquele ano, com as dívidas acumuladas Marcy conseguiria ajudar, e ainda assim muito parcamente, na passagem de apenas um deles.   Seria necessário, fundamental, para que o casal  conseguisse leva-los,  que a mãe biológica deles ajudasse financeiramente mas eles não haviam conseguido contato com ela a tempo de comprar as passagens e além disso eles se lembraram que ela tinha ligado para o ex-marido no mês anterior dizendo que estava sem dinheiro, em contenção financeira, e sequer contribuiria nos meses seguintes com a modesta ajuda que poucos meses  antes tinha concordado em fazer, ou seja, não teria solucionado a questão tê-la encontrado.

       Marcy sugeriu ao marido levar pelo menos um de seus filhos do casamento anterior, o que ele rechaçou por não admitir, digamos, a separação deles, mas Marcy ainda insistiu no seu palpite pois, diferentemente dele, ela acreditava que os pais muitas vezes podiam proporcionar vivências, experiências e oportunidades diferentes para seus filhos.  Na visão de Marcy a própria vida  estava encarregada de fazer isso e a diversidade seria possível até porque cada filho tinha uma diversa idade num mesmo momento de vida.   Cada um era um. Inclusive numa viagem da família para a Disney o menino preferiu ficar na casa de uma amigo, claro que tendo se arrependido posteriormente mas justamente por esse fator Marcy estava achando justo levá-lo naquela oportunidade, mas seu marido discordou porque a irmã menor não estaria ficando por opção, como foi o caso dele. E assim sendo, por não ter desejado separá-los ele decretou que ambos ficariam.

     Marcy argumentou que até mesmo aquela sua amiga, comissária de bordo, impossibilitada de levar todos os familiares ao mesmo tempo para o exterior, ora levava um de seus filhos, ora outro, ora o cônjuge, ora sua mãe.  Mas o marido de Marcy estava irredutível e os enteados dela tiveram que ficar para “fazer companhia um para o outro”.

       Num misto de apreensiva e intrigada Marcy acionou os preparativos para a viagem.

       O insight que revelara que um deles ficaria acabou se confirmando na figura do filho de Marcy devido ao seu equívoco, `a sua desatenção relativa ao passaporte.   Felizmente foi um incidente, não um acidente.

          Incrível é que Marcy havia sonhado 3 meses antes com um avião que, após percorrer em aceleração máxima a pista inteira, não decolava, revertia as turbinas e dava um “cavalo de pau”.

       Marcy sabia, em alguma instância, que não significava uma referência a algum acidente tão explicito assim, mas é claro que quando ela se lembrava do aspecto astrológico em trânsito por seu mapa naquele período, surgia-lhe apreensão, seguida de várias indagações e certa ansiedade.

      Naquela sexta feira, dia do embarque para o Caribe, Marcy percebeu que o avião que não decolou foi “o de seu filho”.  Percebeu também sua responsabilidade no desenvolvimento dele, e seu potencial de “avião”  que poderia ficar na pista e agir como um carro, como num outro sonho que havia tido no qual o avião, no ar, seguia uma estrada rodoviária, ou seja, fora feito para ter autonomia no ar e ficava restrito `as limitações dos caminhos terrestres.  Marcy não queria nem a ela nem ao filho como “aviões” em risco de atuarem como carros…

      Marcy não queria ser responsável por tão gritante defasagem entre o potencial e o que poderia vir a se efetivar em seu filho.  Marcy queria alterar nela o que quer que pudesse vir a prejudicá-lo.  Marcy não queria que ele viesse a repetir seu estéril histórico…

      Marcy estava se sentindo mais uma vez retrógrada e altamente viciada na química do ego, uma pessoa que entrava em crise de abstinência quando se percebia ligeiramente mais amorosa e não queria mais hesitar em amar para não comprometer definitivamente o êxito desse seu propósito.

       Marcy percebeu precisar do novo, precisar se renovar, se soltar, se libertar de algumas ou muitas idéias impregnadas. Percebeu precisar agir efetivamente de um novo jeito.

       Marcy precisava encontrar um meio de levantar vôo.

       Marcy precisava ficar mais descolada do ego para decolar com a alma e não levar uma existência deslocada

         Marcy sentiu que precisava atualizar-se perante seu moderno e avançado filho, perante seus modernos e avançados enteados…   Ou ela “corria” atrás dessa atualização ou perderia a viagem que o futuro estava se prontificando a lhes oferecer…

      O passaporte para o futuro que estava vencido era o dela. Ou ela se atualizava ou não decolaria…  Ela, aliás, já não havia decolado profissionalmente como engenheira pois havia desistido da profissão…

       E talvez não tivesse mesmo que decolar profissionalmente mas devesse ser a pessoa que auxilia o embarque dos passageiros pois não apenas a primeira firma na qual  havia trabalhado levou seus profissionais de volta para o exterior, como também a maioria de seus clientes de astrologia foi morar no exterior, a mãe biológica de seus enteados também foi morar no exterior, ou ainda seus pacientes de psicologia eram na maioria estrangeiros ou moradores de outros estados e embarcavam de volta a seus lares., ou seja, bastava alguém se aproximar ou ter contato com ela que um tipo de embarque ou outro acontecia..

