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Alta


fevereiro 18, 2010 Por Marcy

 

                                 “Não é preciso chegar muito perto quando se 

                                                       quer tocar fundo…”

                                                Lucia Helena Medeiros    

 

      Marcy foi, numa segunda feira pela manhã, para a sessão tera-pêutica fechar, terminar, concluir, seu processo psicoterapêutico . Ela queria fazer um ano “sabático”, uma pausa, um descanso, um “repouso”, frente ao intenso “trabalho” interno ao qual vinha se dedicando há vários anos. Não foi uma decisão repentina, há algum tempo ela já conversava a respeito e ambos reconheciam, seu psicoterapeuta e ela, que se aproximava o momento da alta terapêutica.

     Não seria a primeira alta, ela já havia obtido sua primeira alta com outra profissional, e certamente não seria a última pois Marcy reportava um privilégio o recurso da psicoterapia para alguém, como ela, predisposta a buscar o auto-conhecimento.

      O psicoterapeuta de Marcy tinha definido a sua alta na sessão anterior conferindo-lhe liberdade para decidir pois, ainda que a julgasse pertinente, colocou-se `a disposição dela para dar continuidade ao processo caso ela sentisse necessidade.

      Eles combinaram que a resposta dela estaria vinculada `a sessão subseqüente, ou seja, aquele horário permaneceria `a disposição dela na semana seguinte de forma que se ela resolvesse dar continuidade era só aparecer, e se não aparecesse ele entenderia como uma aceitação natural, da parte dela, da alta que ele havia lhe conferido.

      Marcy resolveu comparecer para fechar com um agradecimento e assim que adentrou `a sala disse em tom jocoso : “quero um cafézinho e a conta”.   O psicoterapeuta entendeu a mensagem e deu risada.  Marcy continuou : “saio daqui muito bem nutrida, experimentei variados sabores…”   e inevitavelmente se emocionou e começou a chorar…

      Eles fizeram uma retomada dos vários momentos, inclusive dos mais recentes, das ambigüidades, dos contrastes, das complementariedades presentes na vida dela : masculino/feminino, mãe/madrasta, ousadia/cautela, velho/novo…

       Marcy encontrava-se num período de significativa tranqüilidade, estava se reconhecendo boa mãe, porque atenciosa, carinhosa, amorosa, amiga, compreensiva ; boa esposa, porque parceira responsável, companheira fiel, cúmplice solidária, amiga afetuosa, amante carinhosa ; boa madrasta porque havia cuidado com qualidade dos enteados não apenas a cada quinze dias mas ininterruptamente por mais de uma década.  O rapaz já estava casado e a garota continuava morando com ela porém, como demonstrasse autonomia em várias instâncias o registro era, em meio a enorme bem-estar, de que a missão comprida estava cumprida de modo que ela Marcy, estava podendo voltar a oferecer-se espaço, tempo e liberdade para retomar sua antiga paixão : os escritos, antes do seu prazo de validade nesta existência tornar-se prescrito.  

       Envolta em lembranças acerca dos cuidados dispensados aos diversos familiares Marcy começou a vacilar, a querer dar continuidade ao processo psicoterapêutico, e quase concluiu que a sua alta seria a mais rápida do planeta, um verdadeiro recorde, pois ela já estava se apercebendo a partir de outro ângulo, de outro ramo, de outro fractal, e já via aspectos para trabalhar mais atentamente, para se aprimorar, aspectos que continuavam presentes, quer seja, a necessidade de tornar-se cada vez mais envolvida, mais atenta, mais acolhedora, mais amorosa, mais materna, para com todos os seres que faziam parte de seu convívio.

       Marcy chegou a convidar seu psicoterapeuta naquele dia para ser seu “cúmplice” no “crime” onde pretendia acabar de “matar” o modelo de mãe distante e indiferente nela, mas ele, muito esperto aliás, disse que já estava satisfeito em ter sido “cúmplice” quando ela havia “matado” o masculino nela para se tornar mais mulher.  Ele disse que não precisaria testemunhar esse aprimoramento dela na arte de ser mãe, ao invés de indiferente, apenas diferente.

