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Cobranças


fevereiro 18, 2010 Por Marcy

                   “Somos o que fazemos, mas somos principalmente,

                                o que fazemos para mudar o que somos”

                                                      Eduardo Galeano

 

      Em julho de 2001 Marcy sonhou que havia uma cobra em seu pé e que ela, sem querer, havia pisado em seu “pescoço”, sendo que quando atentou para a cena a cobra já estava morrendo.  Impactada, ela viu posteriormente várias cobrinhas filhotes e acordou assustada.

      Ao final daquela manhã ela lembrou-se da cobra e disse brincando que iria jogar na loteria…   Marcy nunca teve afinidade com jogos e mesmo nas raras vezes em que arriscou uns números esqueceu-se de conferir, ou seja, ela jamais seria uma ganhadora em loteria pois não tinha perfil para isso.   Após algumas divagações a respeito do sonho, ela esqueceu-se das cobras e dos bilhetes.

       Alguns dias depois, ao entrar num shopping e passar diante de uma lotérica, ela disse aos seus familiares que ao sair do cinema iria comprar um “bilhete da cobra”.  Esqueceu-se mais uma vez, é claro, mas resolveu retornar ao shopping e seu marido sugeriu-lhe comprar não apenas o bilhete mas também jogar nos “números da cobra”  na mega sena.  Não havia bilhete com o “número da cobra” disponível mas ela fez o jogo da mega sena.  Acabou não conferindo o resultado porque esqueceu-se  que havia feito o jogo…    Quando lembrou-se também não conseguiu conferir porque esqueceu onde havia guardado o comprovante…

      Havia passado alguns dias quando o marido dela chegou em casa contando que estava andando distraidamente na rua e uma pessoa o abordara em voz alta, assustando-o inclusive, ao dizer : a cobra !!!   Ele nem tinha entendido direito, achou que havia uma cobra em plena metrópole, mas a pessoa mostrou-lhe então bilhetes de loteria com o final 33, para sorteio no dia seguinte.  Quando o marido dela viu o bilhete notou que a cidade homenageada era a cidade natal de Marcy e resolveu comprá-lo.

      Quando mostrou para Marcy o bilhete ela deu pulos de alegria, comemorando, como se já tivesse recebido o prémio, tão interessante achou a coincidência de ter as fotos de sua cidade natal no bilhete.   Ganhar o prêmio tornou-se secundário, dispensável mesmo, naquele instante em que ela fazia uma festa com o bilhete na mão.

      No dia seguinte ela achou o comprovante do jogo da mega sena e conferiu ambos os resultados mas, é claro, a cobra não foi premiada.  Aliás, os números 63, 43, 23 e 13 contemplaram os primeiros prêmios, todos com final 3, menos o 33 da cobra.

       O maroto pai de Marcy resolveu provocá-la dizendo que ela não sabia interpretar sonhos.  Marcy retrucou que dali em diante não seria mais psicóloga e sim pizzicóloga pois para compensar os pacientes dos equívocos de interpretação passaria a entregar “psicoterapias” em domicílio, sendo que a cada dez sessões o paciente ganharia uma grátis.

      Ela ainda estava pensando na bobagem que havia dito quando se lembrou que havia matado a cobra no sonho e brincou, na tentativa de “se corrigir”, dizendo que deveria ter jogado em bicho capaz de matar uma cobra.

      Certamente o sonho foi um prenúncio das transformações e dos insights que chegariam no mês seguinte pois, de certo modo, em agosto ela iria se defrontar e “matar”, como veio a descobrir posteriormente, um aspecto venenoso em si mesma, uma aspecto de víbora, de mãe cobra, ou melhor, de mãe que cobra, que exige, que é rigorosa, ao invés de ser tolerante, compreensiva.    Aliás, Marcy percebia que quando cobrava algo com rigor matava em si o aspecto mãe, o aspecto maternal, e assumia uma função paterna rígida, o que lhe causava mal estar, tal qual o sonho ocasionou.

      Mas o sonho havia mostrado também os filhotinhos, havia mostrado novos seres recém-nascidos, talvez novos aspectos aos quais ela poderia dar vida uma vez superada as cobranças….    O sonho mostrou que talvez ela pudesse trocar ou desmembrar uma enorme cobra(nça) em pequenas cobr(anc)inhas. 

      Marcy queria trocar também a seriedade pela serenidade, ou por outra, queria a seriedade da verdade e não a seriedade de verdade.

      E se o sonho não foi premonitório com relação aos números da loteria, pode-se dizer que foi premunitório, ou seja, permitiu “imunidade ou resistência a uma infecção” pois Marcy passou em agosto daquele mesmo ano, como o capítulo T.P.M. descreve, por um verdadeiro processo de cura, o que também, vale lembrar, está inscrito no símbolo da cobra do caduceu.  E esta cura foi a “sorte grande” que coube `a Marcy, a sorte que ela reporta significativa pois enriqueceu não apenas os bolsos dela, como a loteria “lo” teria feito, mas toda a vestimenta do seu ser  - seu ego -  com novas atitudes e posturas, valores esses, além de significativos para a convivência diária, também duradouros para a alma.

 


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