      Marcy sentiu que precisava se situar melhor profissionalmente, como uma amiga que foi se profissionalizar em marketing no exterior, voltou ao Brasil, tentou seguir carreira na área sem obter sucesso até que se dirigiu `a marchetaria, ou seja, apenas uma letra a afastava da satisfação profissional pois de “marqueteira” ela passou a ser “marcheteira”.  Ou como outra de suas amigas que começou a vida como promotora pública, sentiu-se insatisfeita, e tornou-se posteriormente uma feliz e bem sucedida promotora de eventos…  Ou como um de seus clientes de astrologia que, em vidas anteriores foi um capitão de tropas e que nesta vida, com o intuito de aprender a controlar a impulsividade, o arrebatamento, a agressividade, e também com intenção de aproveitar suas qualidades de iniciativa, combatividade e sua aptidão desportiva se tornaria um profissional da educação física com atuação como técnico desportivo.  Na transição entre o exército e o exercitar-se, ao contrário de vidas passadas,  ele aprenderia a assistir uma disputa sem se lançar irrefletidamente no embate em prol de um dos lados.  Ao invés de se inflamar logo de imediato, aprenderia a analisar qual a melhor estratégia para vencer a equipe adversária, aprenderia a não instigar uns contra outros, mas a incentivar o respeito aos adversários, aprenderia a comandar não com base na violência mas sim na tolerância, aprenderia a abrir mão do excesso de exigências que cortava o animo de seus subordinados, procurando tornar-se mais  acolhedor de forma a passar a lhes transmitir o ardor do entusiasmo, ou seja, o beligerante do passado deveria dar lugar ao apaziguador nesta vida a fim de conquistar a

 união de sua equipe em prol de objetivos comuns sendo que os confrontos com adversários não mais envolveriam mortes e sim apenas pontos, medalhas, troféus…   O esporte proporcionaria a ele um redirecionamento construtivo para uma energia a principio aplicada equivocadamente na destruição, como aliás, visa proporcionar a todos que o praticam…

       Outro cliente de Marcy esclareceu-a acerca também de equívocos pois, com acentuada agressividade escolheu, em uma de suas vidas anteriores, ter como foco, como alvo, o aspecto animal interno que o tornava tão violento mas, uma vez encarnado, respondeu através da concretude e acabou adotando como alvo os animais, tendo se tornado um fanático caçador por prazer e não por necessidade de sustento.   Com isso adquiriu um carma relativo aos animais sendo que, na vida atual, ele poderia vir a ser mordido ou tornar-se presa dos animais caso voltasse a caçá-los, ou a destratá-los, mas o mais provável era que adotasse o tiro ao alvo como prática esportiva a fim de aproveitar a aptidão anterior sem liquidar vidas, cujo treinamento contínuo deveria ajudá-lo a vir um dia a acertar, ou a se orientar para o alvo necessário, o interno, para finalmente transformar, modificar, suas respostas impulsivas, impetuosas e instintivamente agressivas.

      E talvez Marcy, com sua capacidade para estimular as pessoas a atravessarem fronteiras, precisasse aprender a lidar mais concretamente com isso decidindo se deveria trabalhar numa agência de turismo, no aeroporto, ou até mesmo no departamento de emissão de passaportes…

        Mas o vôo, concreto, da aeronave que a levaria, juntamente com seus familiares, aos EUA naquela sexta feira `a noite saiu com atraso de mais de uma hora, saiu já no dia seguinte,  sendo que a amiga comissária de bordo, sem saber do sonho dela, contou-lhe que por muito pouco o avião  não decolaria.

      Por questão de minutos o piloto e o co-piloto estariam abandonando a aeronave e cancelando o vôo, ou seja, não decolaria o avião, não decolaria ninguém.  Isso porque, em função da contenção de despesas a companhia aérea havia escolhido o esquema simples para o vôo, ou seja, só com um piloto e um co-piloto sendo que havia o esquema triplo e mesmo o quádruplo para permitir o descanso dos pilotos nos vôos mais longos. 

       No caso do vôo simples o piloto tinha que ter maior número de horas de vôo comprovando sua experiência e o pessoal de terra estava demorando a fazer a contagem o que estava atrasando a autorização para a decolagem.   O piloto era, digamos, semi-novo, e as horas voadas estavam no limite, no limite !!!  Eles contaram e recontaram várias vezes.  Felizmente o piloto ( semi-novo ) conseguiu autorização e fez decolar o avião .  Mas o sonho de Marcy esteve presente ali mais uma vez pois quase ocorreu um simbólico “cavalo de pau”, ou um “aborto” do vôo já com todos os passageiros a bordo.   E desculpe  leitor se abordo insistentemente sonhos mas reporto-os incrivelmente ricos, esclarecedores e reveladores para serem ignorados.

     Durante o vôo, enquanto a maioria dos passageiros dormia Marcy ficou batendo um super papo com sua amiga comissária de bordo e se por um lado a ajudou a servir os passageiros por outro a atrapalhou pois ela se atrasou para fazer o relatório de vôo.   Na cabine de serviços, entre os comissários, Marcy se lembrou de outro sonho no qual estava num avião e não sabia qual era o lugar dela, se de passageira ou de tripulante.  Havia interpretado anteriormente que na vida não sabia mesmo direito seu papel em relação `a tudo, a todos, ou mesmo ao Todo.    Com relação aos enteados, por exemplo, Marcy nunca soube se seu papel era de mãe de criação devido `a ausência da mãe biológica, mas ela estava viva e cabia portanto `a Marcy alguma contenção, se era de madrasta porque de fato não era a mãe verdadeira, mas como ficavam com ela o tempo todo com múltiplas solicitações Marcy não se sentia apenas uma madrasta, se era de anfitriã porque eles não eram seus parentes e sim de seu marido, portanto de certo modo hóspedes, se era de pai em função de suas características pessoais de atitude, presença e autoridade, inúmeras vezes suprindo o vazio deixado pelo pai biológico deles, enfim, um verdadeiro “angu de caroço” para quem carecia de definição como Marcy…