      Marcy percebeu que ao invés de aceitar a pausa estava querendo era cavar mais trabalho interno… tratava-se de característica dela…    nem o outro sugerindo e oferecendo-lhe um descanso, ela aceitava…   Marcy é daquelas pessoas que “enquanto descansa gosta de carregar pedras”.  Aliás, literalmente também pois percebeu que havia trazido consigo pedras de todos os passeios e viagens que fizera.  Pedras gratuitamente brutas, somente preciosas para ela, com as quais organizava pequenos “ cromeleques”…

       Por não ser pessoa ociosa, Marcy tende a gostar de “arregaçar as mangas”, literal e figurativamente falando.  Marcy  tem muito respeito pelos trabalhadores, que exercem os mais diversos ofícios na sociedade, mas também forte identificação com as pessoas que se voltam para os trabalhos internos, exercidos dentro de seu próprio ser.  Marcy reconhecia gostar de ambos os trabalhos.  Mas reconheceu, naquele momento, que o mais saudável a ser feito era mesmo respeitar a alta.

       Marcy queria diferente o momento presente em nome de um futuro original, criativo.  O passado havia modelado o seu presente até então e bastava !  Ele deveria ficar para trás também no que dizia respeito ao modelo “workaholic” que não a permitia relaxar, descansar, usufruir das “férias”.  Marcy percebeu-se “disléxica” trocando a letra “l” pela “f”, ou seja, nos momentos de lazer ela acionava o fazer…   Marcy queria “morrer” também para esse modelo, ou melhor, queria deixá-lo morrer dentro dela para poder usufruir a vida. Marcy sentiu que precisava deixar a vida exercer, a seu ritmo, a função de polimento que julgasse necessário nela, sem precocidades, sem enzimas a acelerarem o processo, sem ansiedades.  Na calma, c’alma, com a alma…

       Marcy aceitou a alta terapêutica, assim como estava aceitando a baixa financeira pois havia reconhecido que apesar de ter estado com pouco dinheiro naquele período não tinha “dívida na praça” e havia tido um ano de realizações, com várias viagens, um carro e um imóvel novos…   Marcy não tinha do que reclamar, somente agradecer…   Muito a agradecer…    Marcy estava se lembrando de dizer “merci” !!!

      Aliás, no trajeto para aquela última sessão Marcy tinha conversado num farol com um rapaz simpático, alegre, muito animado e falante, que não tinha as duas pernas e se locomovia num skate e recordou-se dele ter dito, entre outros comentários geniais, que tínhamos muito a agradecer…   Fantástico, fabuloso e cativante aquele sábio ser. 

      Marcy sentiu-se grata `a vida por tudo o que encontrou nela e também por todos os encontros…

       O psicoterapeuta de Marcy prosseguiu com a retrospectiva  que fazia comentando o caminho  que ela havia percorrido para se tornar mais mulher, mais feminina, e para ela se libertar de pesos, corporais, mentais e emocionais.

      Naquele momento Marcy teve a percepção clara de um ciclo que se fechava…

      O universo masculino que ela havia abraçado, com o qual havia se identificado intelectualmente desde a infância, e que se explicitou em sua primeira escolha profissional, estava se encerrando justamente no período em que ela, sem programar, passava com seu filho pela cidade na qual havia cursado um colegial técnico  e resolveu mostrar-lhe a escola.

       Curiosamente a inesperada visita aconteceu justamente na semana de aniversário da escola. Marcy também tinha ido conhecer a escola, na qual viria a estudar, numa semana de aniversário, sendo que ela tinha `a época, a mesma idade de seu filho naquela data da visita.  Coincidiram os momentos, as épocas do ano, as idades, em caminhos inversos pois Marcy, naquela altura da vida, saia não apenas de São Paulo para a cidade onde tinha morado passando pela cidade onde tinha estudado, mas saia da identificação com masculino e no passado, na adolescência,  ela, com identificação profissional masculina saia da cidade onde morava para a cidade onde estudou até posteriormente chegar a São Paulo..

       Mas a escola não era mais a mesma, encontrava-se “envelhecida”, “decadente”, “triste” e por isso foi um re-encontro ao mesmo tempo emocionante e decepcionante.

