fevereiro 11, 2010 Por Marcy
“Não se liberta de um hábito atirando-o pela janela :
é preciso fazê-lo descer degrau por degrau”.
Mark Twain
Atendendo a uma paciente em junho de 2002, Marcy percebeu um reajuste necessário entre contenção e expansão.
O poder, o prazer, a vida, o amor que a paciente havia experimen-tado no período talvez tenha sido em dose “excessiva” para seus padrões e ela, no “susto”, entrou em “surto”, como uma forma de frear, de brecar, de parar o movimento, como um meio de se conter, no sentido de se deter, e assim impedir o processo em andamento.
Mas ao invés de conter a si, frente ao poder, ao prazer, ao amor, `a vida, postura há muito praticada por ela, ela deveria, ou melhor, precisaria, passar a conter em si essa nova qualidade energética de forma a usufruir o prazer, o poder, o amor, a vida.
O trabalho que Marcy fazia com ela era no sentido de expandir seus limites e limitações, lentamente e aos poucos, de forma que ela pudesse acomodar em si o novo padrão, ou seja, de forma que ela conseguisse “aguentar” e “suportar”, no sentido de sustentar, algumas qualidades energéticas há muito desejadas porém pouco experimentadas por ela no passado.
Mas a necessária alteração de sentido do termo “conter” não se viabilizou. Conter não adquiriu conotação de ter dentro, de reter em si, de incluir, as tais instâncias da existência que ela há muito desejava mas não se permitia experimentar.
Na rigidez, dela para com ela mesma, o termo tornou-se também “inflexionável” e se manteve no significado, muito pouco significativo, de coibir, de proibir, de refrear, de manter nos limites, assim sendo, ao invés de se propiciar a “contenção expansiva” ela praticou a já conhecida, já condicionada, “contenção restritiva” e nessa contenção ela, com tensão, não provou do contentamento.
Sem dinheiro, sem trabalho, sem namorado, sem entusiasmo pela vida havia muitos anos, tais fatores, de uma hora para outra, adentraram simultaneamente em seu universo, com uma conotação de compensação, que acabou não compensando pois o aumento repentino da “dose” acarretou uma séria embriaguez, não no sentido de bebedeira, mas no sentido de inebriamento, de enlevação, que poderia resultar na ebriedade “daquele que se acha em estado de anormalidade por efeito de paixão, ou de qualquer intensa perturbação emocional” mas que resultou em séria e comprometedora perturbação, tão sedenta ela esteve nos anos anteriores.
Aliás, no mês anterior ao episódio do surto, ela reclamou muito de sede, a qual atribuía `a falta de umidade no ar, e também a um possível diabetes, mas seu exame foi negativado. De qualquer forma, seu “surto” foi resultante de uma falta de mineral no sangue, sinalizado também pela sede, o qual reposto com medicamento a retirou do quadro anterior, não sem tê-la deixado, bem como aos familiares, assustada.
Mas a sede, que era sem dúvida física, não deixava de ser psíquica também e quando ela foi se suprir, a dose da expansão foi tão intensa e repentina que acabou por gerar euforia. Resultado : ela não su(po)rtou e surtou.
O movimento deveria ter sido lento e contínuo, como alguém que rega uma plantinha cuja terra está seca há muito tempo pois neste caso, a rega somente se viabiliza aos poucos, dando tempo para a absorção da água. Se jogarmos um balde d’água a água baterá na terra e espirrará para fora. Mas foi exatamente isso que acabou acontecendo pois ela, na resistência, deu um jeito de fazer espirrar, de jogar fora, o prazer, o poder, o amor, a vida.
Acostumada ou apegada ao débito que mantinha consigo mesma, ela não conseguiu, e Marcy não foi hábil em ajudá-la, a passar para o lado do crédito. Isso ocorreu inclusive em termos financeiros, como não poderia deixar de ser, pois apesar de ter ganho muito dinheiro através de uma herança, ela comprou um imóvel e teve que pedir empréstimo complementar ao banco assumindo uma grande dívida.
Isso pode ocorrer com muitas pessoas que, endividadas aparentemente só com os bancos, na verdade se encontram em dívida consigo mesmas… em dívida com relação `a expansão de sua alma para dentro do corpo, e do corpo em relação ao usufruto da vida… Encontram-se em dívida com relação `a expansão de seu ser…
Após recuperar-se do surto ela, a paciente de Marcy, no exercício do vicio no prazer negativo, retomou seu ritmo anterior : lento, acanhado, contido, deprimido.
Reportando-se posteriormente ao surto essa paciente disse que “ viajou demais”.
Marcy lembrou-se de pessoa conhecida que havia surtado havia alguns anos e que “viajou demais” também, mas no sentido concreto, ou seja, em pleno surto ela viajou definitivamente para outro pais, e finalmente, sem restrições, Marcy aceitou a forma dessa outra pessoa se resgatar pois ao atuar a “viagem figurada” numa “viagem concreta” ela pôde sair do surto e retomar o concreto, pode voltar, se não para o seu país natal, se não para as suas origens, se não para os seus familiares, pelo menos para o seu corpo físico, para a vida no plano material, para a concretude da matéria…
Marcy pôde assim conter em si a plena aceitação das escolhas alheias…
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