        Aliás, Marcy sempre se sentia deslocada, fora de contexto, sem lugar, sem pertencimento, sem papel definido, pois tendia a ser boa em tudo o que se propunha a fazer mas adequada para nada…   Talvez uma generalista que agia algumas vezes de forma “generalesca”…      Uma espécie de “pau para toda obra” que `as vezes sobrava como entulho…

       Marcy nunca conseguia “pertencer” a grupo nenhum.    Entrava, conhecia, participava e “de repente” via-se fora,  ficando avulsa novamente.    Sempre independente, Marcy apenas circulava entre as ‘panelinhas”…   sem ser mini “chef de cuisine”, ou de coisa alguma…    Marcy poderia inclusive ser definida não como célula de um órgão, de um organismo, que se identifica com uma função, e que a cumpre juntamente com as demais que são similares, mas talvez como liquido intersticial que circula por todo o corpo e que encontra apenas outros líquidos intersticiais que não têm parada…

        Mas `a parte essas duvidas intersticiais, existenciais, ou resistenciais, que talvez nunca sejam liquidadas, Marcy percebeu que o sonho também fora, digamos assim, “premonitório” pois estava se materializando naquele momento de “serviços” prestados via amizade com a comissária de bordo.

      Aliás, a amiga comissária fôra super gentil pois, para melhor servir Marcy e seus familiares havia trocado com colega daquele vôo sua posição de chefia na primeira classe e foi atender a classe turística.  Sempre muito amável ela comentou que gostava mais de ir lá atrás no avião porque os colegas eram mais simples, menos petulantes do que aqueles que serviam a primeira classe por terem sido promovidos na carreira.

       Marcy decidiu se mirar no exemplo da amiga e tentar trocar de posição na vida em prol da família, em prol dos demais,  no sentido de deixar a pretensão, a petulância de seu ego, o que desde a “primeira classe”  desta vida ela estava tentando fazer pois gostaria muito de servir melhor a todos.   Aliás Marcy frequentemente se perguntava quando seu ego lhe permitiria reconhecer, na prática, o axioma de que mais se beneficia quem melhor serve ?  Quando seu ego iria perceber que o pedaço menor era o mais saboroso ?

      Marcy sentiu ali, naquela ocasião, que deveria se deslocar para “decolar”, ou seja, que teria que deslocar o ego da frente para trás, teria que fazer dele um motor de popa para a alma e assim, ao invés de deixá-lo na frente, na proa, no sentido mesmo de “presunção, vaidade, basófia”, fazê-lo atuar como popa, ou seja,  com humildade.   Deixar o ego se deslocar para a popa certamente iria poupar Marcy de muitos equívocos e precipitações…

      Envolta naqueles pensamentos Marcy lembrou-se da revolução solar de uma cliente, dubladora por  profissão, que precisava abrir mão do sucesso obtido em vida passada como atriz para cuidar, como mãe, de sua família.   A revolução solar dizia que gravidez de seu segundo filho, a acontecer naquele ano, seria de alto risco demarcando um momento de decisão fortíssimo dessa vida atual pois ou ela abriria mão da ambição e do orgulho que a levavam a trabalhar demais em prol de reconhecimento  almejando “mais uma vez” vir a ser a atriz famosa que já tinha sido no passado e só conseguindo dublagens para o sustento de modo a se dedicar mais `a família, ao lar, aos filhos, como mãe, na contramão mesmo da libertação feminina, ou perderia, num triz, o bebe e talvez também a vida uma vez que a astrologia revelava a possibilidade de ocorrer eclampsia.    Aliás, a revolução solar revelava ainda que se ela decidisse rever sua postura, e atualizar a rota, se dispondo a ficar na retaguarda, seu marido  - desempregado, desesperado e embriagado -  encontraria emprego e reassumiria assim sua força, sua capacidade, sua virilidade, seu animo.  Mas se ela se repetisse, de uma vida anterior para esta, insistindo num saudoso passado, eles perderiam a criança e o marido se perderia no vicio da bebida. 

        Se ela conseguisse mexer no ego a fim de fazer a mudança de padrão, a fim de fazer a mudança para o novo, a fim de dar vida ao em si mesma, seu bebe não apenas nasceria sem riscos como também poderia vir a se tornar famoso pois ao abrir mão da fama ela oferecia então para outrem a oportunidade que já tivera, da qual já usufruira.  Ela deveria se desapegar da fama nesta vida para inverter seu papel na pirâmide,  ou seja, para, já tendo experimentado o topo, experimentar a base.

       E Marcy sentiu reverberar nela as lembranças daquele atendimento astrológico confirmando a necessidade de ficar na retaguarda a fim de que seu filho e seus enteados pudessem decolar na vida em direção não `a fama, no caso, mas `a cota particular de cada um relativa ao sucesso pessoal e profissional.