       E quando eles chegaram na cidade onde Marcy tinha morado, também sem imaginar ou suspeitar, ela encontrou a pessoa que a “inspirou” a ir estudar naquela escola.   Na pré-adolescência Marcy tinha se apaixonado por ele e, tendo recém concluído um teste vocacional que lhe indicava as ciências exatas, e também informada da excelente qualidade da escola que ele estudava, resolveu unir o útil ao agradável…

      Aquele segundo re-encontro do dia foi igualmente surpreendente e contrastante, mas representou um resgate, não dele ou da platônica e “plutônica” paixão, é claro, mas de Marcy para si mesma e do reconhecimento de sua deliciosa maturidade.  Marcy estava se sentindo satisfeita e orgulhosa de seu percurso de vida, de suas escolhas, de sua coragem, de suas ousadias, de seu esforços, e da longa trajetória que a havia colocado naquele presente, naquele lugar atual e pessoal.

         Marcy reconhecia o passado como passado e o queria contíguo e não com ela…

         E reconhecia o presente como mais gostoso, mais bonito, mais jovial inclusive…

         Marcy percebeu que lá atrás havia se identificado com o universo masculino, na infância devido aos fortes exemplos de seu pai e de seu tio, na pré-adolescência através daquela paixão e na vida em função da liberdade conferida aos homens…   E até lamentou não ter abraçado naquela tenra e pré- adolescente idade aquele garoto, mas o masculino… Mas estava feliz porque seu psicoterapeuta a havia ajudado a resgatar seu feminino…   Não foi em vão tê-lo procurado, em 1996, revelando e reverberando o desejo de ser vista como mulher, após a experiência de paixão relatada no capítulo “workshop”.

       Marcy descobriu que os momentos de paixão em sua vida deveriam ser colocados no devido lugar, no lugar de revelações, revelações não para o outro mas revelações acerca dela mesma.   Lugar de conquista, conquista de si própria…    Desperdício teria sido tentar conquistar o outro, no caso dela um geriatra, profissional que cuida de idosos.   Marcy optou por cuidar do que era velho nela, sem “usar”, imprópria e inconscientemente, o outro. Marcy preferiu ousar se apropriar conscientemente de si mesma.

        Entre as duas opções de tratamento `a questão – um para fora, “atuando” a paixão e criando, na fusão com o outro, muita “confusão”, o outro para dentro, “aturando” a paixão e criando, na fusão consigo mesma, efusão, Marcy escolheu a segunda com o auxílio de uma psicoterapia. 

      Conforme expôs no capítulo workshop, ao invés de vivenciar a experiência de amante ela escolheu dar alguns micro ou nano passinhos em direção `a sua qualidade “diamante” e reconheceu que a opção psicoterapêutica foi preciosa.

       Marcy percebeu que o psicoterapeuta que ela havia escolhido a tinha “feito” mulher, sem nenhuma conotação sexual, mas de forma plenamente sexuada : mulher na vida, mulher para a vida, mulher mulher, mulher feminina, inteira, identificada e identificável como tal…

      O psicoterapeuta de Marcy a “fez” mulher através da palavra, através do poder da palavra, sutilmente reorganizando-lhe o campo energético, sem sexo, é claro, mas pleno de nexo, no exercício da sutileza.   

       Foram vários os “toques” que ele lhe deu, nenhum físico, sequer um aperto de mãos, mas todos a permitirem mudanças concretas.  Mudança de padrão vibracional, mudança de padrão energético a proporcionarem para Marcy uma vida mais orgástica, mais prazerosa, mais criativa.

       Marcy lembrou-se que no período, enfrentando o contra de seu marido, permitiu que a enteada fosse para a praia com o namorado perder a virgindade, ou seja, como diz o senso comum, ela foi “tornar-se mulher”.    Sincronicidade ?    Ela “tornando-se mulher” num aspecto e Marcy também tornando-se mulher em outros aspectos ?  Marcy ficou emocionada…  A enteada estava se iniciando na arte do  “namoro” e Marcy e seu marido estavam intensificando o “namoro” naquele período.   Foi muito gostoso para Marcy ter percebido o movimento !  E Marcy estava gostando muito de ser mulher…   Ela, que há décadas atrás, ao entrar na adolescência e na menarca havia achado horrível, e totalmente desconfortável, ser mulher, havia feito um amplo resgate !!!  Ela, que no início do casamento teve que matar o desejo sexual e reduzir sua libido feminina em função de problemas do marido, estava resgatando-se na feminilidade.  Um amplo resgate !!! Simone de Beauvoir se sentiria orgulhosa de Marcy !!!