       Marcy pensou a seguir em seu psicoterapeuta e no quão significativas poderiam vir a ser as sessões na volta da viagem…     Aliás, ela havia comentado com ele, antes da viagem, que instigada ou inspirada pela defesa de tese de mestrado de seu marido ela estava pensando em também fazer mestrado para se obrigar, através das exigências de um orientador e de prazos, a sentar para escrever um livro.  Mas Marcy sabia que não queria  de modo algum apresentar um texto formal, acadêmico.   Reconhecendo-se `as vezes tesa, no sentido áspera, e sobretudo destituída de créditos, Marcy percebia que não conseguiria escrever uma tese apesar do tesão que sentia ao escrever.

        Mesmo assumindo sua avidez pelos escritos Marcy incompatibilizava-se com teses desde a juventude.   Na faculdade havia recusado convites de alguns professores que se ofereceram como orientadores, inclusive frente a um deles especificamente o fez com acidez corrosiva pois além de ter sido informada que ele buscava se envolver não apenas com as teses de suas alunas percebeu logo que ele estava sentindo e desejava despertar nela o aumentativo de tese a fim de ampliar os conhecimentos de Marcy em outra área…

      Fantasia de mestranda Marcy nunca havia tido, nem projeto, sonho ou ideal, portanto ela nunca havia dado passos nesta trilha acadêmica, até porque só conseguia se reconhecer como amestrada, seja no sentido ( desculpem o fórceps lingüístico ) de não mestranda, seja no sentido de adestrada, de domada, de domesticada, e portanto de alguém que admite ter sido vencida e subjugada pelo sistema, e que por ter sido indomável na juventude encontrava-se naquele momento na condição de ex-fera também pelo fato de não ter conseguido sair de uma pequena esfera ou, voltando do tri para o bidimensional, de um restrito circulo de atuação.

       Aliás, Marcy sentia-se pender mais para o título de degradada do que para o de pós-graduada, o que de fato era, mas longe de pertencer ao lixo como também ao luxo, sentia que deveria continuar como lixa, ou seja, apenas uma pessoa abrasiva, `as vezes abusiva, que não sabe escrever ficção, nem sobre facção, muito menos a respeito de fixação, e assim sendo só pôde mesmo ter escrito essa obra de fricção.

      Marcy sempre convive com a sensação de ter que “correr” por fora do circuito oficial.  Seria nula sua vocação para a oficialidade ?  Por que “off road” em geral ?  Por que sua resistência e/ou insistência em ir logo para o extra-oficial, para o universo paralelo ou marginal ?  Será que porque em São Paulo tem-se um cinturão de vias marginais alguns munícipes têm que ser marginais de um ou de outro modo, literal ou figurativamente falando ?

        Nem o “guru” de Marcy terá cara, roupa ou aparência de guru, conforme anunciou seu trânsito planetário para os próximos meses, ou seja, ela já foi avisada de que o(a) guru  ou mestre(a) não será alguém óbvio, trajado “comme Il faut”.     Mas será possível ? ! ?  Nem o(a) guru, que digamos, já “corre” por fora da oficialidade, chegará até ela “oficialmente”  como tal !!!

       É certo que Marcy detesta obviedades…    Piada que ela já deduz o fim nos minutos iniciais é comum e aí ela, como todos nós, não acha graça pois não se surpreende.   Marcy sente-se até séria demais, perdendo oportunidades de soltar risos gostosos como o fazem sua mãe e seu marido, que amam os pastelões.   Mas o que fazer se para Marcy são previsíveis e insossos ?   O que fazer se `as vezes de fã dos textos Marcy se deixa cair  no afã dos testos ?   Haveria meios dela se afastar desse contexto contestável ?

       E se Marcy não gosta do óbvio possivelmente o Universo está certo em brincar de disfarces com ela..     “Ele” complica um pouco para temperar, para dar sabor, e tornar interessante e instigante para ela.

       O avião estava enfrentando muita turbulência e Marcy, no receio, no medo, questionou internamente quanto a terem entregue a aeronave para um piloto novo, inexperiente, mas ela escolheu confiar em  que ele saberia conduzi-la e naquele instante ela percebeu que era seu desejo entregar também  - tal qual a companhia aérea – a pilotagem de sua casa, se não para os mais novos, para não incorrer em temeridade, pelo menos para o novo que poderia brotar de dentro dela devido a mudanças de posturas.

      Marcy sentiu que precisava confiar no novo…   E lembrou-se que havia “entregue” a casa aos cuidados dos três jovens que  tinham ficado no Brasil.    Haveria “turbulências”  por lá também ?   Certamente que sim…    mas eles iriam lidar com elas, iriam atravessá-las e ganhar maturidade com a experiência.

      Naquele momento Marcy lembrou-se do tio aniversariante, pessoa que soube decolar na vida ainda que tenha tido que enfrentar sérias turbulências…  Exemplo de ser humano entre amigos, em família e na sociedade, ele era parâmetro de idoneidade e referência de sucesso profissional com reconhecimento internacional.      Marcy havia presenciado inclusive algumas das muitas homenagens que ele recebeu mundo afora…

        O tio de Marcy decolou da mediocridade tanto em termos pessoais como profissionais.

Ele decolou na área em que escolheu atuar, ou melhor, na área para a qual foi escolhido, pois não escolheu.    Ele entrou na faculdade de medicina para se dedicar a uma determinada especialidade porém, por falência econômica do pai, o avô de Marcy, devido a uma traição de seu grande amigo, compadre e sócio, foi avisado de que deveria interromper os estudos e voltar para a sua cidade natal.     Como era excelente aluno foi convidado por um professor de outra cátedra, sensibilizado com a situação, para trabalhar com ele a fim de poder dar continuidade aos estudos e acabou se apaixonando e se especializando nessa outra área da medicina.

      Marcy tinha outro tio, também referência de sucesso profissional, que pensou ter escolhido ser advogado mas que, para se sustentar enquanto estudante de direito do Largo São Francisco teve que trabalhar e acabou fazendo carreira  no setor bancário.  Tornou-se alto funcionário e inclusive decolou para servir como adido `a embaixada brasileira no exterior.

      Ambos aceitaram terem sido escolhidos, ambos haviam cedido, ambos haviam aberto mão dos projetos iniciais em função das circunstâncias…     E Marcy lembrou-se não ter aceitado em seu íntimo ter sido escolhida pela vida para ser astróloga…  Foi muito difícil para ela se ver, se aceitar, e se reconhecer como bruxa…

         Enquanto deixava seus pensamentos divagarem Marcy lembrou-se de que na semana anterior ao embarque havia assistido a peça teatral : “ O gato preto”, ou seja, ela percebeu que havia visto “o gato preto” passar em sua frente, no palco, ainda que não se tratasse da figura animal, antes de viajar.   Certamente Marcy não era supersticiosa mas talvez estivesse expresso ali algum aviso não decifrado, por decifrar ou já decifrado se for considerado o difícil momento que antecedeu ao embarque pelo fato de Marcy ter descoberto que o passaporte de seu filho não tinha validade.    

       Marcy sabia não se tratar de azar pois ela entendia que nada era aleatório no Universo, tudo tinha um sentido, um significado…   Marcy acreditava na fluidez gerada pelo mérito e nos entraves criados como proteção, que tais como a dor, os incômodos, as sensações esquisitas se constituíam em avisos para não se continuar naquele “lugar”, ou para não se prosseguir naquele rumo…

        Marcy também não acreditava em “sorte”, achava que as contingências favoráveis eram resultantes de atitudes e ações motivadas pelos mais altos princípios e porque as pessoas se empenhavam e manifestavam o firme propósito de agir sempre de forma correta, integra, licita, e consequentemente encontravam fluidez na vida sendo que muitas circunstâncias difíceis tendiam a ser atenuadas, ou seja, não aconteciam de forma tão terrível quanto potencialmente poderiam ser porque um “clima favorável” havia sido previamente gerado sendo que no computo geral a pessoa poderia dizer, como aquela amiga, comissária de bordo, de Marcy sempre dizia : “ há malas que vão para Belém”

       Marcy e seus familiares chegaram aos E.U.A. e precipitadamente pegaram um táxi sem cumprir com algumas formalidades.  Resultado ? Tiveram que pedir ao taxista para retornar ao aeroporto quando já estavam próximos ao hotel.  Mais um ir e voltar como na noite anterior com seu filho que foi ao aeroporto e teve que voltar para casa.

        Chegando ao hotel todos foram para os seus quartos mas Marcy teve que voltar `a recepção porque seu pai havia subido sem a sua chave.   Mais um vai e volta.

          Intrigada com aquela sequência de repetições Marcy lembrou-se que naquela semana teve que voltar para sua casa para pegar a chave do consultório pois havia chegado  lá sem ela e não poderia fazer os atendimentos.    Lembrou-se também que seu marido, que trabalhava num município vizinho, foi para lá mas teve que voltar pois era feriado de aniversário da cidade.  E ainda que ele havia ido ao Rio de Janeiro dar uma palestra na UERJ e, mesmo hospedado próximo, confundiu-se e tomou um taxi para a UFRJ, na Ilha do Governador.  Resultado ?  Teve que voltar.

       Voltar, voltar, voltar…

        Seria mais um aviso para Marcy voltar atrás ?  Voltar atrás em suas atitudes, orgulho, prepotência ?    Ou teria ela que voltar e repetir a experiência talvez numa próxima encarnação porque nesta estaria se esquecendo de fazer-se acompanhar pela alma ?

       Marcy lembrou-se então, que em função do “possível acidente”, havia resolvido não levar na viagem os melhores artigos que tinha  e percebeu que se adotasse ou mantivesse esse tipo de postura na “viagem desta existência neste planeta”, não iria levar o “seu melhor” para a vida, não iria apresentar o “seu melhor” para a vida, não iria portanto obter também  “o melhor da vida” , ou seja, não iria se oferecer o sucesso evolutivo no ego pois não o lapidaria a contento…

      Num passeio ao Circuit City no Sawgrass de Miami o tio de Marcy ofereceu-lhe uma moderna câmera fotográfica digital que ela, para poupar-lhe o gasto, não aceitou.  Marcy levou inclusive uma bronca de seu marido que disse : “ Seu tio está querendo oferecer-lhe algo, você deveria ter aceitado para deixá-lo contente”.   Marcy sentiu-se imediatamente muito mal por não ter oferecido a ele o seu sim e também por ter ficado sem a câmera pois como ele queria comprá-la acabou dando-a de presente para uma pessoa agregada ao grupo.