       O psicoterapeuta de Marcy comentou que a mãe dela também havia “matado” o próprio desejo, no caso o profissional, pois foi obrigada a seguir a profissão que a mãe dela determinou ao invés de seu próprio impulso vocacional.  Ela foi proibida de dar continuidade aos estudos até a universidade, ao contrário de seus irmãos, os homens da família, que foram estimulados e apoiados financeiramente enquanto que ela teve que se conter, teve que reduzir sua “libido profissional” a zero e, como normalista, se contentar em exercer o nobre oficio de professora primária, chamado inclusive de sacerdócio. Porém, sentiu-se desconfortável e frustrada a vida toda simplesmente porque a sua vocação era outra.  É claro que ela invejou o universo masculino, pleno de permissão, de autorização, de liberdade, e Marcy também…

      Mas, inconscientemente, ela interditou também o futuro de Marcy quando não a apoiou, no caso emocionalmente, `a época da engenharia, sendo que o resultado foi Marcy ter desistido da profissão, devido a uma conjunção de fatores sim, mas a avó e a mãe de Marcy foram ambas castradoras da profissão das filhas….

      O psicoterapeuta comentou a seguir acerca da profissão “feminina” e “acolhedora” de Marcy com relação `a possibilidade dela viabilizar a junção da psicóloga com a astróloga nos atendimentos em consultório e afirmou que ela fazia “com maestria” recortes do momento e que poderia ajudar as pessoas com isso, situando-as.     

      Marcy recordou-se, naquele momento, do fato de saber se localizar numa cidade, inclusive no exterior, mesmo que tenha recém chegado ou cuja língua não fale, como uma ocasião em que chegou de madrugada numa cidade européia e viu, de dentro do taxi, um belíssimo casaco numa vitrine.   Na manhã seguinte ela entrou no metrô disposta a comprá-lo e chegou direitinho na loja.  Outra ocasião, em viagem com um amigo, e entretida nas livrarias ( mesmo não falando a língua local !?! ), seu amigo, impaciente, não quis esperá-la para voltar ao hotel  pois receberia telefonema da namorada `as 19 horas ( não havia celulares ). Marcy explicou-lhe detalhadamente o caminho, quase uma simples reta, e permaneceu na livraria mais meia hora. Faltando 15 minutos para as 19 horas Marcy, já de volta ao hotel, não encontrou o amigo e acabou atendendo o telefonema da namorada dele. Quando ele finalmente chegou, perto das 20 horas, estava bravíssimo com ela por ter se perdido…    Mas como, se ele é quem havia dispensado a “guia local” ???

      Após tais divagações, não se sabe se retornando `a sessão ou indo “de vez” para o espaço, Marcy se lembrou que de fato sabia  ler os mapas astrológicos e que poderia, portanto, ajudar aos demais a se localizarem no planeta…

     Imaginou então o “folder” :  “ Estamos em trânsito por este magnífico planeta e podemos `as vezes nos sentir desorientados diante das inúmeras vias e possibilidades oferecidas pela generosidade a abundância por ele disponibilizada aos seres humanos…    Que tal a breve companhia de uma co-pilota/navegadora com brevê em astrologia para não se ralar tanto nesse rali ?  Que tal usar um mapa celeste para localizar e melhor posicionar seu corpo diante da missão que a sua alma quer assumir ?  Ou para melhor definir o trajeto ou a trajetória a cumprir ?  Sempre é tempo de despertar para a multidimensionalidade do ser !!!   Evite dirigir a vida com sonolência ou na embriaguez das ilusões.   Evite pegar carona em outras histórias de vida.   Construa o seu caminho com criatividade, com responsabilidade, e sobretudo com amor, pautado(a) no auto-conhecimento, e usando todo o potencial de seu veículo físico… “

      Marcy foi longe em seu silêncio, pleno de idéias, idealizações e fantasias, pois ela chegou a se ver como engenheira de trânsito humano por este planeta…

       E o silêncio dela foi generosamente respeitado pelo psicoterapeuta, como sempre…

       Naquele dia, ao término da sessão, e das sessões como um todo - do processo psicoterapêutico -serotonina equilibrada, Marcy saiu feliz, alegre, otimista, satisfeita…  

        Ela pagou a conta e saiu c’a fé na vida e com gratidão no coração…   Mais uma etapa cumprida, com saber e com sabor, `a moda de Roland Barthes…  E menor dose de soberba !!!


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