Mas percebeu ali que muitas das coisas boas que o Universo ou a Vida lhe ofereciam ela se recusava aceitar…    Marcy percebeu o paralelismo das circunstâncias com pesar.  Porém, se anteriormente havia ficado com raiva de si mesma na situação envolvendo a câmera, ao perceber a relação com sua própria existência onde o seu “não” , ou a sua não aceitação verdadeiramente causavam desconforto, ela pôde se dispor a sair da “câmara”, ou do “recinto fechado em que se encontrava” devido ao estreitamento de suas idéias e simplesmente por ter ampliado a perspectiva o mal estar se dispersou.    Ao ter resgatado o verdadeiro sentido daquela metáfora a tristeza e a raiva por ter “perdido o presente” se dissiparam.    Aliás, não apenas a raiva e a tristeza mas também o ciúmes e a inveja daquele que havia ganho a câmera também se desanuviou.   Restou gratidão pelo aprendizado…    E determinação interna em aceitar os presentes da vida bem como os momentos presentes na vida…

      O tio de Marcy realmente ensinava-lhe muitas coisas, não diretamente como professor, mas vibracionalmente…

       E Marcy percebeu naquela noite em Miami  ( que pode ser mi ami, numa “escuta” de me ame, ou mi a mi, eu para mim, num resgate de si própria ) que havia “roubado” de si mesma a oportunidade de ter amado mais e de ter oferecido com maior freqüência o seu melhor.  Percebeu ainda que só a própria pessoa “rouba” de si mesma…   Quando ocorre um roubo feito por ladrões trata-se de explanação  - concreta, visível, paupável – daquilo que fazemos conosco, ou seja, quando nos “roubamos” oportunidades de crescimento, de desenvolvimento, de evolução, por conta de, no exercício do livre arbítrio, fazermos escolhas restritivas, ou “resistivas” , repetitivas, contrárias `a transformação ou `a transmutação de nosso ser, o que sem dúvida frustra, impede, adia, posterga, todo um processo alquímico, sendo este sim de grande valor para nossa alma, somos - sim e assim - sinalizados ou alertados pela vida através dos ladrões …

       Perder dinheiro, bens financeiros, ou jóias, para um ladrão, muitas vezes tem significado menor perto da perda dessas valiosas oportunidades que a cada segundo o planeta nos oferece.

       Existe até uma frase que diz : “em um minuto podemos  mudar de atitude e transformar assim todo o nosso dia” sendo que Marcy, inspirada nas vivências de sua viagem, certamente a colocaria nesses termos : “ em uma fração de segundos podemos transformar toda a nossa vida”.

        Ela também diria que nesse sentido deveríamos até mesmo agradecer aos ladrões que eventual ou frequentemente nos surpreendem pois na verdade podem estar cumprindo o papel de mensageiros.

       Assustam-nos no cotidiano, amedrontam-nos até, mas o sentido pode talvez ser de nos acordarem para a realidade do que estamos nos privando, pode talvez ser de suscitarem em nós um “up-grade” de nós mesmos…

      E se o sistema capitalista moderno  -  por gerar miséria, ou por se construir necessáriamente tendo por base a pobreza  -  está gerando cada vez mais roubos e violência talvez seja também porque nós estejamos respondendo `a vida com miséria e mesquinhez diante de nossos potenciais como seres humanos.

      Parece que fazemos questão de perceber muito pobremente a realidade multidimensional `a qual pertencemos e consequentemente ( ou seria inconsequentemente ? ) oferecemos `a nós mesmos, `a vida, e ao cosmos, poucas transmutações e sobretudo pouco, pouquíssimo, amor…    Marcy ouviu dizer que Deus -  ou os deuses e deusas  -  têm tudo no Universo, menos o nosso amor…    e ficou pensando que talvez Ele queira, ou eles queiram, o nosso amor…    Ficou pensando que talvez Ele esteja, ou eles estejam, aguardando pacientemente o nosso amor…

      “Montados” na “autoridade” de nosso ego não ouvimos, tampouco atendemos, `a nossa alma, sutil parte de nós mesmos capaz de nos conectar `a nossa essência amorosa…   Aliás, dizem que já somos amorosos, e que “apenas” não sabemos disso, não reconhecemos isso, “preferimos” a inconsciência e todas as inconseqüências provenientes dessa não consciência, desse adormecimento e letargia.

       Um ladrão talvez retire-nos, ou pelo menos momentaneamente  retire - de nosso ego – toda e qualquer autoridade…    Repentinamente ele inverte os papéis, não apenas os sociais, e com sua arma só nos oferece a submissão…     Talvez mesmo para indicar-nos que estamos em sub-missão, quer seja, vivendo “abaixo” da missão que nos propusemos antes de nascer…

        Ele detém o poder naquele instante graças `a sua arma…

        O ego, `a frente da bala de um revólver, fica abalado, se fragiliza, fica “menor” naquele instante, ou seja, fica redimensionado perante `a arma, quando na verdade deveria procurar ficar redimensionado - perante `a alma - em todos os momentos da vida !!!  O ego deveria se submeter `a alma, e não, numa situação extrema como um assalto, vir a se deparar com uma arma…   E claro que quando este vem a acontecer cabe , é claro, e por questão de sobrevivência, a submissão `a arma…    Não se sabe, mas talvez uma submissão prévia `a alma seja a única segurança a fim de evitar a submissão diante de uma arma…    Mas, egóicos que somos,  violentamos talvez o princípio, a intenção, que nos trouxe aqui  - a qual talvez seja, entre outras, manifestarmos o amor, mas violentamos essa e muitas outras intenções e leis cósmicas…     Ou seja, “ficamos fora da lei” e acabamos sendo abordados por “foras da lei” também…    Assim sendo, talvez precisemos de nossa alma, de nosso amor, para reverter o caos, para reverter a violência !!!

     Talvez, por resistirmos a nossos projetos essenciais, ou aos projetos de nossa essência, estejamos atrasando, retardando ou adiando, a nossa evolução, ou a evolução de nossos egos, e a de nosso planeta.

      Talvez ocorra então que os ladrões  -  mensageiros que são – ao nos abordarem, dêem um recado para o Universo e para nós mesmos, denunciando-nos como desperdiçadores de oportunidades…     Eles nos denunciam assim através de um processo violento que é o empunhar de uma arma, mas com isso talvez estejam demarcando nossa lentidão, nosso atraso frente ao processo evolutivo.   É como se dissessem ( perdoem o trocadilho ! ) :  “ vi o lento” .   Vi aquele que demora, que adia, que posterga, que procrastina, que lentifica-se na identificação com a alma.

      Os ladrões são rápidos não só quando nos abordam mas também pelo fato de nos denunciarem antes mesmo que possamos denunciá-los, quer seja, para que possamos denunciá-los `a policia, o roubo tem que já ter ocorrido sendo que ao ocorrer já se constituiu em denúncia deles sobre nós, ou sobre nossa lentidão conforme explicitado anteriormente.

      Quando estamos referenciados no ego e não na alma, somos primários, e nossa resposta primitiva é “olho por olho, dente por dente”.   É como se disséssemos ao ladrão : “você me denunciou, denunciou meu atraso, minha lentidão, para com as leis cósmicas e para com os anseios de minha alma, então eu vou lhe denunciar para a policia, para as leis terrenas, também”…

     E quantos de nós não tomamos o fato só nessa dimensão física, concreta, sem procurar interpretar ou “fazer a leitura” do fato acontecido, sem procurar ler, afinal de contas, a “mensagem” inserida no “abrupto” assalto ?

      Quantos de nós não desperdiçamos não só a nossa própria energia neste planeta como também as mensagens todas que nos chegam, quer nos assaltos, nos acidentes, nas doenças, nos sonhos, nas “coincidências” ou sincronicidades, nos diversos sinais da vida, enfim, nas múltiplas tentativas de comunicação de nossa alma ?

      A função da policia é prender o ladrão, a nossa é apreender o que o ladrão traz como mensagem.

    O ladrão “atirado” e também por vezes “irado”

          Retira-nos os “pertences” que a vida nos “empresta” :

               Bens, posses, ou mesmo nosso tirano ego,

                   Quando aciona ou atira sua arma

                               Mas seu objetivo talvez seja tirar-nos da dormência,

                                        Enquanto o “tira’…

                                               Não o retira de circulação…

  E a pergunta que devemos talvez nos fazer é : “o que estamos deixando escapar pelo ladrão ?”

      Ou mesmo, “ que valores estamos deixando sair pelo ralo ?  Não apenas no sentido de crivo ou lâmina que permite escoamento mas também no sentido do pouco, do inconsistente, do raro .

      Ou ainda :  “o que o revólver quer revolver em nós ?”

       Os ladrões conseguem nossos valores ( concretos ) com suas armas, mas sua missão talvez seja exigir nossos valores abstratos, ou seja, nosso padrão de comportamento valoroso conquistado a partir da alma.

      Nesse sentido, devemos mesmo deixar os valores concretos irem embora para buscarmos novos valores, tanto materiais ( o explícito que nos foi retirado ) quanto os abstratos, sutis, interno, o implícito.   Fora desta postura, tudo é perda, e não “apenas” perda daquilo que o ladrão nos roubou, mas sobretudo perda de tempo e perda de oportunidade…

        `As vezes até a vida se vai, infelizmente, a fim de resgatarmos, no Cosmos, nossa intenção perdida, para posteriormente reencarnarmos menos desmemoriados, menos displicentemente esquecidos, e mais comprometidos, mais compromissados com nossa intenção original…

          Talvez,  nos casos não extremos de perda da vida, claro, aquilo que é tido como perda material num roubo seja o pagamento pela mensagem…

      Todos que trabalham necessitam de pagamento, de soldo, de pró-labore…   Não seria diferente  nessa - por que não dizer -  profissão.   Profissão não reconhecida como tal até hoje, como também várias outras não eram até bem pouco tempo e como outras tantas ainda não são, mas profissão sim, talvez inclusive a mais atualizada e moderna por sinal, pelo menos do ponto de vista da justa e imediata remuneração…  Aliás, a partir dessa perspectiva qual profissional não os invejaria ?    Sim, porque a maioria de nós talvez ache o próprio injusto, porque aquém do que julga merecer, e o recebe muitos dias após executar o serviço, em geral, no mês subseqüente.

       Os ladrões  -  tomados como “rápidos mensageiros”  - recebem no ato !!!

       Os responsáveis pela violência talvez sejamos nós mesmos…   Eles são “requisitados” a “trabalhar”  talvez porque estejamos tão devagar, tão desacelerados, que quase estejamos “parando” o processo evolutivo tamanho o desequilíbrio que provocamos…

       Nesse momento talvez estejamos oferecendo muita energia `a nossa cabeça e pouca ao corpo, ao coração, a todos os nossos músculos para tonificarmos ações engrandecedoras, nobres e espiritualizadas, ou melhor, ações atualizadas do ponto de vista do ser multidimensional que efetivamente todos somos.

       Alguns de nós se querem punctuais, um ponto, um ego “apenas” e ponto final.  Talvez deixem assim de ser pontuais em relação aos compromissos para essa existência, uma dentre as várias existências, mas sempre a mais importante, pois é nesta que efetivamente podemos atuar e melhorar…

      Os punctuais, ou não pontuais, tendem a ficar sempre em atraso ao desprezar a importância do momento presente, atual, desta encarnação, deste privilégio…..  E assim se posterga, se procrastina, se adia…  a entrada do amor em nossas vidas, o amor que vem de dentro, o amor que pode fluir através de nós… 

      O ódio

                adia

                    o  dia

                        do  encontro  com  o  amor   ?

       Talvez ofereçamos muito “crédito” aos cabeças do sistema capitalista enquanto todo um “corpo social” fica sem recursos.  

       Talvez ofereçamos muita atenção `a nossa racional cabeça enquanto o corpo, com suas emoções e  sábias percepções, fica sem crédito.

       Talvez ofereçamos muito crédito ao ego e pouco `a nossa alma e assim sendo, quanto mais distante a alma, talvez mais próximos fiquemos `as armas…

       Que tal nos afastarmos das armas e nos aproximarmos de nossas almas ?

       Que tal experimentarmos maior intimidade com a nossa alma para evitarmos as intimidações  das armas ?

        Que tal trocarmos a letra “erre” pela letra “ele” ?   Ou seja, a-r-m-a  por a-l-m-a ?

        Assim talvez a gente “erre” menos e respeite mais “ele”,  quer seja, o outro, o Cosmos, o Universo, o Divino…   não como uma abstração, distante no além espaço, mas em nós, dentro de nós, “dentro” de tudo o que existe na imensidão do Universo, ou o Divino que está presente na figura de cada um de nós, enquanto deuses e deusas em formação que todos somos, deuses e deusas em potencial…         

      Marcy percebeu que a viagem, feita em navio, era “by sea” e que o “sea”, também poderia ser “ouvido”, ou confundido, como o parecido “see”, do verbo “ver” em inglês, e sentiu como se estivesse vendo a vida, diante daquela imensidão do mar, com outros olhos…

     Antes dela embarcar no navio, em Miami, o tempo estava ameaçando “fechar” e o marido de Marcy, que a tem acompanhado em vários momentos “férteis”, não apenas menstruais, até brincou com ela dizendo : “ se pegarmos tempestade em alto mar vamos jogar você fora do navio, como ocorreu com Jonas”.    E Marcy concordou plenamente com ele dizendo : “pior é que é verdade, “estou” Jonas”.   

       Marcy lembrou-se então que `as vésperas de sair do Brasil sua enteada comentou que havia sonhado com um furacão e ela lhe dissera : “ tomara que não encontremos nenhum na viagem”.   Os sonhos da enteada, como os dela Marcy, como os de todo mundo, são por vezes premonitórios…   Aliás, Jung já disse que  “a composição de sonhos enquanto dormimos é um aspecto do espírito”, quer seja, o nosso espírito, a nossa essência, compõe uma engenhosa série de imagens que, se nos dispusermos a decifrar, perceberemos que transmitem uma mensagem.   Mas cabe também neste caso estarmos dispostos a nos abrirmos para esses mensageiros ( os sonhos ), para essas mensagens…   Ou seja, precisamos “acordar” para os sonhos que produzimos dormindo, ou em estado de sono.  Aliás, a língua italiana explicita bem a nossa participação, ou a participação de uma instância nossa nos sonhos pois expressa-se com “ho fatto un sogno”, ou seja, “fiz um sonho”, ao invés de “tive um sonho”.   

     E talvez precisemos acordar também dos “sonhos” que são produzidos sobre nós quando estamos despertos, sendo que nem pelo fato de estarmos acordados estejamos demonstrando-nos espertos, tampouco pertos do que verdadeiramente somos, ou podemos vir a ser…

     E de fato, Marcy, diferentemente de uma amiga sua -“desligada” - que estranhou estar sozinha numa praia da Flórida mas nem por isso percebeu que por ali naqueles dias estava passando de fato um furacão, acabou se “reconhecendo em pleno furacão”, porém não concreto, e sim abstrato, não numa tempestade de ventos, mas talvez num ad-vento, tamanho tumulto interno pelo qual passava em meio aos insights, ou “raios cósmicos”, que a “atingiram” naquela viagem…

      Marcy lembrou-se também que havia recomendado a uma pessoa o livro de Jean Yves Leloup, “Caminhos da realização”, o qual desenvolve justamente o tema bíblico de Jonas. E concordou com todos os que dizem que o que dizemos ou recomendamos para os outros nós é que devemos fazer ou cumprir, ou seja, Marcy sentiu que precisava ela própria “reler’ Jonas e, nesse sentido, se dispor a fazer o que precisava e veio fazer nesta existência, e que as viagens de navio a ajudavam a lembrar pois em navegação, ou em alto mar, para qualquer lugar que se olhe há mar, há mar, há mar, ou seja, ela sentiu que precisava, o que todos precisamos, quer seja,  amar, amar, amar…

      E Marcy pede desculpas por abordar insistentemente o tema mas justifica que a bordo do navio, devido a seu bordo, ou `a sua disposição de espírito, surgiu inevitavelmente este “bordão”, o qual ela espera seja creditado como de alto bordo, em qualquer borderô, e passível de bordarmos com ele a vida, de modo a conseguirmos evitar as bordas da ilusão, com suas bordoadas capazes de nos deixar “bordô”, e assim podermos penetrar sem resistência na real existência.

 


Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário